Fungo no ouvido (otomicose): sintomas, causas e cuidados

Neste artigo (11 partes)

O fungo no ouvido, que os médicos chamam de otomicose, é uma infecção da pele do canal do ouvido causada por fungos, parentes do mofo. Quase sempre começa com uma coceira forte e insistente, vem a sensação de ouvido cheio e, às vezes, sai uma secreção com pontinhos brancos, amarelados ou pretos. Neste artigo você vai entender o que é, quais são os sintomas, por que o calor do Rio, a piscina e o cotonete favorecem o problema, por que não vale tratar em casa e como evitar que ele volte.

Mulher de cerca de 60 anos, de maiô azul-marinho, secando o cabelo molhado com uma toalha branca na beira da piscina de um clube

O que é fungo no ouvido (otomicose)

Otomicose é uma infecção superficial do canal do ouvido, o tubo que vai da orelha até o tímpano. Os fungos que mais causam o problema são dois grupos: o Aspergillus, um tipo de mofo, e a Candida, uma levedura. Numa revisão de 20 estudos com identificação por exame de DNA, o Aspergillus respondeu por cerca de 76% dos casos e a Candida por cerca de 15%.

O canal do ouvido saudável já convive com microrganismos, e a pele tem uma defesa própria: a cera. Ela repele a água, forma uma camada protetora e deixa o ambiente levemente ácido, o que atrapalha bactérias e fungos. Quando essa defesa se desfaz, por umidade, por cotonete ou por gotas que desequilibram o canal, o fungo encontra espaço para crescer.

Fungo no ouvido e otite externa: qual é a diferença

A otomicose é um tipo de otite externa, a inflamação do canal do ouvido. A diferença está no agente: a otite externa mais comum, o chamado ouvido de nadador, é causada por bactéria. A otomicose é causada por fungo. Os sintomas se parecem, e às vezes as duas acontecem juntas, por isso só o exame do otorrinolaringologista separa uma da outra.

Otite externa por bactéria Fungo no ouvido (otomicose)
Queixa que mais chama a atenção Dor, que piora ao puxar a orelha Coceira forte e ouvido cheio
O que o médico vê no canal Pele vermelha, inchada, com secreção Resíduos do fungo, brancos, amarelados ou escuros
O que costuma vir antes Água parada no canal, cotonete Umidade, cotonete e, muitas vezes, gotas com antibiótico usadas antes
Quem confirma e trata Otorrinolaringologista Otorrinolaringologista

Quando procurar o otorrinolaringologista

Coceira que não passa, secreção ou pontinhos no ouvido já são motivo para marcar consulta com o otorrinolaringologista. Procure atendimento com pressa, no mesmo dia, se houver:

  • dor forte, que não deixa dormir;
  • diabetes, tratamento que baixa a imunidade ou outra condição que enfraquece as defesas, junto com sintomas no ouvido;
  • febre, dor de cabeça forte ou inchaço e dor atrás da orelha;
  • fraqueza ou paralisia de um lado do rosto;
  • perda de audição que aumenta;
  • sintomas que voltam logo depois de um tratamento.

Fungo no ouvido é comum?

5% a 20%

das infecções do ouvido externo no mundo são causadas por fungo (Pereira et al., 2024)

47%

das pessoas com otomicose tinham usado gotas de antibiótico no ouvido antes (Pereira et al., 2024)

É comum, principalmente em lugar quente e úmido. Uma revisão sistemática de 2024 calcula que os fungos respondem por 5% a 20% das infecções do ouvido externo no mundo. Outra revisão, de 2023, aponta o clima tropical e subtropical como o principal fator de risco do ambiente, e cita o Brasil entre os países onde se encontra a maior variedade de fungos causadores. Verão carioca, praia, piscina e dias abafados formam exatamente esse cenário.

