Otite média: o que é e por que é tão comum em crianças

Neste artigo (13 partes)

A otite média é a inflamação do ouvido médio, a pequena câmara de ar que fica atrás do tímpano. É uma das doenças mais comuns da infância: muitas crianças têm a primeira ainda no primeiro ano de vida, e algumas emendam uma na outra a cada resfriado. Às vezes vem com dor forte e febre. Outras vezes não dói nada, e o único sinal é a criança que passa a pedir para repetir as coisas. Neste artigo você vai entender o que acontece dentro do ouvido, por que a criança é tão mais sujeita, quais são os tipos, por que a audição pode baixar por um tempo e quando vale fazer um exame de audição.

Mãe sorridente ajeita o cabelo atrás da orelha da filha pequena, sentadas num sofá claro de um apartamento iluminado, com a cidade ao fundo pela janela

Se você procura um panorama de todos os tipos de otite, veja o artigo sobre otite. Se o assunto é a dor de ouvido do seu filho neste momento, o texto sobre dor de ouvido em criança fala dos primeiros cuidados.

O que é otite média

Otite média é qualquer inflamação do ouvido médio. Esse espaço fica entre o tímpano e o ouvido interno e guarda os três ossinhos da audição, que levam a vibração do tímpano até a cóclea. Para funcionar bem, ele precisa estar cheio de ar, com a mesma pressão de fora.

Quem cuida disso é a tuba auditiva (o nome antigo é trompa de Eustáquio), um canal estreito que liga o ouvido médio ao fundo do nariz. Ela se abre quando a gente engole ou boceja, deixa o ar entrar e escoa para a garganta a secreção que o próprio ouvido produz. Quando a tuba incha e não abre, o ouvido médio perde a ventilação, aparece líquido atrás do tímpano, e esse líquido pode infeccionar.

Ilustração da orelha em corte: atrás do tímpano, a parte de baixo do ouvido médio aparece cheia de líquido azul claro, abaixo dos ossinhos, e a tuba auditiva, destacada, desce do ouvido médio em direção ao fundo do nariz
Na otite média, a tuba auditiva incha e não ventila o ouvido médio. O espaço atrás do tímpano, que deveria ter ar, junta líquido, e o tímpano passa a vibrar pior.

A otite média não é a mesma coisa que a otite externa, que acontece no canal do ouvido, do lado de fora do tímpano, e costuma vir depois de piscina ou mar.

Quando procurar atendimento médico com urgência

Quem avalia e trata a otite média é o médico: o pediatra, na criança, ou o otorrinolaringologista. Procure atendimento no mesmo dia se, junto com os sintomas de otite, houver:

  • febre muito alta, calafrios ou a pessoa muito abatida, sem condições de fazer as atividades normais;
  • inchaço em volta da orelha;
  • secreção saindo do ouvido;
  • perda de audição nova ou mudança na audição;
  • tontura, vômitos ou dor de garganta forte;
  • bebê com menos de 1 ano com dor nos dois ouvidos;
  • diabetes, imunidade baixa ou doença do coração, do pulmão, dos rins ou neurológica.

Marque uma consulta, mesmo sem urgência, se a dor não melhora em 3 dias, se a criança tem menos de 1 ano ou se as otites não param de voltar.

Por que a otite média é tão comum em crianças

83%

das crianças acompanhadas desde o nascimento tiveram pelo menos uma otite média aguda até os 3 anos (Teele et al., 1989)

80%

das crianças têm ao menos um episódio de líquido no ouvido médio até os 10 anos (Schilder et al., 2016)

O principal motivo é a anatomia. Na criança pequena, a tuba auditiva é mais curta, mais larga e mais deitada. Ao nascer, ela mede cerca de 13 mm e tem uma inclinação de uns 10 graus; no adulto, chega a 35 mm e a 45 graus. Um canal curto e quase na horizontal deixa os vírus e as bactérias do nariz subirem com facilidade até o ouvido.

