Otosclerose: o que é, sintomas e tratamento
Neste artigo (11 partes)
- O que é otosclerose
- Quando procurar o otorrinolaringologista
- Otosclerose é comum?
- Sintomas da otosclerose
- Causas e quem tem mais risco
- Como é o diagnóstico da otosclerose
- Tratamento da otosclerose: cirurgia ou aparelho auditivo
- Otosclerose tem cura?
- O que você pode fazer hoje
- Perguntas frequentes sobre otosclerose
- Otosclerose em Copacabana
A otosclerose é uma doença do osso que envolve o ouvido. Ela faz o estribo, o menor dos três ossinhos da audição, ficar preso no lugar, e o som deixa de passar direito para dentro. A pessoa percebe que a audição vai baixando aos poucos, muitas vezes num ouvido só no começo, às vezes com um zumbido junto. Costuma aparecer em adultos jovens e é mais comum em mulheres. Neste artigo você vai entender o que acontece dentro do ouvido, quais são os sintomas, como os exames de audição mostram a otosclerose e quais são os dois caminhos de tratamento: a cirurgia, que é decisão do otorrinolaringologista, e o aparelho auditivo.
O que é otosclerose
Otosclerose é uma remodelação anormal do osso que envolve o ouvido interno, chamado de cápsula ótica. Nesse osso aparecem focos de tecido ósseo novo, mais esponjoso, que crescem e endurecem. O nome antigo, otospongiose, vem justamente dessa fase esponjosa.
O ponto que mais sofre é a janela oval, a pequena abertura onde o estribo encosta na cóclea. Para entender por que isso importa, lembre como a audição funciona. O som faz o tímpano vibrar, e a vibração passa por três ossinhos em sequência: o martelo, a bigorna e o estribo. O estribo funciona como um pistão: ele empurra a janela oval e move o líquido da cóclea, onde ficam as células que transformam o som em sinal para o cérebro. O artigo sobre as partes da orelha mostra esse caminho em detalhe.

Na otosclerose, o osso novo cresce em volta da base do estribo e o prende. O pistão fica travado, a vibração chega fraca à cóclea e a pessoa ouve menos. Esse tipo de perda se chama perda auditiva condutiva, porque o problema está na condução do som e não nas células do ouvido interno. Os laudos costumam chamar essa forma de otosclerose fenestral, de janela.
Em parte dos casos, os focos avançam para dentro, até a cóclea. É a otosclerose coclear, ou retrofenestral. Aí a perda deixa de ser só de condução e passa a ter também uma parte neurossensorial, a do ouvido interno. Quando as duas se somam, o laudo fala em perda auditiva mista. A página sobre perda auditiva explica a diferença entre os tipos.
Quando procurar o otorrinolaringologista
A otosclerose não é uma urgência, mas a perda de audição que vai aumentando precisa de diagnóstico. Marque uma consulta com o otorrino se:
- você percebe que a audição está caindo aos poucos, em um ou nos dois ouvidos;
- passou a pedir para as pessoas repetirem ou a aumentar o volume da TV;
- apareceu um zumbido que não passa;
- tem pais ou irmãos com otosclerose e notou mudança na sua audição;
- sente tontura ou desequilíbrio junto com a perda.
Se a audição de um ouvido sumiu de uma hora para outra, ou em poucos dias, o quadro é outro. Os Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos tratam a perda súbita como emergência médica: procure atendimento imediatamente, sem esperar a consulta marcada.
Otosclerose é comum?
Ela está entre as causas mais comuns de perda auditiva adquirida, mas a maior parte das alterações nunca chega a dar sintoma. Em estudos com ossos temporais examinados depois da morte, até 10% das pessoas tinham focos de otosclerose, e só cerca de 12% delas tinham desenvolvido a forma clínica, a que tira audição. Entre pessoas brancas, perto de 1% tem sintomas. A doença é menos frequente em asiáticos e ainda mais rara em pessoas negras de origem africana.
2 a 3 vezes
mais mulheres do que homens têm otosclerose (Sociedade Brasileira de Otologia, 2023)
80%
dos casos acabam atingindo os dois ouvidos, embora muitas vezes comece por um só (Sociedade Brasileira de Otologia, 2023)
A idade média em que a perda aparece fica entre 15 e 45 anos. Em crianças, a otosclerose é rara.
