Hiperacusia: quando o som incomoda demais
Neste artigo (12 partes)
- O que é hiperacusia
- Quando procurar o otorrinolaringologista
- Sintomas da hiperacusia
- Hiperacusia é comum?
- Hiperacusia, zumbido e perda auditiva
- O que causa a hiperacusia
- Por que proteger o ouvido o tempo todo pode piorar
- Como é feito o diagnóstico
- Hiperacusia tem tratamento?
- O que você pode fazer hoje
- Perguntas frequentes sobre hiperacusia
- Hiperacusia em Copacabana
O barulho dos talheres no restaurante parece uma bateria. A buzina na Avenida Nossa Senhora de Copacabana entra como uma pancada. A voz do neto, que ninguém mais acha alta, chega a doer. Quando sons comuns do dia a dia passam a soar altos demais ou incômodos, o nome disso é hiperacusia. Neste artigo você vai entender o que ela é, o que a liga ao zumbido e à perda auditiva, por que andar com o ouvido tapado o tempo todo costuma piorar o quadro e quais tratamentos têm estudo por trás.
O que é hiperacusia
Hiperacusia é uma tolerância reduzida a sons que, para a maioria das pessoas, são normais. O serviço de saúde britânico (NHS) resume assim: sons do dia a dia parecem muito mais altos do que deveriam e, às vezes, doem. Os exemplos que ele cita são bem cotidianos: moedas chacoalhando, um cachorro latindo, o motor de um carro, alguém mastigando, o aspirador de pó.
Ela pode afetar um ouvido ou os dois, e pode começar de repente ou se instalar aos poucos. Uma conferência internacional sobre o tema, realizada em Londres, concluiu que a hiperacusia tem três lados: o da percepção (o som parece mais forte), o psicológico (a reação ao som) e o social (o que a pessoa deixa de fazer por causa dele).
Muita gente procura o problema como hipersensibilidade auditiva ou sensibilidade auditiva. É o mesmo assunto. Existem dois parentes próximos com nomes parecidos: na fonofobia o som provoca medo, e na misofonia certos sons, como o de mastigar, provocam raiva ou nojo; a diferença entre os três está explicada no artigo sobre fonofobia e misofonia.
Quando procurar o otorrinolaringologista
A hiperacusia não costuma ser uma emergência, mas merece avaliação. Procure o otorrinolaringologista se:
- sons comuns do dia a dia parecem altos demais ou doem;
- a sensibilidade veio junto com zumbido, perda de audição, tontura ou sensação de ouvido tampado;
- ela começou depois de uma batida na cabeça ou de um barulho muito forte;
- apareceu junto com fraqueza ou paralisia de um lado do rosto;
- você começou a deixar de sair, de trabalhar ou de encontrar pessoas por causa do barulho.
O médico examina o ouvido e procura condições que tenham tratamento próprio. Se a hiperacusia vier de outra doença, como a enxaqueca, tratar essa doença pode ajudar, segundo o NHS.
Sintomas da hiperacusia
O sintoma central é achar alto o que os outros acham normal. Na prática, ele aparece de vários jeitos:
- sons comuns parecem fortes demais, como pratos, portas batendo, secador de cabelo ou trânsito;
- alguns sons causam dor ou pressão no ouvido;
- ambientes cheios, como restaurantes, festas e shoppings, cansam rápido;
- a pessoa passa a evitar lugares e situações por causa do barulho;
- vem junto uma tensão, uma irritação ou uma ansiedade antes mesmo de o som acontecer.
Um estudo com a população da Suécia comparou pessoas com e sem hiperacusia. Tentar fugir das fontes de som e tentar controlar o barulho ao redor foram comportamentos comuns entre quem tinha o problema. Esse detalhe é importante, porque mais adiante você vai ver que a fuga do som tende a manter a hiperacusia.
Hiperacusia é comum?