O resto da história é o dia a dia da infância. A criança pega muitos resfriados, e é justamente durante o resfriado que os vírus sobem pela tuba e preparam o terreno para as bactérias que vivem no fundo do nariz. O sistema de defesa ainda está amadurecendo. Conforme a cabeça cresce, a tuba se alonga e fica mais inclinada, e as otites vão rareando.

Num estudo clássico que acompanhou quase 900 crianças de Boston desde o nascimento, 62% tinham tido pelo menos uma otite aguda antes de 1 ano, e 46% já tinham tido três ou mais até os 3 anos. O pico foi no segundo semestre de vida. Meninos, crianças com irmãos que tinham otites de repetição e crianças que não mamaram no peito tiveram mais risco.

Tipos de otite média

Os médicos separam a otite média em três formas principais. Elas se misturam, e uma pode virar a outra.

Otite média aguda

É a infecção que começa de repente, em geral poucos dias depois de um resfriado. O ouvido médio se enche de secreção, o tímpano fica abaulado para fora e dói. Quando o laudo fala em otite média aguda supurada ou supurativa, quer dizer que há pus atrás do tímpano. Às vezes o tímpano se rompe e a secreção escorre pelo ouvido.

Otite média com efusão (secretora ou serosa)

Efusão quer dizer líquido. Nessa forma, há líquido atrás do tímpano, mas sem sinais de infecção aguda: sem febre e, muitas vezes, sem dor. Os nomes otite média secretora, serosa e com efusão descrevem o mesmo quadro. Ela pode aparecer depois de um resfriado ou ficar para trás depois de uma otite aguda, quando a infecção passa e o líquido demora a sair. Como não dói, pode passar despercebida por semanas.

Otite média crônica

É a inflamação que se arrasta. Na forma chamada de otite média crônica supurativa, o tímpano fica com um furo e o ouvido solta secreção de forma persistente ou volta e meia. Ela é bem menos comum que as outras duas, mas é a que mais preocupa: pode lesar os ossinhos da audição e aumenta o risco de uma perda auditiva permanente.

Sintomas de otite média

Os sintomas mudam conforme o tipo e a idade.

  • Na otite aguda: dor de ouvido, febre, irritação, sono agitado e falta de apetite. O bebê que ainda não fala mostra a dor segurando, puxando ou esfregando a orelha. Só metade a dois terços das crianças com otite aguda chegam a reclamar de dor, então a falta de queixa não descarta o problema.
  • Na otite com efusão: o sinal mais comum é ouvir menos, de forma temporária, em um ou nos dois ouvidos. Pode haver dor leve, zumbido e falta de equilíbrio.
  • Na otite crônica: secreção que sai do ouvido por semanas e audição abafada naquele lado.

Na criança, a audição baixa aparece no comportamento. Fique atento se ela passa a falar alto, pede para aumentar o volume da TV, pede para repetir, não responde quando é chamada de longe, se distrai com facilidade numa conversa ou parece cansada e irritada no fim do dia, porque ouvir está dando mais trabalho.

Otite média em adultos

Adulto também tem otite média, só que com menos frequência, porque a tuba já está comprida e inclinada. Ela continua podendo inchar numa gripe ou num resfriado, e os sintomas são os mesmos da criança: dor, ouvido tampado, audição abafada, às vezes zumbido. Se o seu caso é o ouvido que tampa no avião ou depois de um resfriado, sem dor nem febre, o artigo sobre ouvido tampado explica como a tuba funciona no adulto e como destampar com segurança. Se a sensação de líquido ou a audição abafada não passam em algumas semanas, procure o otorrinolaringologista.

Por que a otite média pode baixar a audição por um tempo

O som faz o tímpano vibrar, e os ossinhos levam essa vibração para dentro. Com líquido atrás do tímpano, é como tocar um tambor cheio d’água: a vibração fica amortecida e chega fraca à cóclea. Esse tipo de perda se chama perda auditiva condutiva, porque o problema está na condução do som, e não no ouvido interno.

