Tontura ao deitar e levantar: o que é a VPPB
Neste artigo (13 partes)
- O que é a VPPB, a tontura dos cristais
- Quando procurar atendimento rápido
- VPPB é comum?
- Sintomas: como é a tontura da VPPB
- Por que acontece: os cristais fora do lugar
- VPPB ou labirintite?
- Como o médico confirma a VPPB
- Tratamento: a manobra de reposicionamento
- VPPB tem cura? E pode voltar?
- O que fazer hoje se a tontura aparece ao deitar e levantar
- VPPB CID: qual é o código
- Perguntas frequentes sobre VPPB
- Tontura e audição em Copacabana
A tontura ao deitar e levantar costuma aparecer assim: você vira a cabeça no travesseiro, ou se senta na cama de manhã, e o quarto gira por alguns segundos. Depois passa, mas volta no próximo movimento. Na maioria das vezes o nome disso é VPPB, a vertigem posicional paroxística benigna, conhecida como o problema dos “cristais do ouvido”. Aqui você vai entender o que acontece dentro do ouvido, por que uma manobra feita pelo médico costuma resolver, se a VPPB volta e quais sinais mostram que a tontura não é VPPB e precisa de atendimento rápido.
O que é a VPPB, a tontura dos cristais
VPPB é a sigla de vertigem posicional paroxística benigna. Cada palavra descreve uma parte do problema:
- Vertigem: a sensação de que tudo gira, ou de que você está girando.
- Posicional: ela aparece quando a cabeça muda de posição, como ao deitar, virar na cama ou olhar para cima.
- Paroxística: vem em crises curtas e fortes, que começam de repente.
- Benigna: não ameaça a vida. Isso não quer dizer que seja inofensiva, porque a crise derruba o equilíbrio de qualquer um.
A diretriz da Academia Americana de Otorrinolaringologia (AAO-HNS) define a VPPB como um problema do ouvido interno com crises repetidas de vertigem provocadas pela posição. É ali, no labirinto, que ficam os sensores do equilíbrio. Se quiser rever onde fica cada parte, o artigo sobre as partes da orelha mostra o caminho completo.
Quando procurar atendimento rápido
A VPPB tem um padrão bem marcado: crise curta, sempre ligada ao movimento da cabeça, sem outros sintomas. Quando o quadro foge desse padrão, a tontura pode vir de outro lugar, inclusive do cérebro. A revisão Cochrane lembra que a vertigem de posição também pode ter origem central, em doenças como a esclerose múltipla ou problemas de circulação no tronco cerebral.
O Ministério da Saúde lista os sinais de alerta de AVC. Se a tontura vier com qualquer um deles, ligue para o SAMU (192) ou vá direto ao pronto-socorro:
- fraqueza ou formigamento em um lado do corpo (rosto, braço ou perna);
- fala enrolada ou dificuldade para entender o que dizem;
- alteração na visão, em um ou nos dois olhos;
- dor de cabeça súbita e muito forte, sem causa aparente;
- dificuldade para andar, falta de coordenação ou confusão mental.
Procure o otorrinolaringologista logo, sem esperar semanas, se:
- a tontura dura horas ou não passa com a cabeça parada;
- veio junto com perda de audição, zumbido ou sensação de ouvido tampado. O NIDCD descreve essa combinação na doença de Ménière, e ela não é típica de VPPB;
- a tontura começou depois de uma pancada na cabeça;
- você já caiu ou quase caiu numa crise.
VPPB é comum?
2,4%
dos adultos têm VPPB em algum momento da vida (von Brevern, 2007)
85%
sentem a crise ao virar na cama, o movimento que mais provoca a tontura (von Brevern, 2007)
Sim. Um estudo feito com a população adulta da Alemanha encontrou VPPB em 2,4% das pessoas ao longo da vida: 3,2% das mulheres e 1,6% dos homens. Ela fica mais frequente com a idade. Entre quem tinha mais de 60 anos, a VPPB no último ano foi quase sete vezes mais comum do que entre adultos de 18 a 39 anos. A idade média em que a primeira crise apareceu foi de 49 anos.
