Perda auditiva neurossensorial: o que é, causas e tratamento

Neste artigo (11 partes)

A perda auditiva neurossensorial é a que nasce dentro do ouvido interno ou no nervo da audição, e não no caminho que o som percorre até lá. É o tipo mais comum em adultos. Quase sempre chega devagar: primeiro a TV sobe um pouco, depois a conversa no restaurante começa a escapar, e a pessoa passa a achar que todo mundo fala enrolado. Muita gente só descobre o nome quando ele aparece escrito no laudo da audiometria. Neste artigo você vai entender o que quer dizer neurossensorial, o que causa esse tipo de perda, como ela aparece no exame, por que em geral é permanente e como é o tratamento.

Homem de cabelos grisalhos, de camisa azul-clara, ouve com atenção a filha que fala com ele à mesa, num apartamento claro, com o neto ao fundo

Se você procura uma visão geral dos tipos e graus de perda e de como é o tratamento na clínica, veja a página sobre perda auditiva. Aqui o assunto é só a neurossensorial.

O que é perda auditiva neurossensorial

É a perda auditiva causada por um problema na cóclea, o órgão da audição que fica no ouvido interno, ou no nervo que leva o som ao cérebro. O som atravessa bem o canal, o tímpano e os ossinhos do ouvido médio, mas o ouvido interno não consegue transformá-lo em sinal para o cérebro com a mesma qualidade de antes. Em alguns laudos ela aparece como sensorioneural ou neurossensorial; é a mesma coisa.

O nome junta as duas partes que podem estar lesadas:

  • Sensorial: a lesão está na cóclea, principalmente nas células ciliadas, pequenas células sensoriais que captam a vibração do som. É de longe a forma mais comum.
  • Neural: a cóclea funciona, mas o nervo ou as ligações entre as células e o nervo não passam o sinal direito. Nesse caso a pessoa costuma entender as palavras pior do que o volume do exame faria esperar.

Por muito tempo os exames não conseguiam separar uma da outra, e por isso o nome ficou junto. A outra grande família é a perda condutiva, em que o problema está na passagem do som: cera que fecha o canal, otite, líquido atrás do tímpano, tímpano furado ou ossinhos presos. Quando as duas coisas existem ao mesmo tempo, a perda é mista.

Ilustração da orelha em corte: o canal do ouvido e o ouvido médio aparecem contornados em terracota como a região da perda condutiva, e a cóclea e o nervo auditivo, destacados em azul, como a região da perda neurossensorial
Na perda neurossensorial, o problema está na cóclea ou no nervo auditivo, no ouvido interno. Na condutiva, está no caminho do som até lá: canal, tímpano e ouvido médio.

Quando procurar o otorrino com urgência

Quem investiga a causa da perda auditiva e decide o tratamento médico é o otorrinolaringologista. Procure atendimento no mesmo dia se:

  • a audição de um ouvido, ou dos dois, caiu de repente, de um dia para o outro ou em poucas horas;
  • a perda veio junto com tontura forte ou com zumbido novo em um ouvido só;
  • a perda apareceu com fraqueza, dormência ou boca torta no rosto, fala enrolada ou outro sinal neurológico: nesse caso, vá ao pronto-socorro.

A diretriz da Academia Americana de Otorrinolaringologia pede que a perda súbita seja confirmada por audiometria o quanto antes, em até 14 dias, e coloca o prazo do primeiro tratamento também nas duas primeiras semanas. Não espere o ouvido “desentupir” sozinho. Perda de um lado só, mesmo antiga e lenta, também merece avaliação do otorrino, que decide se precisa de exames complementares.

A perda auditiva neurossensorial é comum?

mais de 25%

das pessoas com mais de 60 anos têm perda auditiva que atrapalha a vida diária (OMS, 2026)

1 em 1.000

é a proporção de bebês que nascem com perda auditiva hereditária (Cunningham e Tucci, 2017)

Muito. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 430 milhões de pessoas no mundo precisam de reabilitação por uma perda auditiva incapacitante, aquela acima de 35 dB no ouvido que ouve melhor. A proporção cresce com a idade: depois dos 60 anos, mais de uma em cada quatro pessoas tem esse grau de perda.