Na maioria das vezes, ela é temporária: quando o líquido sai, a audição volta. Na audiometria, essa perda tem uma assinatura típica. O som que chega pelo fone é ouvido pior, mas o som que chega pelo vibrador colocado atrás da orelha, que vai pelo osso direto até a cóclea, é ouvido normalmente. A diferença entre os dois é o chamado gap aéreo-ósseo, explicado no artigo sobre audiometria via óssea.

O problema é quando essa perda temporária dura meses ou vai e volta muitas vezes. Na criança, isso pode atrapalhar a fala e o rendimento na escola. E na otite crônica, com tímpano furado e secreção, a lesão dos ossinhos ou do ouvido interno pode deixar uma perda que não volta sozinha.

Otites de repetição: quando avaliar a audição

A Academia Americana de Pediatria chama de otite média aguda de repetição quando a criança tem três episódios ou mais em 6 meses, ou quatro ou mais em 12 meses, com pelo menos um nos últimos 6 meses.

Para a otite com efusão, a diretriz da Academia Americana de Otorrinolaringologia é clara: se o líquido continua lá por 3 meses ou mais, a criança deve fazer um exame de audição adequado à idade. O exame também é indicado antes de qualquer decisão sobre tubo de ventilação e, com qualquer duração, em crianças com risco maior para a fala e o aprendizado, como as que já têm outra dificuldade de audição, de visão ou de desenvolvimento.

Na prática, vale pedir ao pediatra ou ao otorrino uma avaliação da audição quando:

  • a criança teve muitas otites seguidas ou está com líquido no ouvido há 3 meses ou mais;
  • a escola ou a família nota que ela ouve menos, se distrai ou fala menos do que o esperado para a idade;
  • a audição continua abafada semanas depois que a otite passou, em criança ou em adulto.

Como é feito o diagnóstico

O diagnóstico é feito olhando o tímpano com o otoscópio, o aparelho com luz e lente. Na otite aguda, o médico vê o tímpano abaulado e inflamado. Na otite com efusão, o tímpano fica opaco, às vezes com uma linha de líquido visível por trás. Alguns otoscópios sopram um jato de ar leve para ver se o tímpano se mexe: com líquido atrás, ele quase não se move.

Quando a dúvida continua, a imitanciometria ajuda. O exame mede como o tímpano responde à mudança de pressão e, quando há líquido, costuma mostrar uma curva achatada, chamada de curva tipo B. Para saber quanto a audição caiu e se a perda é condutiva, o exame é a audiometria.

Tratamento da otite média: quem decide é o médico

O tratamento depende do tipo, da idade e da intensidade, e quem indica é o pediatra ou o otorrinolaringologista. Na otite aguda, o primeiro cuidado é aliviar a dor e a febre, e em parte dos casos o médico propõe observar a criança por alguns dias antes de decidir o resto. Na otite com efusão, a diretriz americana recomenda, para a criança sem fatores de risco, acompanhar por 3 meses, porque o líquido costuma sair sozinho, e não indica remédios para secar o ouvido. Em crianças maiores, o médico pode sugerir a autoinsuflação, um pequeno balão inflado pelo nariz que ajuda a abrir a tuba.

Tubo de ventilação: quando o otorrino indica

O tubo de ventilação é um tubinho que o otorrino coloca no tímpano, numa cirurgia, para deixar o ar entrar no ouvido médio e o líquido sair. Ele costuma cair sozinho em 6 a 12 meses, conforme o ouvido se recupera. É a cirurgia ambulatorial mais feita em crianças nos Estados Unidos.

A indicação é do otorrino, caso a caso. Pelas diretrizes, o tubo não é colocado depois de um único episódio de líquido com menos de 3 meses. Ele passa a ser considerado quando o líquido fica nos dois ouvidos por 3 meses ou mais com dificuldade de audição comprovada, ou em otites agudas de repetição quando há líquido no ouvido no momento da avaliação. Nessa conversa, o exame de audição da criança é uma das informações que o médico usa para decidir.