Sintomas de fungo no ouvido

Os sintomas costumam aparecer em um ouvido só. Num estudo com 250 pacientes na Tanzânia, também de clima quente, 81% tinham o problema de um lado apenas. As queixas mais frequentes foram estas:

  • Coceira dentro do ouvido, presente em 94% dos pacientes. É a queixa que mais aparece na otomicose.
  • Dor de ouvido, em 79%, de leve a forte.
  • Audição abafada, em 76%, porque os resíduos do fungo ocupam o canal.
  • Sensação de ouvido cheio ou tampado, em 74%.
  • Secreção saindo do ouvido, em 61%.
  • Zumbido, em 14%.

No começo, a otomicose pode dar poucos sintomas, e a pessoa só percebe uma coceira que vai e volta. Coçar com cotonete, grampo ou a ponta do dedo alivia por minutos, mas machuca a pele e piora o quadro.

Pontos pretos ou brancos no ouvido: o que significam

Muita gente procura ajuda porque vê pontinhos na secreção ou na ponta da toalha. Esses pontos são os resíduos do fungo, que o médico enxerga no canal durante o exame. No estudo da Tanzânia, os resíduos eram esbranquiçados em 76% dos casos, amarelados em 15%, escuros em 6% e misturados em 3%.

Os pontos pretos lembram mofo porque vários dos fungos que mais causam otomicose pertencem ao grupo do Aspergillus niger, de mofos escuros. A cor dá uma pista, mas não fecha o diagnóstico: outras infecções também podem dar secreção, e só o exame do canal mostra o que está lá dentro.

O que causa fungo no ouvido

O fungo aproveita um canal úmido, machucado ou sem a proteção da cera. Quase sempre há mais de um motivo ao mesmo tempo.

Calor e umidade

Clima quente e úmido é o principal fator de risco ligado ao ambiente, segundo a revisão de 2023. Suor, cabelo molhado e ar abafado deixam o canal úmido por horas, e o fungo gosta disso.

Natação, mar e sauna

Nadar com frequência, por lazer ou por esporte, e usar sauna e outros tratamentos de spa estão entre os fatores que predispõem à otomicose. A água parada amolece a pele do canal e leva embora a cera. O artigo sobre como tirar água do ouvido mostra o jeito seguro de secar o canal depois do mergulho.

Gotas com antibiótico usadas sem necessidade ou por muito tempo

Foi o fator mais encontrado numa revisão sistemática de 2024: 47% das pessoas com otomicose tinham usado gotas de antibiótico no ouvido, com ou sem corticoide. O antibiótico reduz as bactérias que vivem normalmente no canal e abre espaço para o fungo. Por isso a otomicose às vezes aparece depois de uma otite tratada com gotas de antibiótico, e por isso pingar gota que sobrou de outro tratamento é má ideia.

Cotonete e limpeza do canal

Arranhar a pele do canal, seja com cotonete, grampo ou limpeza exagerada, apareceu em 37% dos casos da mesma revisão. Na Tanzânia, o uso de cotonete foi o fator de risco mais comum, em 41% dos pacientes. Num estudo de caso e controle feito na China, com 160 pessoas com otomicose e 320 sem, o hábito de mexer no ouvido quase triplicou a chance do problema, e a limpeza de ouvido feita em salão aumentou essa chance em mais de sete vezes.

Óleos e produtos caseiros no ouvido

Pingar óleo e produtos para amolecer a cera apareceu em 38% dos casos na revisão de 2024. Água oxigenada, ácido bórico, iodo, antissépticos e excesso de sabão ou xampu dentro do canal também desequilibram os microrganismos que vivem ali e favorecem o crescimento do fungo.

Aparelho auditivo e fone que fecham o canal

A revisão de 2023 cita o aparelho auditivo com molde que fecha o canal entre os fatores de risco, porque o canal fica abafado e pode reter umidade. No estudo chinês, porém, o uso frequente de fone ou aparelho não aumentou o risco de forma significativa. Na prática, quem usa aparelho não precisa parar de usar. O cuidado está em manter o aparelho limpo e seco e em colocá-lo só com a orelha seca.