O mesmo estudo mostra como ela atrapalha a rotina: 86% das pessoas com VPPB procuraram médico, interromperam as atividades ou faltaram ao trabalho por causa dela. E só 8% receberam o tratamento que de fato funciona, a manobra de reposicionamento.
Sintomas: como é a tontura da VPPB
A crise é curta. Dura de alguns segundos a um minuto, e começa logo depois do movimento da cabeça. A revisão Cochrane sobre o tema descreve que o enjoo pode durar bem mais que o giro, às vezes algumas horas. No estudo alemão, 86% descreveram a tontura como giratória, um terço teve enjoo, e quase metade (49%) chegou a acordar por causa da crise.
Os movimentos que mais disparam a tontura, segundo o mesmo estudo:
- virar de lado na cama (85%);
- deitar (74%);
- levantar da posição deitada (58%);
- abaixar o corpo para a frente, como para amarrar o sapato (55%);
- inclinar a cabeça para trás, como para olhar uma prateleira alta (41%).
Entre uma crise e outra, muita gente fica com uma sensação de desequilíbrio. Metade dos participantes notou isso, e um terço passou a ter medo de cair.
Tontura ao virar a cabeça no travesseiro
É o sinal mais típico. Todos os participantes do estudo alemão tinham crises na cama, e os autores consideram a pergunta “a tontura aparece quando você está deitado?” uma boa pista para o diagnóstico. Muitas vezes a crise vem só quando a pessoa vira para um lado, o lado do ouvido afetado.
Tontura ao acordar, com tudo girando
De manhã a cabeça faz justamente os movimentos que a VPPB não tolera: virar na cama, sentar, abaixar para pegar o chinelo. Por isso tanta gente descreve a crise como “acordei e tudo girou”. Se a tontura passa em menos de um minuto quando você fica parado, e volta ao mexer a cabeça, o quadro combina com VPPB. Se ela continua forte mesmo com a cabeça parada, é outra história: veja a seção de alerta mais abaixo.
Por que acontece: os cristais fora do lugar
Dentro do ouvido interno existem pequenos cristais chamados otocônias. Eles ficam presos em sensores que percebem a gravidade e a inclinação da cabeça. O Instituto Nacional de Surdez dos Estados Unidos (NIDCD) explica que a VPPB acontece quando otocônias soltas caem para dentro de um dos canais semicirculares, os três tubos curvos que percebem a rotação da cabeça.
Esses canais são cheios de líquido. Quando a cabeça vira, o líquido se move e dobra um sensor que avisa o cérebro do giro. Com cristais soltos lá dentro, a revisão Cochrane descreve que eles agem como um êmbolo: continuam caindo depois que a cabeça já parou e empurram o líquido. O sensor manda a mensagem de que a cabeça ainda está girando, os olhos não concordam, e o resultado é a vertigem. Quando os cristais assentam, a crise acaba. Por isso ela dura segundos.

O canal mais atingido é o posterior. Quando os cristais estão no canal lateral, a tontura aparece mais ao virar de um lado para o outro na cama.
O que solta os cristais
Na maior parte das vezes não há um motivo identificável. O NIDCD cita a pancada na cabeça e o próprio envelhecimento. No estudo alemão, a idade, a enxaqueca, a pressão alta, o colesterol alto e o AVC prévio apareceram ligados à VPPB, e cerca de 10% dos casos vieram depois de uma pancada na cabeça, de uma inflamação do nervo do equilíbrio ou de uma intubação em cirurgia.
VPPB ou labirintite?
São problemas diferentes, embora os dois envolvam o labirinto. O NIDCD define a labirintite como uma infecção ou inflamação do ouvido interno, muitas vezes depois de uma gripe, que causa tontura e perda do equilíbrio. A VPPB é mecânica: são cristais fora do lugar, e a tontura depende da posição da cabeça. Na labirintite, a tontura não precisa de movimento para aparecer. O artigo sobre labirintite explica esse quadro e as outras causas de tontura que vêm do ouvido.