15,2%
dos adultos de 45 a 70 anos de uma cidade australiana disseram ser sensíveis ou intolerantes a sons do dia a dia (Smit et al., 2021)
72%
de quem tinha hiperacusia sentia o efeito na rotina só de vez em quando (Smit et al., 2021)
É mais comum do que parece. Um estudo na Austrália perguntou a 5.107 pessoas de 45 a 70 anos se elas se consideravam sensíveis ou intolerantes a sons do dia a dia. Responderam que sim 775 delas, ou 15,2%. Para a maioria, o incômodo aparecia de vez em quando. Ser mulher, ter mais idade, ter perda auditiva mais forte e ter zumbido foram fatores ligados à hiperacusia.
No estudo sueco, idade mais alta e sexo feminino também apareceram ligados ao problema. Ou seja: se você passou dos 50 e anda achando o mundo barulhento demais, não é frescura e não é só com você.
Hiperacusia, zumbido e perda auditiva
Os três costumam andar juntos. No estudo australiano, quem tinha perda auditiva mais forte e quem tinha zumbido tinha mais chance de ter hiperacusia. Quem tinha perda auditiva também relatou mais efeito dela na vida diária. No estudo sueco, perda auditiva e zumbido estavam entre as condições que mais apareceram junto.
Parece contraditório: como alguém que ouve menos pode achar os sons altos demais? A explicação mais aceita hoje está no cérebro, não na orelha. A conferência de Londres concluiu que a hiperacusia parece ligada a um “ganho” aumentado nas vias auditivas centrais, como se o cérebro tivesse subido o volume para compensar o que chega fraco do ouvido, somado a uma reação emocional maior ao som. O mesmo mecanismo de compensação ajuda a explicar o zumbido. Se ele também faz parte da sua história, o artigo sobre zumbido no ouvido explica esse caminho em detalhe, e a página de perda auditiva mostra como ela costuma começar.
O que causa a hiperacusia
Muitas vezes a causa não fica clara. O NHS lista situações em que ela aparece com mais frequência.
Depois de um barulho forte
A hiperacusia pode começar logo depois de um som muito alto e repentino, como fogos de artifício. Quem estava perto de uma explosão, de um tiro ou de uma caixa de som num show pode sair com o ouvido apitando e, nos dias seguintes, notar que tudo parece alto.
Problemas do ouvido e do nervo facial
Ela aparece junto com zumbido, com a doença de Ménière (que dá crises de tontura, zumbido e ouvido tampado) e com a paralisia facial de Bell, que enfraquece um lado do rosto. Na criança, alguns ficam mais sensíveis ao barulho depois de uma temporada de líquido atrás do tímpano, a chamada otite com efusão.
Enxaqueca, batida na cabeça e outras condições
Enxaqueca, traumatismo na cabeça e doença de Lyme também estão na lista do NHS. No estudo sueco, a hiperacusia apareceu com mais frequência em quem tinha ansiedade generalizada, depressão, estresse pós-traumático, esgotamento, fibromialgia, síndrome da fadiga crônica e enxaqueca. Os autores lembram que ainda não se sabe se essas condições ajudam a causar a hiperacusia ou se são consequência dela.
Autismo e síndrome de Williams
A sensibilidade a sons é frequente no autismo, em crianças e adultos, e na síndrome de Williams, uma condição genética rara. O NHS lembra também que crianças costumam ser mais sensíveis a barulho que adultos e que isso muitas vezes melhora com a idade.
Por que proteger o ouvido o tempo todo pode piorar
É o impulso mais natural: se o som incomoda, a pessoa tampa o ouvido. Passa a andar com tampão de espuma no bolso, usa fone com cancelamento de ruído dentro de casa, evita a praia no fim de semana. No curto prazo alivia. No longo prazo, tende a aumentar a sensibilidade.
