Audiometria infantil: como é feita em crianças

Neste artigo (8 partes)

A audiometria infantil não é um exame só. Um bebê de dois meses não levanta a mão quando ouve um apito, e uma criança de três anos não fica quieta com fone de ouvido esperando um som fraquinho. Por isso a avaliação da audição muda conforme a idade: começa com o teste da orelhinha na maternidade, passa por exames em que a criança só precisa virar a cabeça ou brincar e chega, por volta da idade escolar, à audiometria igual à do adulto. Neste artigo você vai ver como é feito cada exame, em que idade, quais sinais pedem avaliação e como preparar a criança.

Menino de uns 8 anos com fone de ouvido grande levanta a mão ao ouvir um som, ao lado da mãe, que sorri e apoia a mão no ombro dele numa sala clara

O que é audiometria infantil

É o conjunto de exames que mede a audição de bebês e crianças. Alguns são objetivos: um aparelho registra a resposta do ouvido ou do nervo ao som, sem a criança precisar fazer nada. Outros são comportamentais: o fonoaudiólogo apresenta sons e observa como a criança reage, seja com um movimento natural, seja virando a cabeça para um brinquedo que acende ou colocando uma peça num pote.

Um estudo publicado na Scientific Reports em 2025 descreve essa divisão dos testes comportamentais por idade. Em muitos laudos o exame vem com outros nomes, como audiometria comportamental, audiometria com reforço visual, audiometria lúdica ou audiometria condicionada. É tudo audiometria infantil, adaptada ao que a criança consegue fazer naquela fase.

Quando procurar avaliação da audição da criança

Quando os pais desconfiam, vale levar a sério. O COMUSA coloca a preocupação dos pais com a audição, a fala ou a linguagem na lista de fatores de risco para perda auditiva, e a Academia Americana de Pediatria (AAP) orienta o pediatra a acompanhar marcos do desenvolvimento, habilidades auditivas, preocupação dos pais e saúde do ouvido médio em todas as consultas, não só na maternidade.

Converse com o pediatra ou o otorrino se a criança:

  • fala menos palavras do que o esperado para a idade, ou a fala está atrasada ou difícil de entender;
  • não atende quando é chamada pelo nome, principalmente de outro cômodo;
  • pede muito para repetir ou responde “hã?” com frequência;
  • aumenta o volume da televisão ou do tablet mais que o resto da família;
  • teve otites de repetição ou ficou com líquido atrás do tímpano por 3 meses ou mais: nesse caso, a diretriz americana orienta um exame de audição adequado para a idade;
  • vai mal na escola, se distrai muito na sala ou tem problemas de comportamento sem outro motivo aparente;
  • perde o equilíbrio com frequência;
  • teve meningite, trauma na cabeça ou fez quimioterapia, que o COMUSA também lista entre os fatores de risco.

Se a dor de ouvido e as otites são o motivo da preocupação, os artigos sobre dor de ouvido em criança e otite média mostram quando procurar o pediatra.

Perda auditiva em criança é comum?

34 milhões

de crianças no mundo precisam de reabilitação por perda auditiva incapacitante (OMS)

Quase 60%

das perdas auditivas em crianças vêm de causas evitáveis (OMS)

Não é rara. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 34 milhões de crianças no mundo tenham perda auditiva incapacitante, aquela acima de 35 dB na orelha que ouve melhor. Entre as causas que a OMS lista na infância estão a infecção de ouvido crônica, o líquido que fica atrás do tímpano e a meningite.

No recém-nascido, o Comitê Multiprofissional em Saúde Auditiva (COMUSA), formado por sociedades brasileiras de fonoaudiologia, otorrinolaringologia, otologia e pediatria, cita a perda auditiva neurossensorial em 1 a cada 1.000 bebês nos países desenvolvidos. Um estudo num hospital privado de São Paulo, com 4.631 recém-nascidos, encontrou 2,4 casos de perda permanente a cada 1.000.