Diabetes e imunidade baixa

Diabetes, tratamentos que baixam a imunidade e outras condições que enfraquecem as defesas também aumentam o risco. Nesses casos, a otomicose aparece com mais frequência nos dois ouvidos.

Fungo no ouvido é perigoso?

Na maioria das vezes, não. A otomicose costuma ser uma infecção superficial, que fica na pele do canal. O problema é que ela volta com facilidade quando as condições do canal não mudam, e em uma parte dos casos, cerca de 10% segundo a revisão de 2023, a infecção chega à orelha média, do outro lado do tímpano.

As formas graves, que furam o tímpano ou se espalham para o osso ao redor do ouvido, são raras e aparecem principalmente em pessoas com a imunidade baixa. É por isso que diabetes e imunidade baixa mudam a pressa com que se deve procurar o médico.

Como o médico confirma o fungo no ouvido

O diagnóstico começa pela conversa e pelo exame do canal e do tímpano, com o otoscópio ou, muitas vezes, com o microscópio do consultório. Em muitos casos, o aspecto dos resíduos já sugere o fungo. Como a otomicose pode ser confundida com infecções de outra origem, o médico pode colher um pouco da secreção para exame de laboratório, principalmente quando o quadro é grave, volta muitas vezes ou não melhora.

Como tratar fungo no ouvido

Quem avalia e trata é o otorrinolaringologista. O passo principal é a limpeza cuidadosa do canal, feita pelo médico, geralmente com a ajuda do microscópio, para retirar os resíduos do fungo. A limpeza vem primeiro porque o tratamento precisa chegar à pele do canal, e não ficar sobre os resíduos. Depois, o médico indica o tratamento local adequado ao caso e por quanto tempo ele deve ser feito.

Não existe uma diretriz oficial única para tratar a otomicose, e a escolha depende do exame, por exemplo de o tímpano estar inteiro ou furado. Casos graves, raros, podem precisar de tratamento pela boca, sempre com indicação médica.

Existe remédio para fungo no ouvido sem receita?

Não é recomendado usar nada por conta própria. Os sintomas se parecem com os da otite por bactéria, e a gota errada pode piorar: o uso de gotas com antibiótico é justamente o fator mais ligado à otomicose. Sem a limpeza do canal feita pelo médico, o produto fica em cima dos resíduos e não chega à pele. E, se o tímpano estiver furado, o que só o exame mostra, alguns produtos podem passar para a orelha média.

Remédio caseiro para fungo no ouvido funciona?

Não, e pode piorar. Óleos e produtos para amolecer a cera aparecem como fator de risco em 38% dos casos de otomicose. Água oxigenada, ácido bórico, iodo e antissépticos desequilibram o canal e favorecem o fungo. Alho, álcool e vapor não aparecem entre os tratamentos estudados para a otomicose. O cuidado seguro em casa é manter o ouvido seco, não coçar e não colocar nada no canal até a consulta.

Como prevenir fungo no ouvido

A prevenção é a mesma da otite de piscina: deixar o canal seco e deixar a cera fazer o trabalho dela. As orientações do CDC, a agência de saúde dos Estados Unidos, são estas:

  • Seque bem as orelhas depois de nadar ou tomar banho, com a toalha só na parte de fora.
  • Incline a cabeça para um lado e para o outro, com o ouvido para baixo, e puxe de leve a orelha para a água escorrer.
  • Se a água continuar, use o secador de cabelo na temperatura e na velocidade mais baixas, a vários centímetros da orelha.
  • Não coloque nada no canal: nem cotonete, nem grampo, nem a ponta da toalha.
  • Não tente tirar a cera. Ela protege o canal.
  • Use touca, protetor ou molde de natação quando nadar.

Somam-se a isso dois cuidados que vêm dos estudos sobre otomicose: não pingar gota nenhuma sem indicação médica e evitar limpeza de ouvido em salão.