A orientação do NHS é direta: não usar tampão ou abafador o tempo todo, porque isso pode deixar você mais sensível ao barulho, e não fugir do barulho por completo, pelo mesmo motivo. O uso por pouco tempo, em ambientes muito barulhentos, pode ajudar.
Há um experimento que mostra isso acontecendo. Em 2003, pesquisadores americanos pediram a voluntários que usassem tampões nos ouvidos continuamente por duas semanas. Depois desse período, eles passaram a perceber os sons como mais altos. Na outra parte do estudo, com duas semanas de um aparelho que tocava um ruído baixinho, aconteceu o contrário: os sons passaram a parecer menos altos. É o “ganho” do cérebro se ajustando ao que chega. Com menos som entrando, o cérebro aumenta o volume; com um pouco mais de som, ele baixa.
Isso não quer dizer abrir mão de proteção quando o barulho é de fato perigoso. Em show, obra, corrida de moto ou fogos, o protetor continua valendo. O artigo sobre protetor auricular plug ou concha ajuda a escolher o modelo. A diferença é usar o protetor para um barulho alto de verdade, e não para a vida comum da casa, da rua e do trabalho.
Como é feito o diagnóstico
Não existe um exame único que “mostre” a hiperacusia. O diagnóstico junta a conversa, o exame do ouvido e a avaliação da audição. A audiometria é importante porque a perda auditiva aparece com frequência junto, e muita gente só descobre que ouve menos ao investigar a sensibilidade ao som.
Em serviços especializados, também se usam questionários sobre o incômodo e um teste que mede a partir de que volume o som fica desconfortável para a pessoa, o nível de desconforto (LDL, na sigla em inglês). Esses dados servem para acompanhar a melhora ao longo do tratamento.
Hiperacusia tem tratamento?
Tem, com uma ressalva honesta: nenhum tratamento garante cura, e os estudos ainda são poucos. A conferência de Londres concluiu que o aconselhamento e a terapia sonora parecem trazer benefício, mas que a base de evidência ainda é fraca. O objetivo realista é que os sons do dia a dia voltem a ser toleráveis e que a pessoa retome a vida que o barulho tirou dela.
Aconselhamento e terapia sonora
O aconselhamento explica o que está acontecendo, desfaz o medo de que o som esteja estragando o ouvido e orienta como voltar aos poucos aos ambientes evitados. A terapia sonora, segundo o NHS, serve para acostumar a pessoa de novo aos sons do dia a dia e pode usar pequenos aparelhos no ouvido ou uma caixinha que faz um ruído suave. Se algum som da terapia ficar desconfortável ou doer, a orientação é parar e falar com o profissional que acompanha você.
Terapia cognitivo-comportamental
A terapia cognitivo-comportamental (TCC) é um tipo de psicoterapia que trabalha a reação ao som e o hábito de fugir dele. Um estudo na Suécia sorteou 60 pessoas com hiperacusia entre fazer TCC ou ficar numa lista de espera. O grupo da TCC melhorou mais em quase todas as medidas, inclusive no volume a partir do qual o som ficava desconfortável, e o resultado se manteve em boa parte depois de 12 meses. Os autores chamaram a TCC de promissora e pediram mais pesquisas. Quem aplica a TCC é o psicólogo com formação no método.
Quando há zumbido e perda auditiva
Se a hiperacusia vem junto com zumbido e perda auditiva, a avaliação auditiva mostra se o aparelho auditivo ajustado para o zumbido tem indicação. O artigo sobre tratamento de zumbido mostra como esse caminho funciona.
O que você pode fazer hoje
- Guarde o protetor para barulho alto de verdade, como show, obra e fogos, e não o use o dia inteiro.
- Evite o silêncio total em casa. Um ventilador, uma música baixa ou um som de chuva deixam o ambiente menos vazio, e o experimento de 2003 sugere que um pouco de som ajuda o cérebro a baixar o volume.
- Volte aos poucos aos lugares que você passou a evitar, começando pelos mais tranquilos e ficando menos tempo no início.
