Aparelho para surdos: quem pode usar e como escolher

Neste artigo (9 partes)

Quem procura um aparelho para surdos, para si ou para alguém da família, quase sempre quer saber duas coisas: se o aparelho vai funcionar naquele caso e por onde começar. A resposta depende do grau da perda auditiva. Na perda leve e na moderada, o aparelho costuma devolver boa parte da conversa. Na severa e na profunda, ele precisa ser de alta potência, e às vezes nem assim basta. Neste artigo você vai ver o que o aparelho faz em cada grau de perda, quando o otorrino avalia o implante coclear e quais são os passos para escolher com segurança, da audiometria às revisões.

Mulher de cerca de 70 anos, de cabelo grisalho, sorrindo enquanto conversa com a filha na sala de um apartamento claro

Surdez e perda auditiva: qual a diferença?

No dia a dia, “surdez” virou nome para qualquer dificuldade de ouvir. Na saúde e na lei, as palavras são usadas de um jeito mais preciso.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) descreve como pessoa com perda auditiva (hard of hearing, em inglês) quem tem perda de leve a severa. A palavra “surdo” ela usa para quem tem perda severa ou profunda nos dois ouvidos e ouve só sons muito altos, ou não ouve nada. Parte dessas pessoas se comunica por língua de sinais.

No Brasil, o Decreto 5.626, de 2005, olha além do exame. Ele define a pessoa surda como aquela que, por ter perda auditiva, compreende e interage com o mundo por experiências visuais e manifesta sua cultura principalmente pela Língua Brasileira de Sinais, a Libras, reconhecida por lei desde 2002 como meio legal de comunicação. O mesmo decreto chama de deficiência auditiva a perda nos dois ouvidos de 41 decibéis ou mais, medida pelo audiograma.

Há pessoas surdas que se comunicam em Libras e não usam aparelho, por escolha. Outras usam aparelho ou implante e também Libras. Este artigo é para quem tem perda auditiva, de qualquer grau, e quer ouvir melhor com a ajuda de um aparelho, e para o familiar que está ajudando nessa busca. Os tipos de perda (condutiva, neurossensorial e mista) estão explicados na página sobre perda auditiva.

Quantas pessoas poderiam usar aparelho auditivo?

400 milhões

de pessoas no mundo, ou mais, se beneficiariam de um aparelho auditivo (OMS, 2021)

83%

delas não usam aparelho (OMS, 2021)

Muito mais gente do que usa. O Relatório Mundial sobre a Audição, da OMS, estima que mais de 400 milhões de pessoas se beneficiariam de um aparelho auditivo, mas menos de 68 milhões usam um. Mesmo nos países ricos, quase três em cada quatro pessoas que precisariam de aparelho ficam sem ele.

Para a OMS, o aparelho auditivo é uma opção não invasiva, de baixo risco e eficaz, e é o recurso mais usado para tratar a perda auditiva. Quanto ele ajuda, porém, muda bastante de um grau de perda para outro.

O que o aparelho para surdez faz em cada grau de perda

O aparelho auditivo amplifica o som que chega ao ouvido, ajustado ao seu exame. Ele ajuda principalmente quem perdeu audição por lesão das células sensoriais do ouvido interno, as células ciliadas. Quanto maior a lesão, maior a perda e mais amplificação é preciso para compensar. Só que a amplificação tem limite: se o ouvido interno estiver lesado demais, nem sons muito fortes viram sinal para o nervo, e o aparelho deixa de funcionar.

O grau da perda vem da audiometria. A OMS usa a média de quatro frequências no ouvido que ouve melhor e divide assim:

Grau Média no ouvido melhor Em lugar silencioso, a pessoa Papel do aparelho
Leve 20 a menos de 35 dB Acompanha a conversa, mas pode ter dificuldade no barulho Ajuda mais no barulho e em grupo; a indicação depende de quanto a perda atrapalha
Moderada 35 a menos de 50 dB Pode ter dificuldade para ouvir a conversa É o tratamento principal
Moderadamente severa 50 a menos de 65 dB Tem dificuldade com a conversa, mas ouve a voz alta É o tratamento principal
Severa 65 a menos de 80 dB Não ouve a maior parte da conversa e pode ter dificuldade até com voz alta Aparelho de alta potência
Profunda 80 a menos de 95 dB Tem extrema dificuldade para ouvir mesmo a voz alta Aparelho de alta potência; se o benefício for pequeno, o otorrino avalia o implante coclear
Completa 95 dB ou mais Não ouve a fala nem a maioria dos sons do ambiente O aparelho pode trazer pouco ou nenhum benefício; o otorrino avalia o implante coclear

A própria OMS avisa que essas faixas foram feitas para adultos e que o grau, sozinho, não deve decidir quem recebe aparelho ou implante. O que você sente na conversa, principalmente no barulho, pesa tanto quanto o número do exame.

Perda leve

Na perda leve, a pessoa entende a conversa num lugar calmo, mas perde parte dela no restaurante, na reunião ou no almoço de família. É nesses momentos que o aparelho mais ajuda. Se vale usar já nesse grau depende de quanto a perda atrapalha a sua rotina, e a fonoaudióloga avalia isso junto com o exame.