Para quem usa aparelho auditivo

  • Tire o aparelho para tomar banho e para nadar, e só coloque de volta com a orelha seca.
  • Limpe o aparelho todos os dias e guarde num lugar seco.
  • Troque a ponta de silicone quando ela estiver amarelada, endurecida ou folgada.
  • Leve o aparelho às revisões. Na manutenção do aparelho auditivo, a clínica limpa o aparelho, e não o ouvido.
  • Se aparecer coceira forte, secreção ou dor, deixe de usar o aparelho naquele ouvido e procure o otorrinolaringologista.

Para quem nada com frequência

Quem nada várias vezes por semana ou já teve otite depois da piscina ganha com um protetor de natação. O artigo sobre protetor auricular para natação compara os tipos. O protetor sob medida é feito a partir do molde do próprio ouvido, segue o formato da sua orelha e costuma ser mais confortável para usar por horas. Ele também precisa ser lavado e secado depois de cada uso, para não levar umidade de volta ao canal.

Perguntas frequentes sobre fungo no ouvido

Fungo no ouvido tem cura?

Tem. Com a limpeza do canal feita pelo otorrinolaringologista e o tratamento local que ele indicar, a otomicose costuma se resolver. O cuidado é com a volta: se o canal continuar úmido ou machucado, o fungo pode reaparecer.

Por que o fungo no ouvido volta?

Porque os fatores que abriram caminho continuam lá: umidade, cotonete, gotas usadas sem orientação, aparelho que fecha o canal e fica úmido, diabetes. Se os sintomas retornarem, volte ao otorrinolaringologista em vez de repetir o tratamento anterior por conta própria.

Fungo no ouvido pode dar nos dois ouvidos?

Pode, mas é menos comum. Na maior parte das vezes aparece em um ouvido só. Nos dois lados, é mais frequente em quem tem a imunidade baixa.

Fungo no ouvido causa perda de audição?

Durante a infecção, a audição costuma ficar abafada porque os resíduos ocupam o canal. Se o ouvido continuar abafado depois que a otomicose passou, vale fazer uma audiometria.

Posso entrar na piscina ou no mar com fungo no ouvido?

O ideal é manter o ouvido seco durante o tratamento. Pergunte ao otorrinolaringologista quando pode voltar a nadar e, na volta, use protetor e seque bem as orelhas.

Protetor para natação e avaliação auditiva em Copacabana

Quem trata o fungo no ouvido é o otorrinolaringologista. Na Hear Clean, cuidamos do que vem antes e depois. Fazemos o protetor auricular sob medida para quem nada e quer manter a água fora do ouvido, para adultos e crianças a partir de 7 anos. Para quem sente que a audição não voltou ao normal depois da infecção, fazemos a avaliação auditiva gratuita, com audiometria na nossa sala acústica. E quem usa aparelho auditivo encontra aqui a revisão e a limpeza do aparelho.

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Referências

  • Bojanović M et al. Etiology, predisposing factors, clinical features and diagnostic procedure of otomycosis: a literature review. Journal of Fungi, 2023. PMC
  • Pereira M et al. Topical antibiotic-induced otomycosis: a systematic review of aetiology and risk factors. Indian Journal of Otolaryngology and Head and Neck Surgery, 2024. PubMed
  • Nazari T et al. Otomycosis: a systematic review and meta-analysis of prevalence and causative agents in the era of molecular diagnostics. BMC Infectious Diseases, 2025. PubMed
  • Abraham ZS. Aetiological profile, clinical features and risk factors for otomycosis in Dar es Salaam, Tanzania: a cross-sectional study. Indian Journal of Otolaryngology and Head and Neck Surgery, 2024. PubMed
  • Liu P et al. Clinical features and risk factors of otomycosis: a case-control study. Ear, Nose and Throat Journal, 2026. PubMed
  • Centers for Disease Control and Prevention. Preventing swimmer’s ear. CDC
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