Como o médico confirma a VPPB
O diagnóstico é feito no consultório, pela conversa e por um teste de posição. Quem faz é o otorrinolaringologista, e o neurologista também atende esses casos.
O teste mais usado se chama manobra de Dix-Hallpike. A diretriz da AAO-HNS descreve o teste assim: o médico leva a pessoa da posição sentada para deitada, com a cabeça virada para um lado e levemente inclinada para trás, e observa os olhos. Na VPPB do canal posterior, a posição provoca a tontura e um movimento rápido e involuntário dos olhos, chamado nistagmo. A revisão Cochrane explica que esse movimento começa depois de alguns segundos e some em 30 a 40 segundos. Se o teste não mostra o padrão esperado, a diretriz recomenda outro, feito deitado e virando a cabeça de um lado para o outro, que procura os cristais no canal lateral.
Quando a história e o teste fecham o diagnóstico, a diretriz recomenda não pedir exames de imagem nem exames do equilíbrio de rotina. Eles ficam para quem tem sinais que não combinam com VPPB. A mesma diretriz pede que o médico diferencie a VPPB das outras causas de tontura e avalie o risco de queda.
Tratamento: a manobra de reposicionamento
O tratamento da VPPB é uma manobra, não um remédio. O médico, ou o fisioterapeuta que ele indicar, move a cabeça e o corpo da pessoa numa sequência de posições. A ideia é fazer os cristais saírem do canal e voltarem para uma região do ouvido onde não causam tontura. A manobra mais conhecida tem o nome do médico que a descreveu, Epley.
Funciona. A revisão Cochrane reuniu 11 estudos com 745 pacientes. Nos estudos que compararam a manobra com uma manobra falsa ou com nenhum tratamento, a tontura sumiu por completo em 56% de quem fez a manobra de verdade, contra 21% dos outros. Não houve efeitos graves. O mais comum foi enjoo durante a manobra, em 16,7% a 32% dos pacientes, conforme o estudo, e algumas pessoas com problema na coluna do pescoço não toleraram os movimentos.
A diretriz da AAO-HNS faz três recomendações que valem conhecer:
- tratar com a manobra de reposicionamento, ou encaminhar a quem saiba fazer;
- não impor restrições de posição depois da manobra, como dormir sentado;
- não tratar a VPPB de rotina com remédios que só abafam a tontura.
A diretriz também aceita acompanhar sem tratar no começo, já que muitas crises passam sozinhas, desde que o médico reavalie a pessoa em até um mês.
Por que não fazer a manobra sozinho em casa
Porque a manobra certa depende do canal em que os cristais estão e do lado afetado, e isso só aparece no teste de posição. Uma sequência feita para o canal ou o lado errado não resolve. Além disso, a tontura de outra origem pode ser confundida com VPPB, e quem tem problema na coluna do pescoço pode não tolerar os movimentos. Os exercícios genéricos também ficam atrás: num dos estudos da revisão Cochrane, uma única manobra de Epley funcionou melhor do que uma semana de exercícios feitos em casa três vezes por dia. Se o médico indicar exercícios no seu caso, siga a orientação dele.
VPPB tem cura? E pode voltar?
A crise tem cura, sim. No estudo alemão, cada episódio de VPPB durou em média duas semanas, mesmo sem tratamento, e a revisão Cochrane registra que muitos casos passam sozinhos em semanas ou meses. A manobra encurta esse caminho.
O problema é que ela costuma voltar. A revisão Cochrane encontrou nova crise em 36% dos pacientes depois do tratamento, e no estudo alemão 56% das pessoas tiveram mais de um episódio. Por isso a diretriz pede que o médico explique a chance de volta e combine o acompanhamento. Se a tontura de posição voltar, procure o médico de novo para uma nova avaliação.
O que fazer hoje se a tontura aparece ao deitar e levantar
- Sente na beira da cama e espere a tontura passar antes de ficar de pé.
- Acenda a luz à noite e tire tapetes soltos do caminho até o banheiro.
- Evite subir em escada ou banquinho enquanto as crises continuarem.
- Pergunte ao médico se pode dirigir. No estudo alemão, 24% das pessoas pararam de dirigir durante as crises.