- Pratique técnicas de relaxamento, como exercícios de respiração, que o NHS recomenda.
- Anote quais sons incomodam, em que lugares e quanto. Esse diário ajuda muito na consulta.
Perguntas frequentes sobre hiperacusia
Hiperacusia tem cura?
Nenhum tratamento garante cura, e as revisões sobre o tema dizem que a evidência ainda é limitada. Muita gente melhora bastante com aconselhamento, exposição gradual ao som e terapia cognitivo-comportamental, e, quando existe uma causa tratável, como a enxaqueca, tratá-la pode ajudar.
Hipersensibilidade auditiva é a mesma coisa que hiperacusia?
Na linguagem do dia a dia, sim. Hipersensibilidade auditiva e sensibilidade auditiva são os nomes populares para a hiperacusia, a percepção de sons comuns como altos ou dolorosos.
Sensibilidade auditiva pode ser autismo?
A sensibilidade a sons é comum no autismo, em crianças e adultos, mas também aparece em muitas pessoas sem autismo, depois de barulho forte, com zumbido, perda auditiva, enxaqueca ou ansiedade. A sensibilidade sozinha não define um diagnóstico de autismo, que é feito por profissionais da área.
Criança com sensibilidade a barulho alto melhora?
Muitas vezes, sim. Crianças costumam ser mais sensíveis a barulho que adultos, e isso tende a melhorar com a idade, segundo o NHS. Se a sensibilidade apareceu depois de otites ou atrapalha a escola e a rotina, vale conversar com o pediatra ou o otorrino.
Usar protetor auricular ajuda na hiperacusia?
Só em ambientes muito barulhentos e por pouco tempo. Usado o dia todo, o protetor pode deixar você mais sensível ao som, porque o cérebro se acostuma a receber menos e aumenta o volume.
Qual médico procurar para sensibilidade auditiva?
O otorrinolaringologista examina o ouvido e procura causas médicas. O fonoaudiólogo avalia a audição em detalhe. Quando a ansiedade e a fuga do som pesam muito, o psicólogo com formação em terapia cognitivo-comportamental entra no tratamento.
Hiperacusia em Copacabana
Na Hear Clean, o primeiro passo é a avaliação auditiva gratuita: uma audiometria completa, com tons e palavras, na nossa sala acústica, sem pedido médico e sem compromisso de compra. Ela leva de 30 a 60 minutos e mostra se existe perda auditiva por trás da sensibilidade ao som. Se a hiperacusia vem com zumbido e há indicação, tratamos o zumbido com aparelho auditivo ajustado para ele, num tratamento que inclui o aparelho, os exames, a adaptação e as revisões. Quando o aparelho não é indicado, encaminhamos você ao otorrinolaringologista.
Agende sua avaliação auditiva
Rua Santa Clara, 70, sala 1008, Copacabana, Rio de Janeiro. De segunda a sexta, das 9h às 18h.
Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta com médico otorrinolaringologista e fonoaudiólogo.
Referências
- Aazh H et al. Insights from the First International Conference on Hyperacusis: causes, evaluation, diagnosis and treatment. Noise & Health, 2014. PubMed
- Smit AL et al. Prevalence of hyperacusis and its relation to health: the Busselton Healthy Ageing Study. The Laryngoscope, 2021. PubMed
- Paulin J et al. Characteristics of hyperacusis in the general population. Noise & Health, 2016. PubMed
- Jüris L et al. Cognitive behaviour therapy for hyperacusis: a randomized controlled trial. Behaviour Research and Therapy, 2014. PubMed
- Formby C et al. Adaptive plasticity of loudness induced by chronic attenuation and enhancement of the acoustic background. The Journal of the Acoustical Society of America, 2003. PubMed
- NHS. Noise sensitivity (hyperacusis). National Health Service, Reino Unido, revisado em 2026. NHS