Processamento auditivo central: o que é, sinais e como é a avaliação
Neste artigo (8 partes)
- O que é processamento auditivo central
- TPAC é comum?
- Sinais de TPAC em crianças e adultos
- TPAC, TDAH e dislexia: qual a diferença?
- Como é a avaliação do processamento auditivo central
- Depois do exame: quem trata o TPAC?
- Perguntas frequentes sobre processamento auditivo central
- Processamento auditivo central em Copacabana
Tem gente que faz a audiometria, ouve todos os apitos e, mesmo assim, não entende o que a professora diz numa sala barulhenta, pede “hã?” o tempo todo ou se perde na conversa de um restaurante cheio. Em muitos desses casos o ouvido capta o som direito e a dificuldade está no passo seguinte: o processamento auditivo central, o trabalho que o cérebro faz para dar sentido ao que chega pela audição. Neste artigo você vai ver o que é o transtorno do processamento auditivo central (TPAC), os sinais em crianças e adultos, como ele se diferencia do TDAH e da dislexia, como é a avaliação e quem cuida da pessoa depois do exame.
O que é processamento auditivo central
É o conjunto de habilidades que o cérebro usa para aproveitar o que a orelha ouviu. O guia do Conselho Federal de Fonoaudiologia (CFFa) sobre o tema o define como a eficiência com que o sistema nervoso auditivo central usa a informação que chega pela audição. É uma função do cérebro, e não do ouvido.
Entre as habilidades que o guia cita estão:
- saber de onde vem o som;
- entender a fala no meio do barulho;
- compreender uma mensagem mesmo quando ela chega distorcida ou cortada;
- prestar atenção ao que entra por uma orelha e ignorar o que entra pela outra, ou reconhecer sons diferentes que chegam às duas ao mesmo tempo;
- perceber pequenas diferenças de altura, volume e duração entre os sons;
- perceber pausas muito curtas e a ordem dos sons numa sequência.
O que é TPAC (ou DPAC)
TPAC é a sigla de transtorno do processamento auditivo central. Também aparece como DPAC, de distúrbio do processamento auditivo central. Pela definição da Associação Americana de Fala, Linguagem e Audição (ASHA), que o CFFa adota, o TPAC é uma falha em um ou mais desses processos: localizar o som, discriminar sons parecidos, reconhecer padrões sonoros e lidar com o tempo dos sons, como pausas e sequências.
O que mais confunde as famílias: audiometria normal não garante processamento normal. O CFFa lembra que ouvir bem os tons puros do exame não quer dizer que a pessoa consiga processar e interpretar a fala e os outros sons do dia a dia. A audiometria mostra se o som chega. A avaliação do processamento auditivo mostra o que o cérebro faz com ele.
TPAC é comum?
2% a 5%
das crianças em idade escolar com queixa de aprendizagem têm o TPAC como problema principal (CFFa)
76,4%
de 2.015 australianos com 55 anos ou mais tiveram alteração em algum teste de processamento auditivo (Golding, 2004)
Os números variam, porque ainda não há consenso sobre os critérios de diagnóstico. O CFFa estima que de 2% a 5% das crianças em idade escolar que chegam com queixa de desenvolvimento ou de aprendizagem tenham de fato o TPAC como problema principal.
No adulto, a frequência sobe com a idade. O CFFa cita estimativas de 17% entre 50 e 54 anos, podendo passar de 70% depois dos 60. Num estudo populacional na Austrália, 2.015 pessoas com 55 anos ou mais fizeram testes de fala, e 76,4% tiveram alteração em pelo menos um deles. Quanto mais velha a pessoa, mais testes alterados. A Academia Americana de Audiologia (AAA) lembra que o transtorno atinge crianças e adultos, inclusive idosos, e que a alteração do processamento central faz parte da perda auditiva da idade, a presbiacusia.