- Anote quando a tontura vem, quanto tempo dura e para qual lado você estava virando. Isso ajuda muito na consulta.
- Não tome remédio para tontura por conta própria e não siga vídeos de manobra antes do diagnóstico.
VPPB CID: qual é o código
Na CID-10, a classificação usada em atestados e pedidos de exame no Brasil, a VPPB aparece com o código H81.1, vertigem paroxística benigna, dentro do grupo H81, transtornos da função vestibular. Quem coloca o código no atestado ou no laudo é o médico que fez o diagnóstico.
Perguntas frequentes sobre VPPB
VPPB tem cura?
Tem. A crise costuma passar em semanas, mesmo sozinha, e a manobra de reposicionamento resolve a tontura em boa parte das pessoas. Ela pode voltar com o tempo, e aí vale procurar o médico de novo.
VPPB é o mesmo que labirintite?
Não. A VPPB vem de cristais soltos dentro do canal do equilíbrio, e a tontura depende da posição da cabeça. A labirintite é uma inflamação do ouvido interno, e a tontura aparece mesmo com a cabeça parada. As duas pedem avaliação do otorrino.
Qual médico trata a VPPB?
O otorrinolaringologista é o especialista mais procurado, e o neurologista também atende. A manobra pode ser feita pelo médico ou por um fisioterapeuta que ele indicar.
Quem tem VPPB pode dirigir?
Durante as crises, converse com o médico antes. Uma crise pode vir ao olhar por cima do ombro ou ao inclinar a cabeça, e no estudo alemão uma em cada quatro pessoas com VPPB parou de dirigir nesse período.
A VPPB tira a audição ou dá zumbido?
Perda de audição, zumbido ou ouvido cheio junto com a tontura não são o quadro típico da VPPB. O NIDCD descreve essa combinação na doença de Ménière. Se isso acontecer, conte ao otorrino. Uma audiometria mostra se a audição mudou.
Por que a tontura vem só quando deito de um lado?
Porque, em geral, o problema está em um ouvido. Quando você deita com esse ouvido para baixo, os cristais se movem dentro do canal e disparam a crise. É por isso que, no teste de posição, o médico vira a cabeça para um lado e depois para o outro: a crise aparece com o ouvido afetado para baixo.
Tontura e audição em Copacabana
Na tontura ao deitar e levantar, quem diagnostica e trata é o otorrinolaringologista. A Hear Clean não faz exames do equilíbrio nem reabilitação vestibular, e por isso o primeiro passo é a consulta com o otorrino. Onde a clínica ajuda é na audição. Se a tontura veio junto com zumbido, ouvido tampado ou a sensação de ouvir menos, ou se o médico pedir exames de audição, fazemos a audiometria e a imitanciometria na nossa sala acústica, sem pedido médico. A avaliação auditiva gratuita inclui a audiometria completa e mostra se existe perda auditiva.
Agende sua avaliação auditiva
Rua Santa Clara, 70, sala 1008, Copacabana, Rio de Janeiro. De segunda a sexta, das 9h às 18h.
Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta com médico otorrinolaringologista e fonoaudiólogo.
Referências
- Bhattacharyya N et al. Clinical practice guideline: benign paroxysmal positional vertigo (update). Otolaryngology-Head and Neck Surgery, 2017. American Academy of Otolaryngology-Head and Neck Surgery. PubMed
- von Brevern M et al. Epidemiology of benign paroxysmal positional vertigo: a population based study. Journal of Neurology, Neurosurgery & Psychiatry, 2007. PMC
- Hilton MP, Pinder DK. The Epley (canalith repositioning) manoeuvre for benign paroxysmal positional vertigo. Cochrane Database of Systematic Reviews, 2014. PMC
- National Institute on Deafness and Other Communication Disorders (NIDCD). Balance disorders. NIH. NIDCD
- Ministério da Saúde. AVC: sinais de alerta. gov.br. Ministério da Saúde
- DATASUS. CID-10, capítulo VIII: doenças do ouvido e da apófise mastoide (H81). Ministério da Saúde. DATASUS