Tipos de aparelho auditivo: retroauricular, intracanal e RIC

Neste artigo (11 partes)

Quem começa a pesquisar descobre rápido que existem vários tipos de aparelho auditivo: uns ficam atrás da orelha, outros ocupam a concha, outros vão tão fundo no canal que ninguém vê. A diferença não é só de tamanho. O formato muda a potência que o aparelho consegue entregar, quanto dura a bateria, a facilidade para colocar e tirar e até o jeito como você ouve a própria voz. Neste artigo você vai conhecer cada formato (retroauricular, receptor no canal, intra-auricular, intracanal, microcanal e invisível), para que grau de perda cada um costuma servir e o que pesa na hora de escolher.

Fonoaudióloga da Hear Clean sorrindo e segurando um aparelho auditivo pequeno perto do rosto

Quais são os tipos de aparelho auditivo?

São dois grandes grupos. No primeiro, o corpo do aparelho fica atrás da orelha: é o retroauricular (BTE, a sigla em inglês) e a versão menor dele, o receptor no canal (RIC ou RITE). No segundo, tudo fica dentro da orelha, numa pequena cápsula feita a partir do molde do seu ouvido: o intra-auricular (ITE), o intracanal (ITC), o microcanal (CIC) e o invisível no canal (IIC).

Por dentro, todos têm as mesmas peças: microfone, um circuito que processa e amplifica o som, um pequeno alto-falante (o receptor) e bateria. O que muda é quanto espaço sobra para cada peça, e é daí que vêm as vantagens e as limitações de cada formato.

Os fabricantes costumam oferecer a mesma linha em vários formatos, mas o uso não se divide por igual: uma revisão alemã de 2017 descreve que a maior parte dos aparelhos atuais fica atrás da orelha, e só cerca de 10% ficam dentro dela.

Ilustração de seis aparelhos auditivos modernos lado a lado, do maior para o menor
Da esquerda para a direita, do maior para o menor: retroauricular, receptor no canal com o fio fino e a ponteira, intra-auricular de concha, intracanal, microcanal e invisível no canal, os dois últimos com o fio usado para tirar o aparelho. Ilustração.

Retroauricular (BTE): o mais versátil

No retroauricular, todas as peças ficam numa caixinha de plástico apoiada atrás da orelha. Um tubo transparente leva o som até um molde ou uma ponteira dentro do canal do ouvido. É o formato que cobre a maior faixa de perdas: segundo o NIDCD, o instituto americano de surdez e distúrbios da comunicação, ele é usado por pessoas de todas as idades, da perda leve à profunda.

O tamanho, que pesa contra na estética, traz as vantagens: bateria maior, que dura mais, espaço para mais recursos, e um aparelho fácil de segurar, de limpar e resistente. Por isso o FDA, a agência que regula os aparelhos nos Estados Unidos, diz que ele costuma ser o escolhido para crianças pequenas: conforme a orelha cresce, troca-se só o molde.

Os aparelhos mais fortes também têm esse formato. O Oticon Xceed BTE Ultra Power é feito para perda severa a profunda e tem telecoil e Bluetooth. Na Argosy, o Vista V-UP é um retroauricular de potência ultra, com pilha 675 e conexão direta por Bluetooth. O ponto contra é a visibilidade: dos seis formatos, é o que mais aparece.

Receptor no canal (RIC ou RITE): pequeno e atrás da orelha

O receptor no canal é um retroauricular pequeno em que o alto-falante saiu da caixinha e foi para dentro do canal do ouvido, ligado ao corpo do aparelho por um fio fininho. RIC vem do inglês receiver in canal. RITE, receiver in the ear, é o mesmo formato, e alguns fabricantes usam os nomes miniRITE ou mini BTE. Com o alto-falante lá dentro, o corpo que fica atrás da orelha encolhe. Na MarkeTrak 10, uma grande pesquisa com usuários de aparelho nos Estados Unidos, os mini retroauriculares, grupo em que entra o receptor no canal, continuam sendo os mais usados.