Sintomas da otosclerose
O sintoma principal é a perda de audição que vem devagar, ao longo de meses e anos. Não dói e não vem com secreção. Por isso muita gente demora a notar, ou acha que é cera, cansaço ou falta de atenção.
- Audição baixando aos poucos: no início, a perda pega mais os sons graves. A pessoa sente que as vozes ficaram mais baixas e passa a aumentar o volume da TV.
- Um ouvido pior que o outro: é comum começar de um lado e, com o tempo, chegar ao outro.
- Zumbido: é um sintoma muito frequente na otosclerose. Pode ser um chiado, um apito ou um som grave constante. O artigo sobre zumbido no ouvido fala das outras causas.
- Ouvir melhor no barulho: parece contraditório, mas algumas pessoas entendem melhor a conversa num lugar barulhento. O nome técnico é paracusia de Willis. A perda condutiva abafa o ruído de fundo, e a voz de quem fala fica, em proporção, mais destacada.
- Tontura ou desequilíbrio: sintomas do equilíbrio aparecem em até 40% das pessoas com otosclerose, segundo a revisão brasileira. Tontura merece sempre avaliação do otorrino.
Causas e quem tem mais risco
A causa exata da otosclerose ainda não é conhecida. As revisões apontam uma soma de fatores genéticos e ambientais.
Histórico na família
Cerca de 60% das pessoas com otosclerose têm outros casos na família. Em algumas famílias, a doença passa de geração em geração com um padrão chamado autossômico dominante: basta herdar o gene de um dos pais para ter chance de desenvolver, embora nem todo mundo que herda chegue a ter sintomas. Os estudos já encontraram pelo menos nove regiões dos cromossomos ligadas à doença.
Ser mulher
As mulheres são atingidas de 2 a 3 vezes mais que os homens. Por muito tempo se suspeitou dos hormônios femininos, porque a perda às vezes aparece ou piora perto de uma gravidez. A força-tarefa da Sociedade Brasileira de Otologia, publicada em 2023, revisou os estudos e concluiu que não há evidência de que a gravidez aumente o risco de ter ou de piorar a otosclerose.
Vírus do sarampo
Uma das hipóteses é uma infecção pelo vírus do sarampo localizada no osso do ouvido. Ela ganhou força porque os casos de otosclerose diminuíram depois da vacinação em massa contra o sarampo. Outros estudos não acharam o vírus na maior parte das amostras, e a questão continua aberta.
Como é o diagnóstico da otosclerose
Quem fecha o diagnóstico é o otorrinolaringologista, juntando a história, o exame do ouvido e os exames de audição. Na otosclerose, o tímpano costuma ter aparência normal no otoscópio, porque o problema está atrás dele. O médico pode usar o diapasão, um garfo de metal que vibra: no teste de Rinne, quem tem perda condutiva ouve melhor o diapasão apoiado no osso atrás da orelha do que perto do ouvido.
Audiometria: o gap e o entalhe de Carhart
A audiometria mede o som mais fraco que a pessoa ouve em cada frequência, de duas formas. Pela via aérea, o som chega pelo fone e passa pelo tímpano e pelos ossinhos. Pela via óssea, um vibrador atrás da orelha manda o som pelo osso direto para a cóclea. Na otosclerose, a via aérea fica pior e a via óssea fica perto do normal. Essa distância entre as duas linhas do audiograma é o gap aéreo-ósseo, e ela mostra que o problema está na condução.
Há um detalhe típico: uma queda da via óssea por volta de 2.000 Hz, chamada de entalhe de Carhart. Ela é uma pista da otosclerose, mas não é exclusiva da doença. Uma revisão sistemática de 2013 concluiu que o entalhe ajuda a desconfiar, mas não serve para confirmar o diagnóstico. O artigo sobre audiometria via óssea mostra como esses achados aparecem no audiograma.
Imitanciometria: curva rígida e reflexo ausente
A imitanciometria avalia como o tímpano e os ossinhos se movem com a mudança de pressão. Na otosclerose, a curva do timpanograma costuma sair achatada, do tipo As ou Ar, sinal de um sistema mais rígido. O reflexo do músculo do estribo, que normalmente aparece com sons fortes, fica ausente, porque o estribo preso não se mexe. Os mesmos achados podem aparecer quando outro ossinho, o martelo, está fixo, e é aí que a tomografia ajuda.
