Audiometria tonal e vocal: diferença e como ler o resultado

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Mulher de cerca de 70 anos, de óculos, sentada à mesa da cozinha lendo uma folha com um gráfico de resultado de exame

A audiometria tonal e vocal é o exame que mede quanto você ouve. Primeiro você escuta apitos e avisa quando percebe o som; depois, repete palavras. No fim, recebe uma folha com bolinhas, xis e linhas que quase ninguém sabe ler. Neste artigo você vai entender a diferença entre as duas partes, como o exame é feito, como se preparar e como ler o audiograma, o gráfico do resultado.

O que é a audiometria tonal e vocal

É a avaliação básica da audição, feita dentro de uma cabina acústica por fonoaudiólogo ou médico. O pedido pode vir escrito de outras formas, como “audiometria vocal e tonal” ou “audiometria tonal limiar com testes de discriminação”, o nome que aparece em muitas guias de plano de saúde.

O Conselho Federal de Fonoaudiologia chama a audiometria tonal de exame padrão-ouro do diagnóstico audiológico. Ela mostra se há perda auditiva e, se houver, o tipo, o grau e as frequências afetadas.

Qual a diferença entre audiometria tonal e vocal

A tonal mede o som mais fraco que você consegue ouvir em cada frequência, do grave ao agudo. A vocal mede o que você faz com a fala: a partir de que volume consegue repetir palavras e quantas palavras entende quando o volume está confortável.

Uma não substitui a outra: duas pessoas com gráficos tonais parecidos podem entender a fala de jeitos bem diferentes. A parte vocal também ajuda a regular o aparelho auditivo, quando ele é indicado.

Audiometria tonal Audiometria vocal
O que você ouve Apitos (tons puros) em várias frequências Palavras
O que mede O limiar auditivo de cada frequência, por via aérea e por via óssea O LRF (limiar de reconhecimento de fala) e o IPRF (índice de reconhecimento de fala)
Como aparece no resultado No audiograma, com os símbolos O, X, < e > Em números, em dB e em porcentagem, num quadro junto ao audiograma

Quem deve fazer audiometria

Quem notou mudança na audição e todo adulto mais velho, mesmo sem queixa. A perda costuma chegar devagar, e muitas vezes a família percebe antes.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 430 milhões de pessoas no mundo precisem de reabilitação por perda auditiva incapacitante, aquela acima de 35 dB na orelha que ouve melhor. Depois dos 60 anos, mais de 25% das pessoas estão nesse grupo.

Vale marcar o exame se você:

  • pede para as pessoas repetirem com frequência;
  • deixa a TV num volume que os outros acham alto;
  • entende bem a conversa a dois, mas se perde em restaurante ou em grupo;
  • tem zumbido no ouvido;
  • sente o ouvido entupido e isso não passa;
  • trabalha em ambiente barulhento.

Como é feito o exame de audiometria tonal e vocal

O exame não dói e acontece dentro de uma cabina acústica, uma salinha isolada do barulho de fora. Antes de começar, o profissional olha o canal do seu ouvido com um otoscópio. Se houver uma rolha de cera, o exame é remarcado para depois da avaliação do otorrinolaringologista, porque a cera abafa o som e altera o resultado.

Ilustração do ouvido em corte, em dois quadros: à esquerda, o som de um fone passa pelo canal, pelo tímpano e pelos ossinhos até a cóclea; à direita, um vibrador apoiado no osso junto da orelha manda a vibração pelo osso direto até a cóclea
Na via aérea, o som do fone percorre o canal, o tímpano e os ossinhos até chegar à cóclea. Na via óssea, um vibrador apoiado atrás da orelha faz o osso vibrar, e o som chega direto à cóclea. Comparar os dois resultados mostra em que parte do ouvido está a dificuldade.

A parte tonal: via aérea e via óssea

Com fones de ouvido, você levanta a mão, ou aperta um botão, toda vez que ouvir um apito, mesmo bem fraquinho. O profissional toca sons do grave (250 Hz) ao agudo (8.000 Hz) e vai baixando e subindo o volume até achar o som mais fraco que você percebe em cada frequência. Esse ponto se chama limiar auditivo: é o menor volume em que você responde a metade das vezes que o som é tocado.