Boa parte dos aparelhos recarregáveis e com Bluetooth tem esse formato. O Oticon Intent miniRITE, o primeiro aparelho auditivo do mundo com sensores que percebem a intenção de quem usa, é recarregável e tem telecoil, uma pequena bobina que capta o som dos sistemas de indução de teatros e igrejas. Na Argosy, o Vista V-R é o menor receptor no canal recarregável da marca, e o Vista V-312 é a versão com pilha comum.

A Starkey indica esse formato para perdas leves a moderadas e o apresenta como pequeno, discreto e rápido de adaptar, uma boa opção para quem vai usar aparelho pela primeira vez. O cuidado é com a cera: dentro do canal, o alto-falante fica mais exposto a ela e à umidade que no retroauricular tradicional, e o filtro de cera precisa ser trocado de tempos em tempos.

Adaptação aberta ou fechada: o efeito de oclusão

No receptor no canal, o alto-falante pode ir numa ponteira de silicone aberta, cheia de furinhos, ou numa ponteira fechada ou num molde. Com o canal tampado, a própria voz fica alta, abafada, como quem fala dentro de um barril. É o efeito de oclusão, uma das queixas mais comuns de quem começa a usar aparelho.

A adaptação aberta resolve boa parte disso. Uma revisão de 2016 sobre o tema lista como vantagens do canal aberto menos oclusão, voz mais natural, melhor qualidade de som e mais facilidade para perceber de onde vem o som. Em troca, o som amplificado escapa pelo canal: o aparelho consegue dar menos volume antes de começar a apitar, e o microfone direcional e a redução de ruído rendem menos.

Por isso a adaptação aberta funciona melhor quando a perda está principalmente nos agudos, o desenho mais comum da perda que chega com a idade. Nas perdas mais fortes, ou quando os graves também foram afetados, costuma ser preciso um molde feito sob medida para o som chegar com força suficiente.

Intra-auricular (ITE): sob medida, na concha da orelha

O intra-auricular tem todas as peças numa cápsula de plástico feita a partir do molde do seu ouvido. Ele preenche a concha, a parte côncava da orelha logo na entrada do canal. É o maior dos modelos sob medida e atende perdas leves a severas.

Por ser maior que os modelos de canal, é mais fácil de pegar, comporta uma bateria que dura mais e tem espaço para botões de volume e de programa. Alguns podem vir com Bluetooth ou com telecoil, como os Oticon Own nas versões de concha inteira e de meia concha. Do lado negativo, ele aparece na orelha e pode captar mais barulho de vento que os modelos menores.

Intracanal, microcanal e invisível (ITC, CIC e IIC)

São os menores aparelhos que existem, feitos sob medida para ficar, em parte ou por inteiro, dentro do canal do ouvido. O que muda de um para outro é a profundidade.

Aparelho auditivo intracanal (ITC)

Fica no canal, com uma pequena parte aparecendo na entrada da orelha. Em alguns modelos ainda cabe um botão de volume. É usado em perdas leves a moderadamente severas.

Microcanal (CIC)

Fica todo dentro do canal. Do lado de fora aparece só a ponta de uma pequena alça, usada para tirar o aparelho. A Starkey indica o microcanal para perdas leves a moderadas, e o NIDCD inclui também as moderadamente severas.

Invisível no canal (IIC)

Vai mais fundo, até a segunda curva do canal, e não aparece quando está no ouvido. O Oticon Own IIC não aparece em 9 de cada 10 orelhas e sai do ouvido puxado por um fio fino. É usado em perdas leves a moderadas e não serve para todo mundo, porque depende do tamanho e do formato do canal.

O que ganha e o que perde quem escolhe um aparelho de canal

O ganho principal é a discrição. Com o microfone na entrada do canal, o aparelho também aproveita o formato natural da orelha para captar o som, mas a revisão alemã de 2017 avalia que esse ganho é menor do que aquilo que se perde em tecnologia quando o tamanho vira prioridade.

As limitações vêm do espaço. Segundo o NIDCD, os aparelhos de canal são mais difíceis de ajustar e de tirar, têm menos lugar para bateria e para recursos como o telecoil e, por serem pequenos, têm potência limitada. Por isso não costumam ser indicados para perda severa a profunda nem para crianças pequenas. A pilha pequena precisa ser trocada com mais frequência, e a versão recarregável existe só em alguns modelos.

