Fonofobia e misofonia: o que são e como lidar
Neste artigo (13 partes)
- O que é fonofobia
- Quando procurar ajuda
- Misofonia: o que é
- Por que o barulho de mastigação irrita tanto?
- Sintomas da misofonia
- Misofonia é comum?
- Qual a diferença entre fonofobia, misofonia e hiperacusia?
- O que causa a misofonia
- Como é feito o diagnóstico
- Misofonia tem cura? O que ajuda de verdade
- Como lidar com a misofonia no dia a dia
- Perguntas frequentes sobre fonofobia e misofonia
- Fonofobia e misofonia em Copacabana
Tem gente que fica tensa só de imaginar o estouro de um balão na festa de aniversário. Tem gente que precisa sair da mesa quando o marido mastiga a torrada. Os dois incomodam com som, mas não são a mesma coisa. No primeiro caso, o nome é fonofobia: medo ou aversão ao som, que faz a pessoa fugir do barulho, e um sintoma clássico da enxaqueca. No segundo, é misofonia: raiva, irritação ou nojo diante de sons específicos, como o de mastigar. Neste artigo você vai ver o que cada uma é, como elas se diferenciam da hiperacusia, o que se sabe sobre as causas e o que a ciência mostra que ajuda.
O que é fonofobia
Fonofobia é uma sensibilidade ao som que vem acompanhada de medo ou de ansiedade. O serviço de saúde britânico (NHS) a descreve de forma simples: são sons que deixam a pessoa ansiosa. Ela não precisa de um barulho forte para aparecer, e o incômodo costuma levar a pessoa a evitar lugares e situações.
Uma revisão internacional sobre sensibilidade ao som organizou as reações em quatro grupos: o som parece alto demais, o som irrita, o som dá medo e o som dói. A fonofobia fica no grupo do medo.
Fonofobia na enxaqueca
Na medicina, a palavra aparece com mais frequência ligada à dor de cabeça. A Classificação Internacional das Cefaleias (ICHD-3), usada por neurologistas no mundo todo, define fonofobia como hipersensibilidade ao som, mesmo em volume normal, que em geral faz a pessoa evitar o barulho. Na mesma classificação, sentir incômodo com a luz e com o som ao mesmo tempo durante a dor de cabeça é um dos critérios para o diagnóstico de enxaqueca sem aura.
É por isso que muita gente busca “fotofobia e fonofobia” juntas. Fotofobia é o mesmo fenômeno com a luz. Pelos critérios da classificação, a fonofobia da enxaqueca aparece durante a crise de dor. Se o seu incômodo com barulho vem nas crises de dor de cabeça, quem investiga e trata é o neurologista.
Quando procurar ajuda
Não é emergência, mas merece avaliação quando atrapalha a vida. Procure ajuda se:
- o incômodo com som vem nas crises de dor de cabeça, junto com sensibilidade à luz ou enjoo: converse com o neurologista;
- sons comuns do dia a dia parecem altos demais ou doem, o que o NHS indica como motivo para consulta: comece pelo otorrinolaringologista;
- a sensibilidade ao som veio junto com zumbido, perda de audição ou sensação de ouvido tampado: otorrino e avaliação auditiva;
- você passou a comer sozinho, evitar a família, faltar ao trabalho ou se isolar por causa de certos sons: um psicólogo com formação em terapia cognitivo-comportamental é o profissional indicado.
Misofonia: o que é
Misofonia é uma tolerância reduzida a sons específicos, ou a coisas ligadas a esses sons, que provocam uma reação emocional forte. A palavra quer dizer, ao pé da letra, “ódio ao som”. Até pouco tempo atrás, cada grupo de pesquisa descrevia a misofonia de um jeito. Em 2022, um comitê de 15 especialistas de audiologia, psicologia, psiquiatria e neurociência publicou a primeira definição de consenso, votada em quatro rodadas entre 2020 e 2021. Só entrou no texto final o que teve o acordo de pelo menos 80% do grupo.
O ponto central dessa definição é que a reação não depende do volume. O que dispara o incômodo é o tipo de som e o que ele significa para a pessoa. O barulho baixinho de alguém mastigando pode ser insuportável.
