Audiometria via óssea: para que serve e como ler o resultado
Neste artigo (10 partes)
- O que é a audiometria via óssea
- Via aérea e via óssea: qual a diferença
- Para que serve a via óssea: o gap aéreo-ósseo
- Como é o exame de audiometria óssea: o que você sente
- Audiometria com mascaramento: por que aparece um chiado no outro ouvido
- Símbolos da via óssea no audiograma
- A via óssea é sempre exata?
- O exame mostrou gap. E agora?
- Perguntas frequentes sobre audiometria via óssea
- Audiometria via óssea em Copacabana
A audiometria via óssea é a parte do exame de audição em que o fone sai e entra um pequeno vibrador apoiado no osso atrás da orelha. Muita gente estranha essa etapa: o som parece vir de dentro da cabeça, às vezes você sente o aparelho tremer, e no resultado aparecem uns sinais de < e > que ninguém explicou. Neste artigo você vai entender para que serve o exame de audiometria óssea, por que ele é comparado com o resultado do fone, o que é o gap aéreo-ósseo, por que às vezes aparece um chiado no outro ouvido e como reconhecer a via óssea no audiograma.
O que é a audiometria via óssea
É a medida da audição feita pela vibração do osso do crânio, e não pelo ar. O fonoaudiólogo coloca um vibrador ósseo, preso a um arco que passa por cima da cabeça, sobre a mastoide, aquele osso duro que você sente logo atrás da orelha. O vibrador faz o osso vibrar, e essa vibração chega ao ouvido interno.
Ela faz parte da audiometria tonal limiar, a parte do exame em que você ouve apitos e avisa quando escuta. Nos pedidos médicos, costuma aparecer como “audiometria tonal limiar por via aérea e via óssea”. É o mesmo exame. A diferença entre a parte tonal e a parte com palavras está explicada no artigo sobre audiometria tonal e vocal. Aqui o assunto é só a via óssea e o que ela acrescenta ao resultado.
Via aérea e via óssea: qual a diferença
A diferença está no caminho que o som faz até chegar à cóclea, o órgão da audição que fica no ouvido interno.
- Via aérea (fone). O som faz o caminho completo: entra pelo canal do ouvido, faz o tímpano vibrar, passa pelos três ossinhos do ouvido médio e só então chega à cóclea. Se qualquer parte desse caminho falhar, o resultado piora.
- Via óssea (vibrador). A vibração atravessa o osso e chega à cóclea quase sem depender do canal, do tímpano e dos ossinhos. Por isso ela mostra, principalmente, como está o ouvido interno.
Uma revisão sobre o assunto, publicada em 2005 por Stenfelt e Goode, resume assim: a via óssea é considerada o reflexo da função real da cóclea. Os mesmos autores fazem uma ressalva. Doenças do ouvido médio também podem mexer na via óssea, só que bem menos do que mexem na via aérea.
Para que serve a via óssea: o gap aéreo-ósseo
A via óssea serve para dizer o tipo da perda auditiva. Sozinha, a via aérea mostra se você ouve menos e quanto. Quando a fonoaudióloga compara o resultado do fone com o do vibrador, na mesma frequência, fica claro em que parte do ouvido está a dificuldade.
A diferença entre os dois resultados se chama gap aéreo-ósseo (gap é “espaço”, em inglês). Um exemplo com números redondos: se na frequência de 1.000 Hz o fone precisou de 40 dB para você ouvir e o vibrador precisou de 10 dB, o gap é de 30 dB. Dá para entender assim: a cóclea funciona bem, mas o som que vem pelo ar está perdendo força no caminho.