Nem todo aparelho de canal é feito sob medida. O Philips HearLink 50 NXT fica dentro do canal, é recarregável e tem Bluetooth, e pode ser usado com uma ponteira pronta, sem esperar a fabricação de um molde.

Tabela: os tipos de aparelho auditivo lado a lado

Tipo Onde fica Perdas em que costuma ser usado A favor Contra
Retroauricular (BTE) Atrás da orelha, com um tubo até o molde ou a ponteira Leve a profunda Mais potência, bateria maior, fácil de manusear e resistente É o mais visível
Receptor no canal (RIC ou RITE) Corpo pequeno atrás da orelha e alto-falante dentro do canal Leve a moderada, na indicação mais comum Discreto, permite adaptação aberta, muitos são recarregáveis e com Bluetooth Alto-falante mais exposto à cera e à umidade
Intra-auricular (ITE) Na concha da orelha, feito sob medida Leve a severa Fácil de pegar, cabe botão e bateria maior Aparece na orelha e capta mais vento
Intracanal (ITC) No canal, com uma pequena parte à mostra Leve a moderadamente severa Mais discreto, alguns ainda têm botão Pilha pequena e exige mãos firmes
Microcanal (CIC) Todo dentro do canal Leve a moderada Quase não aparece Menos potência, pilha pequena, difícil de manusear
Invisível no canal (IIC) No fundo do canal, na segunda curva Leve a moderada Não aparece quando está no ouvido Não cabe em todo canal, não tem botões, pilha pequena

As faixas de perda seguem o NIDCD e a Starkey. Cada modelo tem a sua faixa de adaptação, e quem confirma se ele serve para você é a audiometria.

Qual o melhor tipo de aparelho auditivo para idosos?

Não existe um formato melhor para todos os idosos. Além do grau da perda, o que costuma decidir são as mãos, a visão e a rotina.

  • Firmeza das mãos e visão. Os modelos pequenos exigem mais precisão para colocar, tirar e trocar a pilha. O retroauricular e o intra-auricular são os mais fáceis de pegar. Um estudo citado na revisão alemã mostrou que pessoas mais velhas, inclusive com artrose nas mãos, operam bem o aparelho depois de treinar.
  • Pilha ou recarregável. Quem tem dificuldade com pilhas minúsculas ganha muito com um modelo recarregável. A diferença de custo está no artigo sobre o valor do aparelho auditivo.
  • Telefone e TV. O telecoil e o Bluetooth ajudam a ouvir o telefone e a TV. Eles cabem com mais facilidade nos formatos maiores.
  • Óculos, chapéu e máscara. Os modelos que ficam dentro da orelha são mais confortáveis para quem passa o dia de óculos, chapéu ou máscara.
  • Cera. O NIDCD indica a adaptação aberta para quem acumula cera, porque ela se danifica menos. Para cuidar da cera com segurança, veja como tirar cera do ouvido.

Aparelho auditivo invisível vale a pena?

Vale para quem tem perda leve a moderada, um canal com tamanho e formato que comportem o aparelho, mãos firmes para colocar e tirar e a discrição como prioridade. Para perdas maiores, ou para quem precisa de telecoil, botões e bateria mais durável, os formatos maiores costumam render mais.

O resultado de um aparelho de canal pode ser bom. Um estudo italiano de 2024 comparou 40 pessoas em dois grupos: um usava retroauricular com adaptação aberta, o outro um microcanal aberto de encaixe pronto. No ruído, o desempenho e a satisfação foram parecidos. No silêncio, o grupo do retroauricular reconheceu mais palavras. Os autores concluíram que o microcanal é uma boa saída para quem recusa o aparelho por causa da aparência.

Quem escolhe o tipo de aparelho auditivo?