Esses sons são os gatilhos. Os mais comuns, segundo o consenso, vêm de outra pessoa:
- mastigar, comer, estalar os lábios, sorver, tossir, pigarrear e engolir;
- sons do nariz, como respirar alto e fungar;
- clique de caneta, digitação no teclado, batucar os dedos ou o pé, arrastar os pés;
- tique-taque de relógio e sons de animais.
Há também gatilhos visuais, como ver alguém balançar a perna ou comer. E o som que a própria pessoa faz em geral não provoca a mesma reação.
Por que o barulho de mastigação irrita tanto?
Porque a mastigação está no topo da lista de gatilhos. O consenso de 2022 põe os sons da boca entre os mais relatados, e um estudo holandês descreve os pacientes com misofonia como pessoas que sentem raiva ou nojo diante de sons como estalar a boca ou respirar.
A força da reação muda conforme o contexto. Os especialistas citam três fatores: o lugar em que o som aparece, quanto controle a pessoa sente que tem sobre ele e a relação com quem faz o barulho. Por isso o mesmo som pode incomodar muito numa situação e pouco em outra. E parte das pessoas percebe que a própria reação é desproporcional.
Sintomas da misofonia
Os sintomas são emocionais, físicos e de comportamento. Pela definição de consenso, diante de um gatilho a pessoa pode sentir:
- raiva, irritação, nojo ou ansiedade, que são as reações mais comuns, e às vezes fúria;
- tensão nos músculos, coração acelerado e suor;
- dificuldade de desviar a atenção do som depois que ele começa;
- vontade de sair do ambiente, de pedir que o som pare ou de imitar o som;
- em casos mais raros, explosões verbais, que aparecem mais em crianças que em adultos.
Os sintomas costumam ser notados pela primeira vez na infância ou no começo da adolescência. A intensidade varia muito: para alguns é um incômodo leve, para outros atrapalha o trabalho, a concentração, os estudos e as relações, e pode levar ao isolamento.
Misofonia é comum?
18%
da população do Reino Unido tem sintomas de misofonia que pesam na vida, segundo uma amostra representativa do país (Vitoratou et al., 2023)
37%
dos pacientes tratados com terapia cognitivo-comportamental tiveram melhora clínica, contra nenhum na lista de espera (Jager et al., 2020)
Mais do que se imagina. Um estudo do King’s College de Londres usou um questionário validado e entrevistas feitas por clínicos especializados numa amostra que representa a população do Reino Unido. A estimativa foi de que 18% das pessoas têm sintomas de misofonia que causam um peso importante na vida.
Os números variam entre estudos, porque cada um usa um questionário diferente, e por isso o comitê de 2022 não pôs uma frequência na definição. Mas o recado é claro: se o barulho de mastigação tira você do sério, você não está sozinho.
Qual a diferença entre fonofobia, misofonia e hiperacusia?
As três são formas de tolerância reduzida ao som, e o NHS as coloca lado a lado. A diferença está no tipo de reação. Na hiperacusia, sons comuns parecem altos demais ou doem. Na fonofobia, o som provoca medo ou ansiedade. Na misofonia, sons específicos provocam raiva ou nojo, independentemente do volume.
| Hiperacusia | Fonofobia | Misofonia | |
|---|---|---|---|
| O que sente | O som parece alto demais ou dói | Medo ou ansiedade diante do som, às vezes antes dele | Raiva, irritação ou nojo |
| Que sons | Quase todos os sons do dia a dia | Sons do dia a dia, mesmo em volume normal; na enxaqueca, durante a crise | Sons específicos, como mastigar, respirar ou clicar a caneta |
| Depende do volume? | Sim | Não necessariamente | Não; depende do tipo de som e de quem o faz |
| Onde aparece junto | Zumbido e perda auditiva | Enxaqueca | Zumbido, hiperacusia, ansiedade, TOC, autismo, TDAH |
Na vida real, elas se misturam. O consenso de 2022 diz que a misofonia pode aparecer sozinha ou junto com zumbido e hiperacusia, e que as reações da misofonia e da hiperacusia podem ser muito parecidas, a ponto de os especialistas pedirem cuidado para separar uma da outra. Por isso a avaliação com profissional faz diferença.