Essa etapa testa a via aérea, o caminho normal do som, que passa pelo canal do ouvido, pelo tímpano e pelos ossinhos até chegar à cóclea, no ouvido interno. Depois, o fone dá lugar a um pequeno vibrador apoiado no osso atrás da orelha. É a via óssea. A vibração atravessa o osso do crânio e chega direto à cóclea, sem passar pelo canal e pelo ouvido médio. Ela costuma ser testada de 500 a 4.000 Hz. Comparar as duas vias mostra em que parte do ouvido está o problema.

A parte vocal: LRF e IPRF

Na audiometria vocal, também chamada de logoaudiometria, você ouve palavras pelo fone e repete o que entendeu. São dois testes principais.

  • LRF, limiar de reconhecimento de fala (ou SRT, a sigla em inglês). É o volume mais baixo em que você consegue repetir metade das palavras, que costumam ser de duas sílabas. O resultado sai em dB.
  • IPRF, índice percentual de reconhecimento de fala (às vezes escrito IRF). Aqui as palavras vêm num volume confortável, cerca de 40 dB acima da sua média nos tons de 500, 1.000 e 2.000 Hz, e você repete uma lista de palavras curtas. O resultado é a porcentagem de acertos.

Quando a pessoa não consegue repetir palavras, mede-se o LDV, limiar de detecção de voz: o volume em que ela só percebe que alguém fala.

E a imitanciometria?

Muitos pedidos incluem também a imitanciometria. É outro exame, feito com uma pequena sonda na entrada do ouvido, sem você precisar responder nada. Ela avalia o movimento do tímpano e dos ossinhos (timpanometria) e o reflexo de um músculo do ouvido que se contrai com sons fortes (reflexo acústico).

Como se preparar para a audiometria

  • Repouso auditivo. Evite barulho forte antes do exame, como show, fone alto ou obra. O ruído intenso pode baixar a audição por algumas horas e piorar o resultado. Na audiometria do trabalho, a NR-7, norma do Ministério do Trabalho, exige pelo menos 14 horas de repouso auditivo. No exame clínico, siga a orientação de quem vai fazer o exame.
  • Gripe ou ouvido tampado. Avise antes: o ouvido congestionado pode alterar o exame, e às vezes é melhor remarcar.
  • Não tente limpar o ouvido antes do exame. O cotonete empurra a cera para dentro. Se houver cera acumulada, quem remove é o médico otorrinolaringologista. Veja o que fazer com a cera no ouvido.
  • Leve o pedido médico, se tiver, as audiometrias antigas e o seu aparelho auditivo, se usar. Não precisa de jejum.

Quanto tempo dura a audiometria

O tempo varia de pessoa para pessoa, e o exame costuma ser feito numa única consulta. Pode demorar mais quando é preciso usar mascaramento, um ruído no ouvido oposto para ele não “ajudar” o ouvido testado.

Como ler o audiograma

O audiograma é o gráfico da audiometria tonal e mostra em quais sons está a dificuldade. Ele não é um diagnóstico: quem interpreta o seu resultado, junto com a sua história e outros exames, é o fonoaudiólogo ou o médico. O guia abaixo serve para você entender o que está vendo e levar perguntas para a consulta.

Os eixos: do grave ao agudo, do fraco ao forte

No eixo horizontal, em cima, ficam as frequências, em hertz (Hz): graves à esquerda, agudos à direita, como o chiado do “s” e do “f”.

No eixo vertical fica a intensidade, em dB NA (decibel nível de audição). O que confunde quase todo mundo é que o gráfico fica de cabeça para baixo: os sons fracos ficam no alto e os fortes, embaixo. A escala começa em -10 dB, no topo, e vai até 120 dB, no pé do gráfico.

Então, quanto mais alto o símbolo estiver no gráfico, melhor você ouve aquela frequência. Um símbolo lá embaixo quer dizer que o som precisou ficar forte para você perceber.

O que significam os símbolos O, X, < e >

Cada símbolo marca o limiar de uma frequência, no padrão da ASHA, a associação americana de fonoaudiologia, adotado pelo Conselho Federal de Fonoaudiologia. Nos gráficos coloridos, vermelho é a orelha direita e azul, a esquerda.

Símbolo O que marca
O Orelha direita, via aérea (fone). Os círculos são ligados por linha contínua.
X Orelha esquerda, via aérea. Os xis são ligados por linha tracejada.
< Orelha direita, via óssea (vibrador). Não são ligados por linha.
> Orelha esquerda, via óssea. Também ficam soltos.
[ ] △ □ Resultados com mascaramento: colchetes na via óssea; triângulo (direita) e quadrado (esquerda) na via aérea.
Setinha Presa ao símbolo e apontando para baixo, indica que não houve resposta nem no volume máximo do aparelho.