Perda moderada e moderadamente severa

Aqui a conversa começa a escapar mesmo no silêncio. É o grupo em que o aparelho tem o papel mais claro. Uma revisão Cochrane (um tipo de estudo que reúne as melhores pesquisas sobre um tema) com 825 adultos com perda leve a moderada encontrou efeito grande do aparelho na capacidade de ouvir e na qualidade de vida ligada à audição. Os autores concluíram que o aparelho deve ser o primeiro tratamento para quem procura ajuda.

Perda severa

Na perda severa, a pessoa não ouve a maior parte da conversa. O aparelho continua sendo o caminho, e a OMS registra que, mesmo nesse grau, ele melhora a percepção dos sons e o dia a dia. A diferença é que ele precisa de potência. Os modelos pequenos, que ficam dentro do canal, não costumam ser indicados para perda severa a profunda, porque o tamanho limita a força e o volume. O retroauricular, que fica atrás da orelha, atende da perda leve à profunda.

Perda profunda e completa

Na perda profunda, até a voz alta chega com muita dificuldade. Na completa, a pessoa não ouve a fala nem a maioria dos sons do ambiente. Existem aparelhos feitos para perda severa a profunda, os chamados super e ultra potentes, e eles são a primeira tentativa. Quando o ouvido interno está lesado demais e o aparelho traz pouco ou nenhum benefício, o próximo passo é a avaliação do implante coclear com o otorrino.

Aparelho auditivo para surdez severa e profunda: o que muda

Quanto mais forte a amplificação, maior o risco de o som vazar do ouvido, voltar ao microfone e virar apito (a microfonia, ou feedback). Por isso, nas perdas severas e profundas, o aparelho costuma ir com um molde fechado, feito sob medida. Na adaptação aberta, com a ponteira cheia de furinhos, o aparelho consegue dar menos volume antes de começar a apitar.

O Oticon Xceed é a linha de aparelhos super e ultra potentes da Oticon, em dois modelos retroauriculares. O Xceed BTE Ultra Power é o mais forte deles, feito para perda severa a profunda. A linha trata o apito de um jeito novo e chega a evitar que ele aconteça, o que reduz muito a microfonia ao longo do dia. O Xceed analisa o ambiente 100 vezes por segundo. O modelo Ultra Power tem Bluetooth e telecoil, a pequena bobina que capta o som dos sistemas de indução de teatros e cinemas. O EduMic, um acessório que funciona como microfone remoto, ajuda quando a distância e o barulho dificultam ouvir quem está falando.

Na Argosy, a linha Vista tem o Vista V-UP, um retroauricular de potência ultra com pilha 675 e conexão direta. Os outros formatos, dos que ficam atrás da orelha aos invisíveis, estão comparados no artigo sobre os tipos de aparelho auditivo.

Quando o aparelho não basta: implante coclear

O implante coclear não é um aparelho mais forte. O aparelho amplifica o som para que um ouvido lesado consiga percebê-lo. O implante passa por cima das partes lesadas do ouvido e estimula direto o nervo da audição. Ele tem uma parte externa, com microfone e processador, e uma parte interna, colocada por cirurgia, com eletrodos dentro da cóclea.

Um consenso de 30 especialistas de vários países, publicado em 2020, descreve o implante como opção para adultos com perda neurossensorial severa ou profunda nos dois ouvidos, ou com perda que vai de moderada a profunda conforme a frequência, que têm pouco ou nenhum benefício com o aparelho. A OMS registra que, nesses adultos, o implante melhora a compreensão da fala e a qualidade de vida.

Ouvir com implante é diferente de ouvir naturalmente e leva tempo, com treino e acompanhamento de fonoaudiólogo. Quem avalia a indicação e faz a cirurgia é o otorrinolaringologista. A Hear Clean não faz implante coclear: quando o aparelho não traz o benefício esperado, encaminhamos você ao otorrino para essa avaliação.

Fluxograma: primeiro vêm a audiometria e a conversa com a fonoaudióloga. Se houver causa médica, o otorrino trata a causa. Se não houver, a pessoa testa o aparelho, de alta potência na perda severa e profunda. Se ouvir bem a fala com ele, segue para a adaptação e as revisões. Se o benefício for pouco, o otorrino avalia o implante coclear.
O caminho da escolha. O otorrino entra em dois momentos: quando a perda tem uma causa que ele pode tratar e quando o aparelho traz pouco benefício e é preciso avaliar o implante coclear.