O Conselho Federal de Fonoaudiologia sugere classificar o tipo de perda pelos critérios de Silman e Silverman. Em todos os tipos de perda, a via aérea fica acima de 25 dB. O que muda é a via óssea e o tamanho do gap:
| Tipo de perda | Via óssea | Gap aéreo-ósseo | Onde está a dificuldade |
|---|---|---|---|
| Condutiva | Normal, até 15 dB | 15 dB ou mais | Na passagem do som: canal, tímpano ou ouvido médio |
| Neurossensorial | Alterada, acima de 15 dB | Até 10 dB | Na cóclea ou no nervo auditivo |
| Mista | Alterada, acima de 15 dB | Maior que 10 dB | Nas duas partes ao mesmo tempo |
O Conselho também lembra que o tipo da perda é decidido olhando cada frequência testada, e não a média delas. E sem a via óssea o laudo não informa o tipo. O guia do Conselho diz que o fonoaudiólogo descreve o tipo da perda “quando a via óssea for realizada”.

Perda auditiva condutiva
O ouvido interno está bom, mas o som não chega até ele com a força de antes. No audiograma, os sinais do vibrador ficam no alto, na faixa normal, e os do fone ficam mais embaixo. Entre as causas listadas pela Academia Americana de Otorrinolaringologia estão cera que fecha o canal, otite externa, objeto dentro do ouvido, líquido atrás do tímpano, tímpano furado, problemas nos ossinhos, como a otosclerose, e o colesteatoma. Uma rolha de cera, por exemplo, abafa o som como um dedo no ouvido. Veja o que fazer com a cera no ouvido.
Perda auditiva neurossensorial
O problema está na cóclea ou no nervo. Aqui o som chega bem até o ouvido interno, mas o ouvido interno não aproveita. Por isso o fone e o vibrador dão resultados parecidos, e os dois ficam alterados. É o desenho em que os sinais de via óssea “andam colados” nos da via aérea.
Perda auditiva mista
As duas coisas acontecem juntas: existe uma perda no ouvido interno e, além dela, uma dificuldade na passagem do som. A via óssea está alterada, e a via aérea está ainda pior, com um gap maior que 10 dB.
Como é o exame de audiometria óssea: o que você sente
O exame não dói. Normalmente a via óssea vem logo depois da parte com fone, na mesma consulta.
- Vibrador atrás da orelha. A fonoaudióloga encaixa o arco na cabeça e apoia o vibrador sobre a mastoide. Você sente uma pressão leve, parecida com a de uma tiara.
- O som parece vir de dentro. O apito não vem de fora como no fone. Muitas pessoas têm a impressão de que o som está no meio da cabeça ou até do outro lado. Isso é esperado, porque a vibração do osso chega aos dois ouvidos, como você vai ver no mascaramento.
- A tarefa é a mesma. Levante a mão ou aperte o botão sempre que ouvir o apito, mesmo bem fraquinho.
- Frequências testadas. A via óssea é pesquisada de 500 a 4.000 Hz. O guia do Conselho lista 250, 6.000 e 8.000 Hz como frequências em que ela não é feita.
- Vibração nos sons graves. Nos tons graves e mais fortes, você pode sentir o vibrador tremer na pele. Um estudo de 2017, feito com pessoas que não ouvem nada, mostrou que, até 500 Hz, essa sensação de tremor pode ser confundida com a de ouvir o som. Se você só sentiu tremer e não ouviu, avise.
Às vezes a fonoaudióloga também coloca o vibrador no meio da testa e pergunta de que lado você ouve o som. É o Weber audiométrico, um teste rápido que ajuda a verificar se existe gap aéreo-ósseo e que funciona melhor nos sons graves. Se o som “puxa” para o ouvido pior, isso sugere perda condutiva ou mista nesse lado. Se vai para o ouvido melhor, sugere perda neurossensorial no ouvido pior. Quem interpreta é a profissional, junto com o resto do exame.
Audiometria com mascaramento: por que aparece um chiado no outro ouvido
Com o vibrador, o som atravessa a cabeça quase sem perder força e chega também ao outro ouvido. Então, quando você responde, a fonoaudióloga não tem certeza de qual lado ouviu. Para resolver isso, ela coloca um ruído no ouvido que não está sendo testado. É o mascaramento. Enquanto o ruído “ocupa” um ouvido, a resposta passa a ser do outro.