O mesmo documento mostra por que a pressa importa: num levantamento com 200 crianças e adolescentes em São Paulo, os pais suspeitavam da perda em 56% dos casos até os 2 anos, mas só 13% tiveram o diagnóstico confirmado nessa idade.

Qual exame de audição a criança faz em cada idade

O exame acompanha o desenvolvimento. As faixas abaixo são aproximadas, porque cada criança amadurece no seu ritmo, e o fonoaudiólogo escolhe o teste pelo que ela consegue fazer, não só pela data de nascimento.

Idade aproximada Exame O que a criança faz
Recém-nascido Teste da orelhinha (EOA e, em alguns casos, PEATE automático) Nada: um aparelho registra a resposta do ouvido
Qualquer idade, quando indicado PEATE, o exame BERA Fica quieta enquanto eletrodos registram a resposta do nervo ao som
Até 6 meses Audiometria de observação comportamental Reage ao som de forma natural (pisca, se assusta, para de mamar)
De 6 meses a 2 anos e meio Audiometria com reforço visual Vira a cabeça para o lado do som e é recompensada com um brinquedo que acende
De 2 anos e meio a 6 anos Audiometria lúdica, ou condicionada Faz um gesto de brincadeira, como pôr uma peça no pote, toda vez que ouve
A partir de 5 a 7 anos Audiometria tonal e vocal convencional Levanta a mão ao ouvir o apito e repete palavras

Teste da orelhinha no recém-nascido

É a triagem auditiva neonatal. No Brasil, a Lei 12.303, de 2010, obriga todos os hospitais e maternidades a fazer de graça o exame de emissões otoacústicas evocadas nos bebês nascidos ali. As emissões otoacústicas (EOA) são um som muito fraco que a cóclea saudável devolve quando recebe um estímulo. Uma pequena sonda na entrada do ouvido manda o som e capta essa resposta. Não dói e o bebê não precisa colaborar.

O COMUSA orienta como a triagem deve seguir:

  • Bebê sem fator de risco: faz as EOA, de preferência antes da alta.
  • Se a EOA falhar, mesmo que num ouvido só, repete-se o exame nos dois ouvidos em até 30 dias. Nos primeiros dias, restos de vérnix, a camada que cobre a pele do recém-nascido, podem ficar no canal e atrapalhar o resultado.
  • Bebê com fator de risco, como internação em UTI neonatal por mais de 5 dias, peso ao nascer abaixo de 1.500 g, infecção congênita ou casos de surdez na família: a triagem é feita com o PEATE automático, porque ele detecta também alterações do nervo auditivo que a EOA não pega.
  • Se a triagem continuar alterada, o bebê vai direto para diagnóstico com otorrinolaringologista e fonoaudiólogo.

O COMUSA cita as metas do comitê americano de audição infantil: triagem no primeiro mês de vida, diagnóstico até os 3 meses e início do tratamento até os 6 meses nos bebês com perda confirmada.

Exame BERA infantil (PEATE)

BERA é a sigla em inglês do potencial evocado auditivo de tronco encefálico, o PEATE. Eletrodos colados na pele da cabeça registram a atividade elétrica do nervo auditivo e do tronco encefálico enquanto a criança ouve sons pelo fone. Ela não precisa responder nada, e por isso o exame serve para bebês, crianças pequenas e quem não consegue fazer a audiometria comportamental.

Existem duas versões. O PEATE automático é a triagem: dá só “passou” ou “falhou”. O PEATE diagnóstico estima quanto a criança ouve e ajuda a separar perda na cóclea de alteração do nervo, como o espectro da neuropatia auditiva. Como qualquer movimento atrapalha o registro, a criança precisa ficar bem quieta, e o serviço que faz o exame explica o preparo de acordo com a idade.

Audiometria comportamental e com reforço visual

Até os 6 meses, o fonoaudiólogo apresenta sons e observa as reações naturais do bebê: um piscar, um susto, uma pausa na mamada. É a audiometria de observação comportamental.