O que causa a misofonia
Ainda não se sabe. O comitê de 2022 avaliou as hipóteses e concluiu que as evidências não bastam para colocar uma causa na definição. Estudos sugerem que o cérebro de quem tem misofonia reage de um jeito diferente nas áreas que cuidam das emoções, do aprendizado e da audição, mas esse mecanismo continua sendo pesquisado. Alguns relatos descrevem vários casos na mesma família, também sem prova suficiente de herança.
O que se sabe com mais segurança:
- a misofonia aparece em pessoas com audição normal e em pessoas com perda auditiva;
- ela pode vir junto com zumbido e hiperacusia;
- também aparece junto com transtornos de ansiedade, de humor, transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), estresse pós-traumático, autismo e transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH);
- para ser chamada de misofonia, os sintomas não podem ser mais bem explicados por uma dessas outras condições.
Também não há evidência suficiente para classificar a misofonia como problema “médico” ou “psiquiátrico”. É uma área de pesquisa nova: quando o consenso saiu, em 2022, os estudos sobre misofonia tinham menos de 20 anos.
Como é feito o diagnóstico
Não existe exame de sangue ou de imagem que mostre a misofonia. O diagnóstico é clínico: o profissional conversa com a pessoa, entende quais sons incomodam, que reação eles provocam e quanto isso atrapalha a vida. Nas pesquisas e nos serviços especializados, questionários como a Escala de Misofonia de Amsterdã (AMISOS-R) e o S-Five medem a gravidade.
Como a misofonia pode aparecer com ou sem perda auditiva, e junto com zumbido e hiperacusia, faz sentido checar a audição. A audiometria mostra se existe perda, e ela muda o caminho do tratamento. No caso da fonofobia ligada à dor de cabeça, o diagnóstico da enxaqueca é feito pelo neurologista, com base nos critérios da classificação internacional.
Misofonia tem cura? O que ajuda de verdade
Não há tratamento que garanta cura, e ninguém deve prometer isso. O que existe hoje é um tratamento com resultado comprovado em estudo controlado: a terapia cognitivo-comportamental (TCC), um tipo de psicoterapia com começo, meio e fim, focada em mudar a reação ao gatilho.
Terapia cognitivo-comportamental
O primeiro estudo randomizado sobre o tema foi feito no ambulatório do centro médico universitário de Amsterdã e publicado em 2020. Participaram 54 pacientes, sorteados entre fazer TCC em grupo, uma vez por semana durante três meses, ou esperar numa lista. A terapia trabalhou quatro frentes:
- treinar a atenção para sair do som e voltar para a tarefa;
- técnicas para baixar a ativação do corpo, como a tensão e o coração acelerado;
- aprender a reconhecer e dar nome a emoções positivas;
- técnicas de manipulação do próprio som que serve de gatilho.
O grupo da TCC teve bem menos sintomas depois dos três meses. Pela avaliação clínica, 37% melhoraram de forma clara, contra ninguém no grupo que esperou, e o efeito se manteve um ano depois. Quem aplica a TCC é o psicólogo com formação no método.
Quando há enxaqueca, zumbido ou ansiedade junto
Se a fonofobia faz parte da enxaqueca, tratar a enxaqueca com o neurologista é o que alivia a sensibilidade ao som. Se o zumbido está no meio da história, vale ler sobre zumbido e ansiedade, porque os dois se alimentam, e sobre o zumbido no ouvido em geral. Remédio, quando for o caso, só com indicação do médico que acompanha você.
Como lidar com a misofonia no dia a dia
- Dê nome ao que sente. Saber que existe misofonia, e que ela é reconhecida por especialistas, ajuda a família a entender que não é implicância.
- Anote seus gatilhos. Quais sons, de quem, em que lugar e com que intensidade. O contexto, a sensação de controle e a relação com quem faz o som mudam a reação, e esse diário ajuda muito na terapia.