Nos adultos, a principal causa de perda auditiva é o envelhecimento do ouvido interno, que provoca justamente a perda neurossensorial, segundo uma revisão publicada em 2017 no New England Journal of Medicine.

Causas da perda auditiva neurossensorial

A revisão de Cunningham e Tucci resume as principais causas assim: o desgaste que vem com a idade, alterações genéticas, a exposição ao barulho, alguns remédios que fazem mal ao ouvido e doenças crônicas. Muitas vezes mais de uma age na mesma pessoa.

Idade (presbiacusia)

É a causa número um nos adultos. O nome técnico é presbiacusia. Ela costuma pegar os dois ouvidos por igual e é mais forte nos sons agudos, de 2.000 Hz para cima. Um traço típico é entender pior a fala mesmo quando o som está alto o bastante. A mesma revisão lembra que a perda “da idade” também carrega o barulho e os remédios acumulados ao longo da vida.

Barulho

Depois de um show ou de uma festa muito alta, é comum sair com o ouvido abafado e apitando. Essa queda costuma voltar ao normal em alguns dias, até duas semanas. Quando o barulho é forte e se repete, porém, as células ciliadas morrem, e a perda fica. Fone de ouvido alto por horas, obra, máquinas e instrumentos musicais entram nessa conta. Quem se expõe com frequência precisa de proteção auditiva.

Genética

Cerca de 1 em cada 1.000 bebês nasce com perda auditiva hereditária. Mais de 100 genes já foram ligados à perda auditiva, e perto de 30 deles causam perda que aparece só na vida adulta ou vai piorando com os anos. Nos adultos, estima-se que de 25% a 55% da perda auditiva tenha peso hereditário. Por isso vale contar na consulta se pais, avós ou irmãos usam aparelho auditivo.

Remédios que fazem mal ao ouvido (ototóxicos)

Alguns remédios, principalmente certos antibióticos usados no hospital e alguns remédios de quimioterapia, podem lesar as células ciliadas. Quando o tratamento é necessário, quem pesa esse risco é o médico. Nunca pare um remédio por conta própria: se você está em tratamento e notou mudança na audição, conte ao médico que o receitou.

Doenças crônicas, tabagismo e outras causas

Fumar, a gordura na barriga e o diabetes mal controlado aparecem ligados à perda auditiva em estudos grandes, o que sugere que a circulação do ouvido interno também conta. A OMS lista ainda infecções como a meningite, traumas na cabeça e produtos químicos do trabalho. Há também doenças autoimunes que atacam o ouvido interno, com perda que sobe e desce.

Perda súbita

É a perda neurossensorial que aparece de uma vez, em até 72 horas, em um ouvido ou nos dois. Em mais de 90% dos casos não se acha a causa. Ela atinge de 5 a 27 pessoas em cada 100 mil por ano e é tratada como urgência, porque o tratamento feito cedo pode ajudar a recuperar a audição. O artigo sobre perda auditiva súbita explica o que fazer.

Sintomas de perda auditiva neurossensorial

Na perda que vem aos poucos, os sinais aparecem mais no comportamento do que numa dor ou num incômodo:

  • pedir para repetir, principalmente em lugar com barulho;
  • achar que as pessoas falam baixo ou enrolado;
  • ouvir a voz, mas não entender as palavras, mesmo com volume suficiente;
  • TV e telefone cada vez mais altos;
  • zumbido, um chiado ou apito que ninguém mais ouve;
  • cansaço depois de conversas longas ou de reuniões.

O zumbido anda muito junto da perda neurossensorial. Se ele é a sua queixa principal, veja o artigo sobre zumbido no ouvido.

Perda auditiva neurossensorial na audiometria

A audiometria é o exame que diz o tipo, o grau e o formato da perda. Na parte tonal, a fonoaudióloga mede a audição de dois jeitos:

  • Via aérea: com fone, o som faz o caminho completo, do canal até a cóclea.
  • Via óssea: com um vibrador atrás da orelha, a vibração vai pelo osso direto ao ouvido interno, quase sem passar pelo canal e pelo ouvido médio.