Tomografia
A tomografia de alta resolução do osso temporal é o exame de imagem de escolha quando o otorrino considera a cirurgia. Ela mostra os focos de osso novo e ajuda a descartar outras causas e malformações que mudariam o plano.
Tratamento da otosclerose: cirurgia ou aparelho auditivo
O tratamento busca devolver a audição para o dia a dia. Nenhum remédio reverte o osso que endureceu: a diretriz brasileira considera que o tratamento com medicamentos trouxe pouco benefício. Os dois caminhos principais são a cirurgia e o aparelho auditivo, e os dois funcionam. A escolha depende do exame, do grau da perda, do outro ouvido, da profissão e da vontade da pessoa, e é feita em conversa com o otorrino.
Cirurgia da otosclerose
A cirurgia mais usada se chama estapedotomia. O cirurgião faz um furinho na base do estribo e coloca uma prótese muito pequena que volta a levar a vibração até a cóclea. Em geral, a operação é feita por dentro do canal do ouvido. Quem indica, explica os detalhes e acompanha a recuperação é o otorrinolaringologista.
Pela diretriz brasileira, a cirurgia é considerada quando há perda condutiva com média de pelo menos 25 dB nas frequências de 250 a 2.000 Hz, gap aéreo-ósseo de 20 dB ou mais e teste de Rinne negativo no ouvido afetado. Ela não é indicada, por exemplo, quando o outro ouvido tem surdez profunda, quando há infecção ativa ou tímpano perfurado.
Os resultados costumam ser bons. Num estudo francês com 3.050 cirurgias acompanhadas por até 14 anos, o gap aéreo-ósseo fechou para 10 dB ou menos em 94,2% dos casos, e uma perda neurossensorial importante depois da cirurgia aconteceu em 0,5%. Mudança no paladar, como gosto metálico, é a segunda queixa mais comum depois da operação: aparece em até 60% das pessoas logo depois e continua em cerca de 5% após um ano. Por isso a diretriz pede atenção especial para cozinheiros, sommeliers e outras profissões que dependem do paladar.
Aparelho auditivo
O aparelho auditivo é uma alternativa reconhecida pela diretriz brasileira para quem não pode operar, não quer operar ou tem uma via óssea que limita o ganho da cirurgia. O ganho costuma ser bom principalmente quando a via óssea está normal, ou seja, quando a cóclea ainda responde bem e o problema é só a passagem do som. Uma revisão sobre a audiologia da otosclerose diz que a tecnologia atual permite que quem não faz a cirurgia funcione bem, com melhora da comunicação e da qualidade de vida.
O aparelho também serve para o período de espera da cirurgia, para o ouvido que não será operado e para quem, anos depois, passa a ter uma parte neurossensorial na perda. Os modelos de hoje são pequenos e discretos. Veja as opções em aparelhos auditivos.
Implante coclear nos casos avançados
Quando a otosclerose avança para a cóclea e a perda fica profunda, nem a cirurgia do estribo nem o aparelho dão conta. Nesses casos, a diretriz indica avaliar o implante coclear, com os mesmos critérios usados para outras causas de surdez profunda.
Otosclerose tem cura?
O processo no osso não tem cura, ou seja, não existe tratamento que faça o osso voltar ao normal. Mas a perda de audição tem tratamento, e na maioria das pessoas ele funciona bem. A cirurgia devolve a passagem do som na grande maioria dos casos, e o aparelho compensa a perda sem operação.
Como a doença pode continuar ativa, a audição precisa de acompanhamento. Mesmo depois de uma cirurgia bem-sucedida, a perda pode avançar com os anos em ritmo variável, e uma parte das pessoas precisa de nova cirurgia ou de aparelho mais tarde. A audiometria periódica mostra essa evolução.
O que você pode fazer hoje
- Faça uma audiometria se sente que a audição está baixando, mesmo que ache pouco.
- Pergunte na família se alguém teve otosclerose ou operou o ouvido jovem. Leve essa informação à consulta.
