Perda auditiva induzida por ruído (PAIR): causas, sinais e prevenção

Neste artigo (11 partes)

A perda auditiva induzida por ruído, conhecida pela sigla PAIR, é a perda de audição causada por barulho alto repetido ao longo dos anos ou por um estouro muito forte de uma vez só. Ela começa sem dor e sem aviso claro: um apito no ouvido depois do show, a sensação de ouvido abafado no fim do expediente, a dificuldade de entender conversa em restaurante cheio. Neste artigo você vai entender como o ruído lesa o ouvido, quais são os limites de exposição no trabalho e no lazer, como a PAIR aparece no audiograma, o que tem e o que não tem tratamento e como se proteger.

Mulher de cabelo castanho na altura dos ombros, com um protetor auricular discreto na orelha, sorri no meio do público de um show ao ar livre ao entardecer

O que é perda auditiva induzida por ruído (PAIR)

PAIR é uma perda auditiva do tipo neurossensorial, ou seja, a lesão fica no ouvido interno, e não no canal ou no tímpano. É a segunda causa mais comum desse tipo de perda, atrás apenas da perda que vem com a idade, e atinge cerca de 5% da população mundial, segundo uma revisão da Universidade Stanford publicada em 2023. Se quiser entender melhor essa família de perdas, veja o artigo sobre perda auditiva neurossensorial.

Existem dois jeitos de o barulho machucar o ouvido. O mais comum é a exposição longa e repetida: anos de fábrica, de obra, de trânsito pesado ou de fone alto. O outro é o trauma acústico, quando um único som muito forte, como um tiro ou uma explosão, causa a lesão na hora. O ruído de impacto, que chega de repente, faz mais estrago que o ruído contínuo do mesmo nível.

Quando procurar atendimento rápido

Procure um otorrinolaringologista com urgência, de preferência no mesmo dia, se:

  • a audição de um ou dos dois ouvidos caiu de repente depois de um estouro, tiro ou explosão e não voltou em poucas horas;
  • surgiram tontura ou desequilíbrio junto com a perda de audição;
  • o zumbido apareceu em um lado só, ou pulsa junto com o coração.

A perda de audição repentina é tratada como urgência porque o tempo até o atendimento pode influenciar a recuperação. Quem avalia e decide o tratamento nesses casos é o médico.

Como o barulho lesa o ouvido

Dentro da cóclea, a parte do ouvido interno com formato de caracol, ficam as células ciliadas. Elas têm pequenos feixes de “cílios” que se movem com a vibração do som e transformam esse movimento em sinal elétrico para o nervo auditivo. Som forte demais sacode esses feixes além do limite.

Depois de uma exposição forte, como uma noite de show, é comum sair com o ouvido abafado ou apitando. É a chamada mudança temporária do limiar, e a audição costuma voltar em 24 a 48 horas. Se a agressão se repete, as células ciliadas começam a se perder, principalmente as externas, na base da cóclea. A perda passa a ser permanente, porque nos mamíferos essas células não se regeneram.

Há um detalhe que mudou a forma como os pesquisadores enxergam o ruído. Em 2009, um estudo em camundongos de Harvard mostrou que uma exposição que baixou a audição só por alguns dias, com recuperação completa no exame, já tinha destruído parte das ligações entre as células ciliadas e o nervo. Esse dano não aparece na audiometria comum e foi apelidado de “perda auditiva oculta”. Nos humanos, a confirmação ainda está em estudo, mas o recado prático é simples: ouvido que “voltou ao normal” não quer dizer ouvido intacto.

Quanto barulho faz mal? Os limites de exposição

O risco depende de dois fatores juntos: o volume, medido em decibéis (dB), e o tempo. Quanto mais alto o som, menos tempo o ouvido aguenta sem se lesar.

85 dB

por até 8 horas por dia é o limite da NR-15 no Brasil e o limite recomendado pelo NIOSH nos Estados Unidos

80 dB

por até 40 horas por semana é o nível que a OMS considera seguro para ouvir música e sons de lazer

No trabalho: NR-15, Anexo 1

No Brasil, a Norma Regulamentadora 15, do Ministério do Trabalho, fixa os limites de tolerância para ruído contínuo no Anexo 1. O ponto de partida é 85 dB(A) por 8 horas de jornada. A cada 5 dB a mais, o tempo permitido cai pela metade: 90 dB(A) por 4 horas, 95 dB(A) por 2 horas, 100 dB(A) por 1 hora. Acima de 115 dB(A), a norma não permite exposição sem proteção adequada.

A referência mais rigorosa: NIOSH

O NIOSH, instituto de saúde ocupacional do governo americano, também recomenda 85 dB(A) por 8 horas, mas corta o tempo pela metade a cada 3 dB. Por essa conta, 88 dB(A) já só podem ser tolerados por 4 horas, 94 dB(A) por 1 hora e 100 dB(A) por 15 minutos. A diferença entre a regra dos 3 dB e a dos 5 dB é debatida entre os pesquisadores, mas o NIOSH descreve os próprios limites como os de segurança clínica.