0 a 10 dB
é o quanto a vibração do osso enfraquece ao atravessar a cabeça até o outro ouvido, na mediana (Stenfelt, 2012)
cerca de 60 dB
é o quanto o som de um fone sobre a orelha enfraquece até chegar ao outro ouvido, na mediana (Munro e Agnew, 1999)
Num estudo com 28 pessoas surdas de um lado só, o som do vibrador colocado na mastoide perdeu de 3 a 5 dB até 500 Hz, quase nada entre 500 e 1.800 Hz e perto de 10 dB entre 3.000 e 5.000 Hz ao chegar ao outro lado. A variação de uma pessoa para outra foi grande. Com o fone apoiado sobre a orelha, outro estudo mediu uma perda de cerca de 60 dB, e nunca menos que uns 45 dB. Com o fone de inserção, aquele que entra no canal, a perda foi ainda maior quando ele estava bem encaixado.
Na prática, em algum momento um fone ou uma ponteira no outro ouvido passa a tocar um chiado contínuo. Não é defeito do aparelho. Ignore o chiado e continue respondendo só ao apito. O mascaramento deixa o exame mais longo, porque a fonoaudióloga repete as medidas com o ruído em volumes diferentes.
O Conselho orienta que, quando há mascaramento, o resultado informe a intensidade do ruído usado e marque os limiares com os símbolos próprios de “mascarado”.
Símbolos da via óssea no audiograma
O audiograma é o gráfico da parte tonal. As frequências ficam no alto, do grave (à esquerda) ao agudo (à direita), e o volume fica na lateral, com os sons fracos em cima. Quanto mais alto o símbolo, melhor a audição naquela frequência. O Conselho Federal de Fonoaudiologia recomenda os símbolos da ASHA, a associação americana de fonoaudiologia. Pela convenção, o vermelho é da orelha direita e o azul, da esquerda.
| Símbolo | O que marca |
|---|---|
| < | Orelha direita, via óssea na mastoide, sem mascaramento |
| > | Orelha esquerda, via óssea na mastoide, sem mascaramento |
| [ | Orelha direita, via óssea com mascaramento no outro ouvido |
| ] | Orelha esquerda, via óssea com mascaramento no outro ouvido |
| V | Via óssea com o vibrador na testa, sem mascaramento |
| Setinha | Presa ao símbolo e apontando para baixo: não houve resposta naquela frequência |
Para achar o gap, olhe uma frequência de cada vez. Compare o símbolo da via aérea daquela orelha (O vermelho na direita, X azul na esquerda) com o símbolo da via óssea logo ao lado. Se eles estão quase no mesmo nível, o gap é pequeno. Se há um espaço grande entre eles, com a via óssea mais alta, existe gap. O significado dos outros símbolos e dos graus de perda está no artigo sobre como ler a audiometria tonal e vocal.
A via óssea é sempre exata?
Quase sempre ela é uma boa medida da cóclea, mas tem limites que a fonoaudióloga leva em conta.
O primeiro é o tremor nos graves, que você já viu acima. O segundo aparece em algumas doenças do ouvido médio. Na otosclerose, em que o estribo, o último dos três ossinhos, fica preso, a via óssea pode cair de 10 a 15 dB por volta de 2.000 Hz. Esse desenho tem nome: entalhe de Carhart. Uma revisão de 2013 concluiu que ele é uma pista útil para a otosclerose, mas não confirma o diagnóstico. E em pacientes operados, a via óssea medida depois da cirurgia melhorou, sinal de que parte daquela piora vinha do ouvido médio, e não da cóclea.
Por isso um audiograma nunca é lido sozinho. Ele entra junto com a sua história, com o exame do ouvido e, muitas vezes, com a imitanciometria, que avalia o movimento do tímpano e do ouvido médio sem você precisar responder nada.
O exame mostrou gap. E agora?