Sinais de TPAC em crianças e adultos
Os sinais mudam de pessoa para pessoa, e ninguém tem todos. A lista abaixo junta as queixas mais comuns descritas pelo CFFa e pela AAA:
- dificuldade para entender a fala com barulho de fundo ou em lugares com eco;
- pedir para repetir com frequência (“hã?”, “o quê?”);
- dificuldade para seguir instruções e para acompanhar quem fala rápido;
- dificuldade para saber de onde vem um som;
- dificuldade para entender ao telefone;
- respostas que não combinam com o que foi perguntado;
- demora para responder ao que ouve;
- não perceber a entonação que marca uma piada ou uma ironia;
- dificuldade para aprender outra língua ou palavras técnicas novas;
- distrair-se com facilidade e ter dificuldade para manter a atenção;
- dificuldade de leitura, de escrita ou de aprendizagem na escola.
A AAA avisa que esses comportamentos se parecem com os de outros quadros de linguagem, atenção e comportamento. Ter um ou mais deles não quer dizer que a pessoa tenha TPAC, e sim que vale investigar.
Na criança
Na criança, os sinais muitas vezes aparecem na escola, que junta barulho, eco e muita informação falada. O CFFa lista alguns fatores de risco:
- fatores genéticos;
- doenças neurológicas, como meningite e traumatismo craniano;
- otite média de repetição ou outros períodos em que a criança ouviu mal;
- problemas na gestação e no nascimento, como falta de oxigênio, infecção por citomegalovírus, icterícia forte, baixo peso e prematuridade.
No adulto e no idoso
No adulto, a queixa costuma ser “eu escuto, mas não entendo”. A AAA recomenda investigar o processamento central em adultos mais velhos que têm dificuldade para ouvir mesmo com a audiometria normal, que se queixam mais do que o audiograma explica ou que tiram do aparelho auditivo menos benefício do que o esperado. Também entra nessa lista quem teve traumatismo craniano, AVC ou demência.
Como a perda auditiva da idade e a alteração do processamento central costumam andar juntas, a avaliação começa sempre pela audiometria. Se o problema principal for a audição na orelha, o artigo sobre perda auditiva explica os próximos passos.
TPAC, TDAH e dislexia: qual a diferença?
São quadros diferentes que muitas vezes aparecem juntos. O TPAC é uma dificuldade da audição no cérebro. O TDAH (transtorno do déficit de atenção com hiperatividade) é um transtorno da atenção, e a dislexia, da leitura. Eles se confundem porque os sinais se parecem: a criança se distrai, pede para repetir e vai mal na escola.
Por que eles andam juntos
Num estudo com 30 crianças com diagnóstico de TPAC, metade também preenchia os critérios de TDAH, taxa muito acima da população em geral. A outra metade não tinha TDAH, e o grupo inteiro mostrou dificuldades de linguagem.
Outro estudo avaliou 68 crianças em idade escolar com suspeita de TPAC. Os testes confirmaram o transtorno em 72% delas, e quase metade (47%) tinha dificuldades em três áreas ao mesmo tempo: processamento auditivo, linguagem e leitura. Era mais comum ter o TPAC junto com dificuldade de leitura ou de linguagem do que ter qualquer um desses problemas sozinho.
Por que separar importa
Porque o tratamento muda. O CFFa orienta intervenção voltada para a audição quando a dificuldade auditiva é comprovada, e intervenção especializada quando o problema é de linguagem, atenção ou memória. Um exemplo do próprio guia: uma criança com transtorno do espectro autista pode ir mal nos testes porque tem dificuldade de linguagem para entender e responder às tarefas, sem que isso seja TPAC.
O exame de processamento auditivo sozinho não fecha o quadro. O fonoaudiólogo aplica os testes e diz quais habilidades auditivas estão normais ou alteradas. Para separar o TPAC de outros transtornos, o CFFa recomenda juntar avaliações de linguagem, neuropsicológica e psicoeducacional, feitas pela equipe que acompanha a pessoa. A AAA acrescenta um detalhe útil: quando os resultados dos testes não combinam entre si, isso sugere que algo além da audição, como um problema de atenção, está interferindo.
Como é a avaliação do processamento auditivo central
É uma bateria de testes feita pelo fonoaudiólogo, numa sala com tratamento acústico, com fones de ouvido. A pessoa ouve sons e palavras e responde repetindo, apontando ou dizendo o que percebeu. Não dói. A página do exame de processamento auditivo central (PAC) mostra como ele é feito na Hear Clean.