Dos 6 meses até por volta dos 2 anos e meio, entra a audiometria com reforço visual. O som vem de um lado e, quando a criança vira a cabeça para lá, um brinquedo brilhante se acende ou se mexe. Depois de algumas repetições ela aprende a procurar o brinquedo sempre que ouve alguma coisa, e o fonoaudiólogo vai baixando o volume até achar o som mais fraco que provoca a virada.

Audiometria lúdica, ou condicionada

Dos 2 anos e meio até uns 6 anos, a audiometria vira brincadeira. A criança segura uma peça de encaixar, um cubo ou uma bolinha e aprende que, toda vez que ouvir o som, pode colocá-la no pote. É por isso que se chama lúdica ou condicionada: ela é ensinada a responder com um gesto de jogo. Com crianças que já aceitam o fone, o exame mede cada ouvido separado, em várias frequências.

Audiometria convencional

Quando a criança já entende a tarefa e consegue manter a atenção por mais tempo, geralmente a partir dos 5 a 7 anos, ela faz a audiometria como os adultos: levanta a mão ou aperta um botão quando ouve o apito, com fone e depois com um vibrador atrás da orelha, e repete palavras. O artigo sobre audiometria tonal e vocal explica cada etapa e como ler o resultado.

E a imitanciometria?

A imitanciometria é um exame rápido, feito com uma sonda de borracha na entrada do ouvido. Ela mostra como o tímpano se movimenta e ajuda a perceber líquido atrás dele, uma das causas mais comuns de audição abafada na infância. A diretriz americana de otite média com efusão recomenda a timpanometria, parte da imitanciometria, quando o exame do ouvido deixa dúvida sobre esse líquido. Ela não substitui a audiometria: uma mede como o som passa pelo ouvido médio, a outra mede quanto a criança ouve.

Na prática, o fonoaudiólogo costuma juntar mais de um exame e conferir se os resultados combinam. Um só raramente fecha o diagnóstico numa criança pequena.

Teste da orelhinha normal: a criança precisa fazer outro exame?

Às vezes, sim. Passar na triagem mostra que o bebê ouvia bem ao nascer, mas a perda pode aparecer depois, por otite, por infecção ou por uma causa genética que se manifesta mais tarde. O COMUSA recomenda que o bebê com fator de risco que passou na triagem tenha a audição acompanhada até os 3 anos, e que toda criança tenha a audição, a linguagem e a comunicação observadas ao longo do crescimento, mesmo sem risco nenhum.

A AAP vai na mesma linha: além da triagem neonatal, recomenda avaliar a audição com exame objetivo em fases importantes do desenvolvimento. Quem decide quando e qual exame fazer é o pediatra, junto com o otorrino e o fonoaudiólogo.

Como preparar a criança para a audiometria

O preparo depende do exame, e o serviço que vai fazer costuma mandar as orientações. Algumas dicas valem para quase todos:

  • Explique como brincadeira. Diga que ela vai ouvir uns sons engraçados com um fone e brincar de responder. Evite “não vai doer”, que planta a ideia de dor.
  • Escolha um horário bom. Para a audiometria com reforço visual ou lúdica, a criança precisa estar acordada, alimentada e sem sono. Para exames que pedem que ela fique quieta, como o BERA, siga exatamente a orientação do serviço.
  • Avise se ela está resfriada ou com o ouvido tampado. Nariz entupido e líquido no ouvido podem mudar o resultado, e às vezes é melhor remarcar.
  • Leve o pedido médico, os exames anteriores, incluindo o resultado do teste da orelhinha, e a caderneta da criança.
  • Não limpe o ouvido com cotonete antes. Se houver cera acumulada, quem avalia e remove é o otorrinolaringologista.
  • Fique por perto, mas em silêncio. Na sala, o acompanhante não deve dar pistas (“ouviu, filho?”) nem reagir aos sons, porque a criança responde olhando para os pais.

O resultado costuma sair num audiograma, o gráfico da audição. O artigo sobre graus de perda auditiva mostra como ler as faixas de normal a profunda.