- Evite se isolar. Fugir de todas as refeições em família alivia na hora, mas o isolamento está entre os prejuízos que a misofonia mais causa.
- Não tampe o ouvido o dia inteiro. Para a hiperacusia, o NHS orienta não usar tampão ou abafador o tempo todo, porque isso pode aumentar a sensibilidade ao som. Guarde o protetor para barulho alto de verdade.
Perguntas frequentes sobre fonofobia e misofonia
Misofonia tem cura?
Não existe tratamento que garanta cura. A terapia cognitivo-comportamental tem o melhor resultado em estudo controlado até agora: reduziu os sintomas e manteve o efeito depois de um ano. O objetivo realista é que os gatilhos deixem de mandar na sua rotina.
Existe teste de misofonia?
Existem questionários, como o S-Five e a Escala de Misofonia de Amsterdã, que medem a gravidade dos sintomas. Os testes rápidos da internet podem dar uma pista, mas não fecham diagnóstico. Quem avalia é o psicólogo ou o psiquiatra, e a audiometria ajuda a saber se há perda auditiva junto.
Misofonia é TOC, autismo ou TDAH?
Não. A misofonia pode aparecer junto com TOC, autismo, TDAH, ansiedade e outras condições, mas é considerada um problema próprio. Pela definição de consenso, só se fala em misofonia quando os sintomas não são mais bem explicados por outra condição.
Qual médico procurar para misofonia?
Depende do que vem junto. Para a misofonia em si, o psicólogo com formação em terapia cognitivo-comportamental é o profissional mais indicado, e o psiquiatra entra quando há outros transtornos. Se houver zumbido, perda auditiva ou dor com o som, o otorrinolaringologista. Se o incômodo vier com dor de cabeça, o neurologista.
O que significa fotofobia e fonofobia?
Fotofobia é a sensibilidade à luz e fonofobia é a sensibilidade ao som, mesmo em nível normal, que em geral faz a pessoa evitar a luz e o barulho. As duas juntas, durante a dor de cabeça, são um dos critérios da enxaqueca.
Misofonia e hiperacusia são a mesma coisa?
Não. Na hiperacusia, quase todos os sons parecem altos demais. Na misofonia, só alguns sons incomodam, seja qual for o volume. As duas podem existir na mesma pessoa.
Fonofobia e misofonia em Copacabana
A Hear Clean não trata misofonia nem fonofobia, e não faz terapia sonora. O que fazemos é a parte da audição: a avaliação auditiva gratuita, com audiometria completa de tons e palavras na nossa sala acústica, sem pedido médico e sem compromisso de compra, para saber se existe perda auditiva ou zumbido por trás da sensibilidade ao som. Se houver zumbido com indicação de aparelho, tratamos com aparelho auditivo ajustado para ele. Nos outros casos, orientamos você a procurar o profissional certo: psicólogo para a misofonia, otorrinolaringologista para zumbido, dor ou perda auditiva, e neurologista quando a sensibilidade vem com dor de cabeça.
Agende sua avaliação auditiva
Rua Santa Clara, 70, sala 1008, Copacabana, Rio de Janeiro. De segunda a sexta, das 9h às 18h.
Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta com médico otorrinolaringologista e fonoaudiólogo.
Referências
- Swedo SE et al. Consensus definition of misophonia: a Delphi study. Frontiers in Neuroscience, 2022. PubMed
- Jager IJ et al. Cognitive behavioral therapy for misophonia: a randomized clinical trial. Depression and Anxiety, 2020. PubMed
- Vitoratou S et al. Misophonia in the UK: prevalence and norms from the S-Five in a UK representative sample. PLoS One, 2023. PubMed
- Tyler RS et al. A review of hyperacusis and future directions: part I. Definitions and manifestations. American Journal of Audiology, 2014. PubMed
- Headache Classification Committee of the International Headache Society. The International Classification of Headache Disorders, 3rd edition (ICHD-3): 1.1 Migraine without aura e Definition of terms. ICHD-3
- NHS. Noise sensitivity (hyperacusis). National Health Service, Reino Unido. NHS