Antes do exame
O CFFa lista alguns requisitos:
- Idade mínima de 7 anos. Antes disso, o cérebro ainda não amadureceu o bastante para as tarefas. Em crianças menores, a investigação segue outro caminho, e o artigo sobre audiometria infantil mostra os exames de cada idade.
- Audiometria e imitanciometria recentes. A audiometria tonal e vocal mostra se a pessoa ouve os sons, e a imitanciometria mostra como está o ouvido médio, atrás do tímpano. O ideal é que sejam feitas perto da data da avaliação.
- Ouvido médio sem alteração no dia do exame.
- Entender as tarefas, falar de forma que o examinador compreenda e conseguir manter a atenção durante os testes.
Quem tem perda auditiva de até 50 dB, igual nos dois ouvidos, ainda pode fazer os testes, com cautela na interpretação. Em quem usa aparelho auditivo, os testes servem para acompanhar as habilidades, sem dar o rótulo de TPAC.
Os testes
O CFFa recomenda pelo menos um teste de cada grupo abaixo, escolhido pela idade e pela queixa:
| Habilidade avaliada | O que a pessoa faz | Exemplo de teste |
|---|---|---|
| Entender a fala difícil | Repete palavras ou frases com o som abafado ou com ruído | Fala filtrada |
| Ouvir as duas orelhas ao mesmo tempo | Ouve números diferentes em cada orelha, ao mesmo tempo, e repete todos | Dicótico de dígitos |
| Perceber pausas curtas | Ouve um chiado e avisa quando percebe uma pausa muito rápida no meio dele | GIN (detecção de intervalos no ruído) |
| Perceber a ordem dos sons | Ouve uma sequência de sons graves e agudos e diz em que ordem vieram | Padrão de frequência |
| Juntar o que as duas orelhas ouvem | Recebe partes diferentes de uma palavra em cada orelha e diz a palavra inteira | Fusão binaural |
Quanto tempo dura
Segundo o CFFa, a avaliação costuma levar duas sessões, ou uma só com intervalos para descanso, e algumas pessoas precisam de mais. A AAA considera que uma bateria bem escolhida cabe em 45 a 60 minutos e que passar de uma hora aumenta o cansaço e a desatenção.
Como se preparar
- Vá descansado. Cansaço, sono, febre e gripe mudam as respostas. Se a pessoa estiver doente, vale remarcar.
- Não suspenda remédios por conta própria. O CFFa orienta que quem trata um transtorno de comportamento ou de atenção faça o exame com o remédio de costume, e o fonoaudiólogo anota qual é e o horário.
- Leve os exames de audição e, se houver, relatórios da escola e de outros profissionais. Eles ajudam a escolher os testes certos para a queixa.
O laudo
O CFFa recomenda um relatório com o resultado de cada teste por orelha, o valor esperado para a idade, a conclusão sobre a presença ou não de TPAC, as habilidades alteradas e as sugestões de conduta. Na devolutiva, o fonoaudiólogo explica à família, ou à própria pessoa, o que foi avaliado e o que apareceu.
Depois do exame: quem trata o TPAC?
O fonoaudiólogo. O CFFa, com base na ASHA, diz que a intervenção no TPAC é feita exclusivamente por esse profissional, logo depois do diagnóstico. Quando há outros transtornos juntos, a equipe inclui outros especialistas.
A intervenção tem duas frentes:
- Tratamento: o treinamento auditivo, com exercícios dirigidos às habilidades que deram alteradas, treino de fala no ruído, treino musical e estratégias de atenção e memória. A ideia é aproveitar a capacidade do cérebro de se reorganizar com a prática.
- Gerenciamento: mudanças que diminuem o impacto no dia a dia, como reduzir o barulho, o eco e a distância de quem fala, falar de forma clara e, em alguns casos, usar um sistema de microfone remoto, em que a voz do professor ou de quem fala chega direto a um receptor no ouvido da pessoa.
Quanto aos resultados, o CFFa reconhece que a maior parte das abordagens se apoia em estudos de casos e em opinião de especialistas. A AAA aponta evidência um pouco mais forte para a fala clara e para o microfone remoto. A resposta varia de pessoa para pessoa, e quem conduz a terapia acompanha a evolução refazendo os testes.