- Guarde todos os exames de audição. A comparação ao longo dos anos mostra se a perda está avançando.
- Se trabalha com o paladar, conte isso ao otorrino antes de decidir pela cirurgia.
- Não use cotonete nem pingue nada no ouvido para tentar desentupir. A otosclerose não é cera, e mexer no canal não melhora a audição.
Perguntas frequentes sobre otosclerose
Qual é o CID da otosclerose?
Na CID-10, a otosclerose fica no código H80. A forma que compromete a janela oval sem fechá-la é H80.0; a que fecha a janela, chamada de obliterante, é H80.1; a otosclerose da cóclea é H80.2; outras formas são H80.8 e a não especificada é H80.9.
Otosclerose dá zumbido?
Dá, e com frequência. O zumbido é um dos sintomas mais comuns da doença e pode incomodar bastante. Por isso, o cuidado com o zumbido faz parte da reabilitação, junto com o tratamento da perda.
O que é otosclerose fenestral bilateral?
Fenestral quer dizer que os focos estão na região da janela oval, onde fica o estribo, o que causa a perda condutiva. Bilateral quer dizer que os dois ouvidos foram atingidos. É a forma mais comum: cerca de 80% das pessoas acabam com os dois lados afetados.
Quem tem otosclerose pode ficar surdo?
Na forma mais comum, a perda é condutiva e tem tratamento. Quando a doença atinge a cóclea, pode surgir uma perda neurossensorial que avança, e em casos raros ela chega a profunda. Para esses casos existe o implante coclear. O acompanhamento com audiometria ajuda a agir cedo.
A gravidez piora a otosclerose?
Essa foi uma suspeita antiga, porque a perda às vezes aparece perto de uma gravidez. A revisão da Sociedade Brasileira de Otologia de 2023 concluiu que não há evidência de que a gravidez aumente o risco de desenvolver ou de piorar a doença. Se você tem otosclerose e planeja engravidar, converse com o seu otorrino.
Quem tem otosclerose pode usar aparelho auditivo?
Pode, e costuma ter bom resultado, principalmente quando a via óssea está normal. O aparelho é uma das duas formas de tratamento, ao lado da cirurgia, e serve tanto para quem não quer operar quanto para quem está esperando a cirurgia.
Otosclerose em Copacabana
A Hear Clean é uma clínica de fonoaudiologia e não opera: quem diagnostica a otosclerose e decide sobre a cirurgia é o otorrinolaringologista. O nosso papel está nos exames e no aparelho. Fazemos a audiometria, com via aérea e via óssea, e a imitanciometria na sala acústica, a partir de 7 anos. Esses exames mostram o gap aéreo-ósseo, o entalhe de Carhart e o reflexo do estribo, informações que o otorrino usa na decisão. A avaliação auditiva é gratuita e inclui a audiometria completa. Para quem prefere não operar, está esperando a cirurgia ou precisa tratar o outro ouvido, adaptamos aparelhos auditivos e acompanhamos durante todo o tratamento.
Agende sua avaliação auditiva
Rua Santa Clara, 70, sala 1008, Copacabana, Rio de Janeiro. De segunda a sexta, das 9h às 18h.
Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta com médico otorrinolaringologista e fonoaudiólogo.
Referências
- Sociedade Brasileira de Otologia (força-tarefa). Brazilian Society of Otology task force: otosclerosis, evaluation and treatment. Brazilian Journal of Otorhinolaryngology, 2023. PMC
- Vincent R et al. Surgical findings and long-term hearing results in 3,050 stapedotomies for primary otosclerosis: a prospective study with the otology-neurotology database. Otology & Neurotology, 2006. PubMed
- Wegner I et al. Pure-tone audiometry in otosclerosis: insufficient evidence for the diagnostic value of the Carhart notch. Otolaryngology-Head and Neck Surgery, 2013. PubMed
- Danesh AA, Shahnaz N, Hall JW. The audiology of otosclerosis. Otolaryngologic Clinics of North America, 2018. PubMed
- Markou K, Goudakos J. An overview of the etiology of otosclerosis. European Archives of Oto-Rhino-Laryngology, 2009. PubMed
- Ministério da Saúde (DATASUS). CID-10, H80 Otosclerose. DATASUS