Via aérea e via óssea: onde está o problema

Compare, na mesma frequência, os símbolos de via aérea (O e X) com os de via óssea (< e >). A distância entre eles se chama gap aéreo-ósseo, e é ela que indica o tipo de perda auditiva:

  • Condutiva: a via óssea está normal e a via aérea está pior, com diferença de 15 dB ou mais. O som tem dificuldade de chegar ao ouvido interno, por cera, líquido atrás do tímpano ou problema nos ossinhos.
  • Neurossensorial: as duas vias estão alteradas e andam juntas, com diferença de até 10 dB. A dificuldade está na cóclea ou no nervo auditivo. É o tipo de perda ligada à idade e ao ruído.
  • Mista: as duas vias estão alteradas e ainda existe uma diferença maior que 10 dB entre elas.

Esses critérios, de Silman e Silverman, são os que o Conselho Federal de Fonoaudiologia sugere para o laudo. A via óssea não aparece em 250, 6.000 e 8.000 Hz porque não é testada nessas frequências. Saiba mais sobre os tipos de perda auditiva.

O desenho da curva

Uma linha que desce para a direita mostra agudos piores que graves, desenho comum na perda que vem com a idade. Uma queda em 3.000, 4.000 ou 6.000 Hz, mais funda que nas outras frequências, é o traçado que a norma trabalhista associa à perda provocada por ruído.

Audiograma de exemplo com valores ilustrativos. As frequências vão de 250 a 8.000 Hz no eixo de cima e a intensidade de -10 a 120 dB no eixo lateral, com os sons mais fracos no alto. Os círculos vermelhos da orelha direita e os xis azuis da orelha esquerda ficam entre 10 e 25 dB até 2.000 Hz e descem até 55 e 60 dB nos agudos. Os símbolos da via óssea acompanham a via aérea de perto.
Exemplo com valores ilustrativos. Os dois ouvidos ouvem bem os graves e pior os agudos, e a via óssea () acompanha a via aérea (O e X), desenho típico de perda neurossensorial. Quem interpreta o seu exame é o profissional.

Graus de perda auditiva: a classificação da OMS

O grau diz o tamanho da perda. Ele é calculado pela média dos limiares da via aérea em algumas frequências, e não por um ponto isolado do gráfico. Neste artigo usamos a classificação da OMS, publicada no World Report on Hearing de 2021, que faz a média de 500, 1.000, 2.000 e 4.000 Hz.

Grau Média (500 a 4.000 Hz) Em ambiente silencioso, a pessoa
Audição normal Menos de 20 dB Não tem dificuldade para ouvir sons
Leve De 20 a menos de 35 dB Não tem dificuldade com a conversa, mas pode ter no barulho
Moderada De 35 a menos de 50 dB Pode ter dificuldade para ouvir a conversa
Moderadamente severa De 50 a menos de 65 dB Tem dificuldade para acompanhar a conversa, mas ouve a voz alta
Severa De 65 a menos de 80 dB Não ouve a maior parte da conversa e tem dificuldade até com voz alta
Profunda De 80 a menos de 95 dB Tem extrema dificuldade para ouvir mesmo a voz alta
Completa (surdez) 95 dB ou mais Não ouve a conversa nem a maioria dos sons do ambiente
Unilateral Menos de 20 dB na orelha melhor e 35 dB ou mais na pior Pode ter dificuldade quando o som vem do lado pior e para saber de onde vem o som

Há outras classificações. A de Lloyd e Kaplan, de 1978, aparece em muitos laudos: faz a média de 500, 1.000 e 2.000 Hz e considera normal até 25 dB. Com frequências e limites diferentes, o mesmo audiograma pode receber graus diferentes. Por isso o Conselho Federal de Fonoaudiologia orienta que o laudo informe a classificação usada.

Veja o audiograma de exemplo acima. Na orelha direita, a média pela OMS dá 27,5 dB, o que seria perda leve. Pela tabela de Lloyd e Kaplan, que deixa de fora o 4.000 Hz, a média cai para 20 dB, dentro do normal. Quem usa essa tabela não fala em grau nesse caso: informa só as frequências alteradas, como “perda auditiva a partir de 3.000 Hz”. O Conselho lembra que não existe “perda auditiva de grau normal”.