Leve o resultado ao otorrinolaringologista. O gap aponta para a passagem do som, e quem investiga a causa e decide o tratamento é o médico. Segundo a Academia Americana de Otorrinolaringologia, o caminho varia com a causa: acompanhar com novos exames, cirurgia para corrigir o problema, aparelho auditivo ou cirurgia para implantar um dispositivo de audição.
Existem até aparelhos auditivos que funcionam pela via óssea, com a mesma ideia do vibrador do exame. A revisão de Stenfelt e Goode explica que eles são usados principalmente quando o aparelho comum, que manda o som pelo canal, não é indicado.
Quando a perda é neurossensorial, sem gap, e atrapalha o dia a dia, a reabilitação pode ser feita com aparelhos auditivos regulados pelo seu audiograma. Veja mais sobre os tipos de perda auditiva. E perda de audição que apareceu de repente pede avaliação médica rápida, de preferência nos primeiros dias.
Perguntas frequentes sobre audiometria via óssea
A audiometria via óssea dói?
Não. Você sente só a pressão leve do arco e, às vezes, o vibrador tremendo nos sons graves. A tarefa é a mesma da parte com fone: avisar quando ouvir o apito.
Audiometria tonal limiar via aérea e óssea é o mesmo exame?
Sim. É o nome da audiometria tonal que mede a audição pelo fone e pelo vibrador. Quando o pedido traz esse nome, a via óssea faz parte do exame.
O que é perda condutiva na audiometria?
É quando a via óssea fica normal e a via aérea fica pior, com gap de 15 dB ou mais. Quer dizer que a cóclea responde bem, mas o som perde força no canal, no tímpano ou no ouvido médio.
O que significa audiometria com mascaramento?
Significa que, em parte do exame, a fonoaudióloga colocou um ruído no ouvido que não estava sendo testado, para ter certeza de qual lado respondeu. No audiograma, a via óssea mascarada aparece com colchetes, [ na direita e ] na esquerda.
Por que a via óssea não aparece em todas as frequências?
Porque ela é pesquisada de 500 a 4.000 Hz. Em 250, 6.000 e 8.000 Hz o gráfico mostra só a via aérea, e nessas frequências não dá para dizer o tipo da perda.
Audiometria via óssea em Copacabana
Na Hear Clean, a audiometria é feita na sala acústica da clínica, mais moderna e mais confortável que a cabina tradicional. O exame inclui os tons pelo fone, o vibrador atrás da orelha e as palavras, leva em média 30 minutos e atende a partir de 7 anos. A audiometria completa faz parte da avaliação auditiva gratuita, que não precisa de pedido médico. Se você precisa do exame com laudo, ele é feito à parte. A imitanciometria também pode ser feita como exame avulso.
Agende sua avaliação auditiva
Rua Santa Clara, 70, sala 1008, Copacabana, Rio de Janeiro. De segunda a sexta, das 9h às 18h.
Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta com médico otorrinolaringologista e fonoaudiólogo.
Referências
- Sistema de Conselhos de Fonoaudiologia. Guia de orientação na avaliação audiológica, volume I: audiometria tonal limiar, logoaudiometria e medidas de imitância acústica. 2ª edição. Conselho Federal de Fonoaudiologia, 2023. CFFa
- Stenfelt S, Goode RL. Bone-conducted sound: physiological and clinical aspects. Otology & Neurotology, 2005. PubMed
- Stenfelt S. Transcranial attenuation of bone-conducted sound when stimulation is at the mastoid and at the bone conduction hearing aid position. Otology & Neurotology, 2012. PubMed
- Munro KJ, Agnew N. A comparison of inter-aural attenuation with the Etymotic ER-3A insert earphone and the Telephonics TDH-39 supra-aural earphone. British Journal of Audiology, 1999. PubMed
- Wegner I et al. Pure-tone audiometry in otosclerosis: insufficient evidence for the diagnostic value of the Carhart notch. Otolaryngology-Head and Neck Surgery, 2013. PubMed