A fonoaudióloga, junto com você, depois da audiometria. O FDA resume os critérios: o tipo e o grau da perda, as situações em que você precisa ouvir melhor e o seu estilo de vida. O NIDCD acrescenta que o aparelho mais caro não é necessariamente o que serve melhor e que vale escolher um que seja prático de usar, porque ele vai estar no seu ouvido todos os dias.

Na prática, a escolha passa por quatro etapas:

  1. A audiometria mostra o tipo da perda, o grau e em quais frequências ela está. Veja como é o exame no artigo sobre audiometria tonal e vocal.
  2. O exame do ouvido mostra o tamanho e o formato do canal e se há cera ou inflamação. Causas que têm tratamento médico, como a otite, ficam com o otorrinolaringologista.
  3. A conversa sobre a rotina: trabalho, telefone, óculos, firmeza das mãos e o quanto a discrição importa para você.
  4. O teste: experimentar modelos de demonstração ajuda a sentir o encaixe e o som antes de decidir.

Perguntas frequentes sobre os tipos de aparelho auditivo

Quais os tipos de aparelhos auditivos fornecidos pelo SUS?

O SUS fornece aparelhos pelos serviços de saúde auditiva habilitados, que fazem a avaliação, a seleção e a adaptação. O tipo é definido pela equipe conforme a perda de cada pessoa. Veja o caminho no artigo sobre o valor do aparelho auditivo.

Qual o tipo de aparelho auditivo mais potente?

O retroauricular. As versões de super e ultra potência, como o Oticon Xceed, são feitas para perdas severas a profundas.

O que é aparelho auditivo com fio?

Em geral, é o receptor no canal. O “fio” é o cabo fino e quase transparente que passa por cima da orelha e leva o som do corpo do aparelho até o alto-falante, dentro do canal.

Aparelho auditivo recarregável ou a pilha: qual é melhor?

Depende do formato e das suas mãos. O recarregável, comum nos modelos atrás da orelha, dispensa a troca de pilhas. Nos aparelhos de canal, a pilha é pequena e acaba mais rápido, e a versão recarregável existe só em alguns modelos. Para quem lida bem com pilhas, o modelo a pilha continua sendo uma boa opção.

Criança pode usar qualquer tipo de aparelho?

Não. Para crianças pequenas, o retroauricular costuma ser o escolhido, porque aguenta o uso e permite trocar só o molde conforme a orelha cresce. Os modelos que ficam dentro da orelha precisariam ser refeitos com frequência, e o NIDCD não costuma indicá-los nessa idade.

Aparelhos auditivos em Copacabana

Na Hear Clean, a escolha do formato começa pela avaliação auditiva gratuita: a audiometria completa, feita na nossa sala acústica, sem pedido médico e sem compromisso de compra. Trabalhamos com aparelhos auditivos Oticon, Argosy, Starkey e Philips e adaptamos também os modelos feitos sob medida, que ficam dentro do ouvido. Na consulta, você experimenta modelos de demonstração, e a fonoaudióloga indica as opções que fazem sentido para a sua perda, o seu ouvido e a sua rotina. Quando o caso permite, você testa o aparelho em casa, sem custo, antes de decidir. Quem opta pelo tratamento recebe o aparelho com os exames, a adaptação e as revisões incluídos.

Agende sua avaliação auditiva

Rua Santa Clara, 70, sala 1008, Copacabana, Rio de Janeiro. De segunda a sexta, das 9h às 18h.

Referências

  • National Institute on Deafness and Other Communication Disorders (NIDCD). Hearing aids, 2022. NIDCD
  • U.S. Food and Drug Administration. Types of hearing aids, 2022. FDA
  • Winkler A, Latzel M, Holube I. Open versus closed hearing-aid fittings: a literature review of both fitting approaches. Trends in Hearing, 2016. PMC
  • Hoppe U, Hesse G. Hearing aids: indications, technology, adaptation, and quality control. GMS Current Topics in Otorhinolaryngology, Head and Neck Surgery, 2017. PMC
  • Alberti G et al. Open-fitting hearing aids: a comparative analysis between open behind-the-ear and open completely-in-the-canal instant-fit devices. European Archives of Oto-Rhino-Laryngology, 2024. PubMed
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