Como ler o resultado da audiometria vocal

Os números da parte vocal aparecem num quadro junto ao audiograma, um para cada orelha.

  • LRF: o esperado é que ele fique próximo da média dos tons de 500, 1.000 e 2.000 Hz da mesma orelha. Quando os dois números não combinam, o profissional investiga o motivo antes de fechar o laudo.
  • IPRF: de 90% a 100% de acertos, o reconhecimento de fala é considerado normal. De 78% a 88%, a dificuldade é discreta. De 66% a 76%, moderada. Abaixo disso, a dificuldade é acentuada ou profunda.

O IPRF ajuda a explicar a queixa “eu escuto, mas não entendo” e a ajustar a expectativa com o aparelho auditivo, porque mostra quanto da fala o ouvido aproveita quando o som chega num volume bom.

O resultado veio alterado. E agora?

Leve o exame para quem pediu. A audiometria sozinha não fecha diagnóstico: o fonoaudiólogo descreve tipo, grau e formato da perda, e o otorrinolaringologista investiga a causa e decide se há necessidade de outros exames ou de tratamento médico.

Perda em um ouvido só, diferença grande entre os lados ou perda que apareceu de repente pedem avaliação médica mais rápida.

Quando a perda atrapalha o dia a dia, o caminho costuma ser a reabilitação auditiva com aparelhos auditivos, regulados a partir do seu audiograma. Se você tem zumbido, conheça também o tratamento de zumbido. E se o exame veio normal mas você continua com dificuldade para ouvir, conte isso ao profissional, porque a queixa entra na avaliação junto com o gráfico.

Perguntas frequentes sobre audiometria tonal e vocal

Audiometria e audiograma são a mesma coisa?

Não. Audiometria é o exame. Audiograma é o gráfico em que o resultado da parte tonal é registrado.

Quem faz o exame de audiometria?

O fonoaudiólogo ou o médico, em geral o otorrinolaringologista. O laudo audiológico, com tipo, grau e formato da perda, é emitido pelo fonoaudiólogo.

Audiometria tem validade?

No exame clínico, não existe um prazo fixo: o profissional define quando repetir, conforme o seu caso. No trabalho é diferente. Pela NR-7, quem trabalha exposto a ruído acima do nível de ação faz audiometria na admissão, uma vez por ano e na demissão.

A audiometria detecta zumbido?

Ela não mede o zumbido, mas mostra se há perda auditiva, que costuma andar junto com ele. Para descrever o zumbido existe a acufenometria, que estima a frequência e o volume aproximados do som.

Audiometria tonal e vocal em Copacabana

Na Hear Clean, a audiometria é feita em cabina acústica, durante a consulta de avaliação. Depois, explicamos o seu audiograma sem termos difíceis e indicamos o próximo passo, que pode ser acompanhamento, encaminhamento ao otorrinolaringologista ou adaptação de aparelhos auditivos, que você testa em casa antes de decidir.

Agende sua avaliação auditiva. Estamos na Rua Santa Clara, 70, sala 1008, em Copacabana, Rio de Janeiro, de segunda a sexta, das 9h às 18h. Telefone: (21) 2547-7443, ou fale com a gente pelo WhatsApp no botão da página ou pelo formulário de contato.

Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta com médico otorrinolaringologista e fonoaudiólogo.

Referências

  • Sistema de Conselhos de Fonoaudiologia. Guia de orientação na avaliação audiológica, volume I: audiometria tonal limiar, logoaudiometria e medidas de imitância acústica. 2ª edição. Conselho Federal de Fonoaudiologia, 2023. CFFa
  • World Health Organization. World report on hearing. Organização Mundial da Saúde, 2021. OMS
  • World Health Organization. Deafness and hearing loss. Organização Mundial da Saúde, 2026. OMS
  • Brasil. Norma Regulamentadora nº 7, Anexo II: controle médico ocupacional da exposição a níveis de pressão sonora elevados. Ministério do Trabalho e Emprego, redação da Portaria SEPRT nº 6.734/2020. gov.br
  • Hospital Universitário Antônio Pedro (UFF/Ebserh). Procedimento operacional padrão: audiometria tonal limiar. Ebserh, 2022. gov.br
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