Como escolher o aparelho para surdez, passo a passo

A escolha começa pelo exame. Estes são os passos, na ordem em que costumam acontecer:

  1. Audiometria. O exame mostra o tipo e o grau da perda em cada frequência, e o teste com palavras mostra quanto você entende a fala. A OMS considera a audiometria tonal o padrão ouro para medir a audição. Veja como é feito o exame no artigo sobre audiometria tonal e vocal.
  2. Otorrino, quando há causa médica. A perda condutiva, causada por cera, otite ou líquido atrás do tímpano, muitas vezes tem tratamento médico. Perda de audição que aparece de repente pede atendimento do otorrino com urgência, porque o tratamento rápido pode ajudar a recuperar a audição.
  3. Avaliação com a fonoaudióloga. Além do exame, entram na conversa as situações em que você mais sente falta de ouvir, além de trabalho, telefone, TV, firmeza das mãos e visão. A OMS recomenda olhar a pessoa por inteiro, e não só o audiograma.
  4. Teste. Experimentar modelos de demonstração ajuda a sentir o som e o encaixe antes de decidir. Nas perdas severas e profundas, é no teste que se vê se o aparelho de alta potência traz o benefício esperado.
  5. Adaptação. O aparelho pede tempo e paciência. Usar o aparelho com regularidade ajuda a se acostumar com ele, e a fonoaudióloga ajusta a programação conforme você conta como está ouvindo.
  6. Revisões. As revisões periódicas, com novo exame, mantêm o aparelho ajustado à sua perda e ao seu dia a dia.

O valor muda com a tecnologia, o formato e os serviços incluídos. O que pesa nessa conta está no artigo sobre o preço do aparelho auditivo.

O que você pode fazer hoje

  • Anote as situações em que mais sente dificuldade: telefone, TV, conversa em grupo, voz de criança. A lista ajuda muito na consulta.
  • Separe exames de audição antigos, se tiver. Comparar com o exame novo mostra se a perda mudou.
  • Leve alguém da família à consulta. Quem convive com você percebe situações que você nem nota.
  • Se a audição caiu de repente, em um ouvido ou nos dois, procure o otorrino no mesmo dia.
  • Se a perda for grande e o aparelho já não ajuda, pergunte ao otorrino sobre o implante coclear.

Perguntas frequentes sobre aparelho para surdos

Qualquer surdo pode usar aparelho auditivo?

Não. O aparelho depende de haver audição para amplificar. Quando o ouvido interno está lesado demais, ele deixa de funcionar, e o otorrino pode avaliar o implante coclear. E muitas pessoas surdas preferem se comunicar em Libras, sem aparelho.

Quem tem surdez profunda pode usar aparelho auditivo?

Pode tentar. Existem aparelhos super e ultra potentes feitos para perda severa a profunda, como o Oticon Xceed. Se o benefício for pequeno depois do teste e da adaptação, o próximo passo é a avaliação do implante coclear com o otorrino.

Quem usa aparelho auditivo é considerado surdo?

Não necessariamente. A OMS descreve a perda de leve a severa como perda auditiva e usa “surdo” para a perda severa ou profunda nos dois ouvidos. Já o decreto que regulamenta a Libras chama de pessoa surda quem se relaciona com o mundo principalmente por experiências visuais e pela Libras, o que não depende de usar ou não aparelho.

Qual o melhor aparelho auditivo para surdez severa?

Não existe um modelo que sirva para todos. Na perda severa, em geral, a escolha é um retroauricular de alta potência com molde feito sob medida. O melhor é o que você testou e com o qual entendeu mais a fala, ajustado pela fonoaudióloga ao seu exame.

O aparelho auditivo cura a surdez?

Não. O aparelho não recupera a audição perdida. Ele amplifica o som para que o ouvido consiga percebê-lo enquanto você usa. Por isso o acompanhamento continua depois da compra.

Aparelho para surdez em Copacabana

Na Hear Clean, tudo começa pela avaliação auditiva gratuita: conversa com a fonoaudióloga e audiometria completa na nossa sala acústica, sem pedido médico e sem compromisso de compra. Se houver perda e você decidir começar o tratamento, a imitanciometria completa o laudo e já está incluída. Trabalhamos com aparelhos auditivos Oticon, Argosy, Starkey e Philips, inclusive modelos de alta potência para perdas severas e profundas. Na consulta, você experimenta modelos de demonstração e, quando o caso permite, testa o aparelho em casa sem custo antes de decidir. Quem opta pelo tratamento recebe o aparelho com os exames, a adaptação e as revisões incluídos. Quando o aparelho não é suficiente, encaminhamos ao otorrino para avaliar o implante coclear.

Agende sua avaliação auditiva

Rua Santa Clara, 70, sala 1008, Copacabana, Rio de Janeiro. De segunda a sexta, das 9h às 18h.

Referências

  • World Health Organization. World report on hearing, 2021. OMS
  • National Institute on Deafness and Other Communication Disorders (NIDCD). Hearing aids, 2022. NIDCD
  • National Institute on Deafness and Other Communication Disorders (NIDCD). Cochlear implants, 2024. NIDCD
  • Ferguson MA et al. Hearing aids for mild to moderate hearing loss in adults. Cochrane Database of Systematic Reviews, 2017. PubMed
  • Buchman CA et al. Unilateral cochlear implants for severe, profound, or moderate sloping to profound bilateral sensorineural hearing loss: a systematic review and consensus statements. JAMA Otolaryngology-Head & Neck Surgery, 2020. PubMed
  • Brasil. Decreto nº 5.626, de 22 de dezembro de 2005. Regulamenta a Lei nº 10.436, que dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais (Libras). Planalto
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