Perguntas frequentes sobre audiometria infantil

Como é feito o exame de audiometria em criança?

Depende da idade. No bebê, o exame observa reações naturais ou usa aparelhos que registram a resposta do ouvido sem a criança precisar fazer nada. Dos 6 meses aos 2 anos e meio, ela vira a cabeça para um brinquedo que acende. Dos 2 anos e meio aos 6, põe uma peça num pote quando ouve o som. Depois, levanta a mão como o adulto.

Dá para fazer audiometria infantil com 2 anos?

Dá, com a técnica certa para a idade: a audiometria com reforço visual ou, se a criança já colabora, a lúdica. Não é a audiometria em que ela levanta a mão. Muitas vezes o fonoaudiólogo junta o resultado com a imitanciometria e as emissões otoacústicas para confirmar.

Exame BERA infantil: para que serve?

Para medir a resposta do nervo auditivo ao som sem depender da colaboração da criança. Serve para confirmar uma triagem alterada, para avaliar bebês com fator de risco e para crianças que não conseguem fazer a audiometria comportamental. Se o exame vai ser feito com sono natural ou com sedação, quem define e orienta é o médico e o serviço que realiza.

Até quando pode fazer o teste da orelhinha?

O ideal é na maternidade, antes da alta. O COMUSA orienta que bebês nascidos em casa, ou em maternidade que ainda não faz a triagem, sejam testados dentro do primeiro mês. Se o exame não foi feito, converse com o pediatra: o bebê ainda pode e deve ser avaliado, com o exame adequado para a idade.

A audiometria infantil dói?

Não. Nenhum desses exames é invasivo. No máximo, a criança estranha o fone, a sonda na entrada do ouvido ou os eletrodos colados na pele, e por isso a preparação em casa ajuda.

Audiometria lúdica e comportamental são a mesma coisa?

Não exatamente. As duas são comportamentais, porque dependem da resposta da criança. A audiometria com reforço visual usa a virada de cabeça para um brinquedo iluminado, até uns 2 anos e meio. A lúdica usa um gesto de brincadeira, como encaixar uma peça, a partir dessa idade.

Audiometria infantil em Copacabana

Na Hear Clean, clínica de fonoaudiologia em Copacabana, a audiometria é feita em crianças a partir de 7 anos, com tons pelo fone, vibrador atrás da orelha e palavras, na nossa sala acústica. A partir da mesma idade, fazemos também a imitanciometria e o exame do processamento auditivo central (PAC), para a criança que ouve bem no audiograma mas tem dificuldade para entender a fala no barulho da sala de aula. A clínica não faz teste da orelhinha, BERA, audiometria comportamental nem lúdica. Para bebês e crianças menores de 7 anos, o pediatra ou o otorrinolaringologista indica o serviço com os exames próprios para a idade.

Agende sua avaliação auditiva

Rua Santa Clara, 70, sala 1008, Copacabana, Rio de Janeiro. De segunda a sexta, das 9h às 18h.

Referências

  • Lewis DR et al. Comitê multiprofissional em saúde auditiva: COMUSA. Brazilian Journal of Otorhinolaryngology, 2010. PubMed
  • Brasil. Lei nº 12.303, de 2 de agosto de 2010. Dispõe sobre a obrigatoriedade de realização do exame denominado Emissões Otoacústicas Evocadas. Diário Oficial da União, 2010. Planalto
  • Harlor AD Jr, Bower C et al. Hearing assessment in infants and children: recommendations beyond neonatal screening. Pediatrics, 2009. PubMed
  • Xie W et al. Behavior recognition technology based on deep learning used in pediatric behavioral audiometry. Scientific Reports, 2025. PubMed
  • Rosenfeld RM et al. Clinical practice guideline: otitis media with effusion (update). Otolaryngology-Head and Neck Surgery, 2016. PubMed
  • Organização Mundial da Saúde. Deafness and hearing loss. OMS, 2026. OMS
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