No lazer e no fone de ouvido: OMS

Para música, shows, academia e fone de ouvido, a Organização Mundial da Saúde usa uma conta semanal. A 80 dB, dá para ouvir com segurança por até 40 horas por semana. A 90 dB, o tempo seguro cai para 4 horas por semana. A 100 dB, nível de um secador de cabelo na tabela da OMS, são 20 minutos por semana. A OMS estima que mais de 1 bilhão de jovens adultos correm risco de perda auditiva permanente por hábitos de escuta inseguros.

Causas: de onde vem o ruído que machuca

Trabalho barulhento

Uma revisão sistemática norueguesa de 187 estudos estimou que o ruído no trabalho responde por 7% a 21% da perda auditiva entre trabalhadores. Os grupos de maior risco são militares, construção civil, agricultura e outras ocupações com muito barulho. A revisão de Stanford acrescenta indústria, mineração, transporte e músicos.

Fone de ouvido alto por muitas horas

O fone leva o som direto ao canal do ouvido, e em lugares barulhentos, como metrô e ônibus, a tendência é subir o volume para abafar o ambiente. Poucas horas por dia em volume alto já passam do limite semanal da OMS.

Shows, festas e casas noturnas

Ficar perto das caixas de som por horas é a situação clássica do ouvido que sai apitando. A OMS inclui na mesma lista as boates e os jogos e eventos com som muito alto.

Tiros e estouros

Arma de fogo, fogos de artifício e explosões produzem ruído de impacto. Um único disparo sem proteção pode causar trauma acústico. A revisão norueguesa aponta as armas de fogo como fonte de lazer claramente prejudicial à audição.

Sintomas de perda auditiva induzida por ruído

A PAIR avança devagar e costuma passar despercebida por anos. Os sinais mais comuns são:

  • Zumbido depois de exposição ao barulho, que no começo passa em horas e com o tempo pode ficar permanente. Zumbido que não vai embora pode indicar que a audição já foi lesada. Veja mais sobre o sintoma em zumbido no ouvido.
  • Dificuldade com sons agudos, como canto de passarinho, campainha, telefone e despertador.
  • Dificuldade de entender a fala, principalmente ao telefone e em ambientes com barulho de fundo, como restaurantes e reuniões de família.
  • Sensação de ouvido abafado no fim do dia de trabalho ou depois de um evento.

Como é feito o diagnóstico: o entalhe em 4.000 Hz

O exame que mostra a PAIR é a audiometria. Nela, a pessoa ouve apitos em várias frequências, do grave ao agudo, e o resultado é desenhado num gráfico chamado audiograma. As frequências são medidas em hertz (Hz); 4.000 Hz, ou 4 kHz, é um som bem agudo.

A marca registrada da PAIR é uma queda em forma de “V” em torno de 4.000 Hz, que os audiologistas chamam de entalhe. A perda costuma se espalhar para 3.000 e 6.000 Hz e melhora um pouco em 8.000 Hz. Essa região é a mais atingida em parte por causa da ressonância natural do canal do ouvido, que reforça os sons dessa faixa. Com mais anos de exposição, o entalhe fica mais fundo e mais largo e alcança frequências mais graves, como 2.000 e 1.000 Hz.

Audiograma ilustrativo de perda auditiva induzida por ruído: a linha fica na faixa normal de 250 a 2.000 Hz, cai até 55 dB em 4.000 Hz e volta a subir em 8.000 Hz, formando um entalhe em V
Exemplo ilustrativo do entalhe da PAIR: a audição cai em 3.000, 4.000 e 6.000 Hz e volta a melhorar em 8.000 Hz. No audiograma, quanto mais baixo o ponto, pior a audição naquela frequência.

Nem sempre o desenho é tão claro. A perda da idade também começa pelos agudos, e com os anos o entalhe pode “sumir” dentro dela. Por isso o diagnóstico junta o audiograma com a história de exposição ao ruído. Para entender o que significam leve, moderada e severa no laudo, veja os graus de perda auditiva.

PAIR tem tratamento? O que dá e o que não dá para recuperar

A perda que ficou permanente não volta. As células ciliadas que morreram não se refazem, e até hoje não há remédio aprovado que recupere a audição perdida por ruído; as pesquisas com medicamentos ainda têm nível baixo de evidência. Desconfie de produto que promete “regenerar” o ouvido.

O que tem tratamento é o impacto da perda na vida:

  • Aparelho auditivo: é o tratamento principal quando a perda atrapalha a conversa. Ele devolve os sons agudos que faltam e ajuda muito a entender a fala, principalmente em ambiente calmo.
  • Implante coclear: reservado às perdas que avançam para graus severos ou profundos, com indicação médica.
  • Controle do zumbido: quando o zumbido vem junto com a perda, o aparelho auditivo ajustado também para o zumbido pode ajudar.
  • Proteção daqui para frente: é o que impede a perda de piorar. Quem tem PAIR e continua exposto sem proteção tende a perder mais.

Na perda repentina depois de um trauma acústico, o otorrinolaringologista pode indicar tratamento médico nos primeiros dias. Essa decisão é dele, e por isso a consulta rápida importa.