O que você pode fazer hoje

  • Anote as datas de cada otite e de cada consulta. Esse histórico ajuda o médico a ver se é um caso de repetição.
  • Observe a audição da criança nas semanas depois da otite: se ela atende quando é chamada, o volume da TV, a fala.
  • Mantenha as vacinas em dia e a criança longe de fumaça de cigarro.
  • Se ela usa chupeta, converse com o pediatra sobre tirar depois dos 6 meses.
  • Não pingue nada no ouvido por conta própria. Se o tímpano estiver rompido, o que entra vai direto para o ouvido médio.
  • Não use cotonete dentro do canal. Limpe só a secreção que escorreu para fora, com algodão.

Perguntas frequentes sobre otite média

Qual é o CID da otite média?

Na CID-10, a classificação da Organização Mundial da Saúde, a otite média não supurativa, que inclui a serosa e a secretora, fica no código H65; a aguda serosa é H65.0. A otite média supurativa e a não especificada ficam no H66: a aguda supurativa é H66.0, as formas crônicas supurativas vão de H66.1 a H66.3, e a otite média não especificada é H66.9.

Otite média com efusão, secretora e serosa são a mesma coisa?

Na prática, sim. Os três nomes descrevem líquido atrás do tímpano sem sinais de infecção aguda. Na CID-10, as variações aparecem como serosa, mucoide e outras formas não supurativas, e quem define o quadro é o médico.

Otite média passa sozinha?

Muitas vezes, sim. A otite com efusão costuma se resolver em até 3 meses, e por isso as diretrizes recomendam acompanhar antes de pensar em cirurgia. Mas ela vai e volta com frequência, e a otite aguda precisa de avaliação médica para decidir o que fazer. Não espere em casa se aparecer algum sinal de alerta.

Otite média causa surdez?

Na grande maioria das vezes, a perda é temporária e some quando o líquido sai. A otite crônica, com tímpano furado e secreção por muito tempo, pode deixar uma perda permanente. Por isso vale fazer a audiometria quando as otites se repetem ou a audição não volta.

Criança com tubo de ventilação pode nadar?

A diretriz americana de 2022 diz que não é preciso proibir a natação nem usar protetor de ouvido de rotina em crianças com tubo. O otorrino que acompanha a criança pode orientar diferente em casos específicos, e é ele quem dá a palavra final.

Audição depois da otite média em Copacabana

A Hear Clean é uma clínica de fonoaudiologia e não trata a otite: quem cuida da inflamação é o pediatra ou o otorrinolaringologista. O nosso papel vem depois, quando é preciso saber como ficou a audição. Fazemos a audiometria e a imitanciometria na sala acústica, a partir de 7 anos. O exame mostra se a audição voltou ao normal depois de otites de repetição e se há diferença entre a via aérea e a via óssea, uma informação útil para a conversa com o otorrino. Para o adulto que ficou com o ouvido abafado depois de uma otite, a avaliação auditiva é gratuita, com audiometria completa.

Agende sua avaliação auditiva

Rua Santa Clara, 70, sala 1008, Copacabana, Rio de Janeiro. De segunda a sexta, das 9h às 18h.

Referências

  • Schilder AG et al. Otitis media. Nature Reviews Disease Primers, 2016. PMC
  • Teele DW, Klein JO, Rosner B. Epidemiology of otitis media during the first seven years of life in children in greater Boston: a prospective, cohort study. Journal of Infectious Diseases, 1989. PubMed
  • Lieberthal AS et al. The diagnosis and management of acute otitis media. Pediatrics, 2013. American Academy of Pediatrics. PubMed
  • Rosenfeld RM et al. Clinical practice guideline: otitis media with effusion (update). Otolaryngology-Head and Neck Surgery, 2016. PubMed
  • Rosenfeld RM et al. Clinical practice guideline: tympanostomy tubes in children (update). Otolaryngology-Head and Neck Surgery, 2022. PubMed
  • National Health Service (NHS). Glue ear e Ear infections. NHS: glue ear; NHS: ear infections
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