Exercícios para processamento auditivo central
Os exercícios que tratam o TPAC são os do treinamento auditivo, escolhidos pelo fonoaudiólogo a partir do exame. Segundo a AAA, funcionam melhor quando são intensos, ficam um pouco acima do que a pessoa já consegue e exigem participação ativa, com retorno sobre acertos e erros.
Para crianças pequenas em risco, ainda sem idade para o diagnóstico, a AAA sugere brincadeiras auditivas com a família e a escola, como dança das cadeiras e “o mestre mandou”. Jogos prontos da internet podem divertir, mas não substituem o treino ajustado ao que deu alterado. Programas comerciais que prometem tratar o processamento auditivo só com músicas ou sons modificados não têm apoio das associações de audiologia e de pediatria, segundo a AAA, por falta de evidência e porque podem expor a criança a som alto demais.
Em casa, algumas atitudes ajudam desde já:
- chame a pessoa pelo nome e espere que ela olhe para você antes de falar;
- fale de frente, sem pressa e com clareza, sem precisar gritar;
- desligue a televisão ou a música durante conversas importantes;
- confira se ela entendeu antes de seguir em frente;
- na escola, converse com os professores sobre barulho, eco e a distância entre a criança e quem fala.
Perguntas frequentes sobre processamento auditivo central
TPAC tem cura?
Ninguém pode prometer cura. O treinamento auditivo busca melhorar as habilidades alteradas, e as mudanças no ambiente reduzem o impacto no dia a dia. A resposta muda de pessoa para pessoa, e por isso o fonoaudiólogo reavalia ao longo da terapia.
Adulto pode ter TPAC?
Pode. A AAA diz que o transtorno afeta crianças e adultos, inclusive idosos, e que fica mais comum com a idade. A queixa típica é ouvir, mas não entender, principalmente no barulho.
A partir de que idade dá para fazer o exame?
A partir de 7 anos, segundo o CFFa e a AAA. Entre 6 anos e 6 anos e 11 meses, alguns testes podem ser aplicados, mas o resultado indica só risco. Antes disso, a criança passa por avaliação da audição e da linguagem com os exames próprios para a idade.
O exame de processamento auditivo central é o BERA?
Não. O BERA, ou PEATE, registra com eletrodos a resposta elétrica do nervo auditivo e do tronco encefálico, sem a pessoa precisar responder. A avaliação do processamento auditivo central descrita neste artigo é comportamental: a pessoa ouve e responde. Em alguns casos, os exames eletrofisiológicos complementam a investigação.
Processamento auditivo central em Copacabana
Na Hear Clean, clínica de fonoaudiologia em Copacabana, fazemos o exame de processamento auditivo central em crianças a partir de 7 anos, adultos e idosos, na nossa sala acústica. Cada sessão dura de 30 a 60 minutos, e o número de sessões varia de caso para caso. Não é preciso pedido médico, e você recebe o laudo por escrito. Pedimos audiometria e imitanciometria recentes: você pode trazer as suas ou fazer a audiometria e a imitanciometria com a gente. Quando o exame mostra alteração, a fonoaudióloga também pode conduzir a terapia, o treinamento auditivo, planejada a partir das habilidades que precisam de estímulo e reavaliada ao longo do caminho.
Agende sua avaliação auditiva
Rua Santa Clara, 70, sala 1008, Copacabana, Rio de Janeiro. De segunda a sexta, das 9h às 18h.
Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta com médico otorrinolaringologista e fonoaudiólogo.
Referências
- Conselho Federal de Fonoaudiologia. Guia de orientação: avaliação e intervenção no processamento auditivo central. CFFa, 2020. CFFa
- American Academy of Audiology. Clinical practice guidelines: diagnosis, treatment and management of children and adults with central auditory processing disorder. AAA, 2010. AAA
- Riccio CA et al. Comorbidity of central auditory processing disorder and attention-deficit hyperactivity disorder. Journal of the American Academy of Child and Adolescent Psychiatry, 1994. PubMed
- Sharma M et al. Comorbidity of auditory processing, language, and reading disorders. Journal of Speech, Language, and Hearing Research, 2009. PubMed
- Golding M et al. Prevalence of central auditory processing (CAP) abnormality in an older Australian population: the Blue Mountains Hearing Study. Journal of the American Academy of Audiology, 2004. PubMed