Como prevenir a perda auditiva induzida por ruído

A PAIR é uma das poucas perdas auditivas que dá para evitar quase por completo. Estas medidas têm respaldo da OMS e da literatura médica:

  • Volume do fone abaixo de 60% do máximo. É a recomendação da OMS. Muita gente conhece como “regra do 60/60”: até 60% do volume, por no máximo 60 minutos seguidos, e depois uma pausa.
  • Fone que isola o ambiente. Fones bem ajustados ou com cancelamento de ruído reduzem a vontade de aumentar o volume no metrô ou na rua.
  • Pausas de silêncio. Em shows, festas e lugares barulhentos, a OMS orienta descansar os ouvidos num lugar calmo por 10 minutos a cada hora.
  • Distância das caixas de som. O som perde força conforme você se afasta da fonte.
  • Protetor auricular em show, obra, oficina, estande de tiro e em qualquer trabalho barulhento, colocado do jeito certo. O artigo protetor auricular plug ou concha compara os modelos e explica como ler o CA e o NRR.
  • Aplicativo de medição. O celular e os relógios inteligentes mostram o nível de som do fone e do ambiente. Acima de 80 dB, reduza o tempo.
  • Audiometria de controle. Quem convive com ruído deve checar a audição com regularidade. Para quem trabalha em lugar barulhento, a OMS orienta checar a audição todo ano.

Para quem precisa de proteção por muitas horas, como músicos, motociclistas e profissionais em ambiente barulhento, o protetor auricular sob medida é uma opção. Ele é feito a partir do molde da orelha e costuma ser mais confortável para usar por horas seguidas. Proteger não depende do modelo mais caro: um protetor bem colocado e usado o tempo todo vale mais que um excelente esquecido no bolso.

Perguntas frequentes sobre perda auditiva induzida por ruído

PAIR tem cura?

A parte permanente da perda não tem cura, porque as células ciliadas do ouvido interno não se regeneram. O zumbido e o ouvido abafado logo depois de um barulho forte costumam passar em até dois dias. A perda permanente é tratada com aparelho auditivo e controlada com proteção para não avançar.

Fone de ouvido causa perda auditiva?

Pode causar, quando usado em volume alto por muito tempo. O risco está na soma de volume e horas. A OMS considera seguro ouvir até 80 dB por 40 horas por semana e recomenda manter o volume abaixo de 60% do máximo do aparelho.

Zumbido depois de show é normal?

É comum, e costuma passar em horas ou em um ou dois dias. Mas é um sinal de que o ouvido foi agredido. Se repete sempre, ou se o zumbido não passa, faça uma audiometria. Da próxima vez, use protetor e fique longe das caixas de som.

Por que a perda auditiva induzida por ruído aparece em 4.000 Hz?

Em boa parte, pela ressonância do canal do ouvido, que reforça os sons nessa faixa, e pelas características mecânicas do ouvido médio. Por isso o audiograma de quem tem PAIR costuma mostrar uma queda em “V” em torno de 4.000 Hz.

A perda auditiva induzida por ruído é igual nos dois ouvidos?

Na maioria das vezes, sim, porque os dois ouvidos recebem o mesmo barulho. Mas há casos de perda diferente entre os lados, como no tiro, em que um ouvido fica mais perto da arma. Perda em um lado só sempre merece avaliação médica para descartar outras causas.

Audição e proteção contra ruído em Copacabana

A Hear Clean não faz audiometria ocupacional (admissional, periódica ou demissional de empresas). Para quem quer saber como está a própria audição depois de anos de barulho, fazemos a audiometria na sala acústica da clínica, a partir de 7 anos: dentro da avaliação auditiva gratuita, ou como exame avulso com laudo, com valor informado pelo telefone ou WhatsApp. Se o exame mostrar perda, a fonoaudióloga explica o resultado e, quando há indicação, apresenta o tratamento com aparelho auditivo. Para quem quer se proteger, fazemos o protetor auricular de silicone sob medida, a partir do molde da sua orelha, pronto em cerca de uma semana.

Agende sua avaliação auditiva

Rua Santa Clara, 70, sala 1008, Copacabana, Rio de Janeiro. De segunda a sexta, das 9h às 18h.

Referências

  • Le TN, Straatman LV, Lea J, Westerberg B. Current insights in noise-induced hearing loss: a literature review of the underlying mechanism, pathophysiology, asymmetry, and management options. Journal of Otolaryngology, Head & Neck Surgery, 2017. PubMed
  • Natarajan N, Batts S, Stankovic KM. Noise-Induced Hearing Loss. Journal of Clinical Medicine, 2023. PubMed
  • Kujawa SG, Liberman MC. Adding insult to injury: cochlear nerve degeneration after “temporary” noise-induced hearing loss. Journal of Neuroscience, 2009. PubMed
  • Lie A et al. Occupational noise exposure and hearing: a systematic review. International Archives of Occupational and Environmental Health, 2016. PubMed
  • Organização Mundial da Saúde. Deafness and hearing loss: safe listening (perguntas e respostas). OMS
  • Ministério do Trabalho e Emprego. NR-15, Anexo 1: limites de tolerância para ruído contínuo ou intermitente. gov.br
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