Na perda neurossensorial, as duas medidas ficam alteradas e juntas. O Conselho Federal de Fonoaudiologia usa este critério: via óssea acima de 15 dB, via aérea acima de 25 dB e diferença entre elas (o gap aéreo-ósseo) de até 10 dB. No gráfico, os sinais da via óssea andam colados nos da via aérea. Se a via óssea fica normal e só a aérea cai, a perda é condutiva. Os detalhes estão no artigo sobre audiometria via óssea.

O laudo também traz o grau (leve, moderado, severo ou profundo) e o lado. “Perda auditiva neurossensorial bilateral” quer dizer que os dois ouvidos têm esse tipo de perda; “unilateral”, que é um só. Laudos como “perda neurossensorial a partir de 3 kHz” ou “de 4 kHz” dizem que a audição é normal nos graves e cai nos agudos daquela frequência em diante. As faixas de cada grau estão em graus de perda auditiva.

A parte com palavras, a logoaudiometria, mostra quanto você entende a fala num volume confortável. Ela ajuda a separar a perda sensorial, mais comum, da neural, em que o entendimento das palavras cai mais do que o esperado.

Perda auditiva neurossensorial tem cura?

Na maioria dos casos, não: ela é permanente. As células ciliadas da cóclea humana não se regeneram depois de perdidas, e a perda que elas deixam fica. Pesquisas com terapia genética já trouxeram bons resultados, mas por enquanto em animais de laboratório.

Há exceções que dependem de tratamento médico rápido, como a perda súbita e as doenças autoimunes do ouvido. Nelas, quem indica o tratamento é o otorrino, e o prazo faz diferença.

Permanente não quer dizer sem tratamento. A perda que não volta pode ser compensada, e é isso que o aparelho auditivo e, em casos mais graves, o implante coclear fazem.

Tratamento da perda auditiva neurossensorial

Aparelho auditivo

O aparelho auditivo é o tratamento principal. Ele amplifica o som de acordo com o seu audiograma, dando mais volume aos agudos que você perdeu e segurando os sons fortes para não incomodar. O Instituto Nacional de Surdez e Outros Distúrbios da Comunicação dos Estados Unidos (NIDCD) explica que o aparelho ajuda principalmente quem tem perda por lesão das células ciliadas, ou seja, justamente a perda neurossensorial.

Uma revisão Cochrane (estudo que reúne as melhores pesquisas sobre um tema) com 825 adultos com perda leve a moderada encontrou efeito grande do aparelho na capacidade de ouvir e na qualidade de vida ligada à audição. Os autores concluíram que o aparelho deve ser o primeiro tratamento para quem procura ajuda.

O aparelho não devolve a audição natural. Ele funciona enquanto está no ouvido, pede tempo e paciência na adaptação e precisa de ajustes pela fonoaudióloga conforme você conta como está ouvindo.

Implante coclear, quando o aparelho não basta

Na perda neurossensorial severa ou profunda, as células ciliadas podem estar tão lesadas que nem o som muito amplificado vira sinal para o nervo. Aí o aparelho traz pouco benefício. O implante coclear passa por cima da cóclea lesada e estimula o nervo da audição diretamente, com eletrodos colocados por cirurgia. Ele melhora a compreensão da fala nesses casos. Quem avalia a indicação e opera é o otorrinolaringologista. As diferenças entre aparelho de alta potência e implante estão no artigo sobre aparelho para surdez.

O que você pode fazer hoje

  • Se a audição caiu de repente, procure o otorrino hoje. Não espere passar.
  • Se a perda veio devagar, marque uma audiometria. Guarde exames antigos para comparar.
  • Anote as situações em que mais sente falta de ouvir: telefone, TV, restaurante, voz de neto.
  • Proteja o que você ainda ouve: volume moderado no fone e protetor em lugar barulhento.
  • Se você toma algum remédio de uso contínuo e notou mudança na audição, conte ao seu médico, sem suspender nada por conta própria.

Perguntas frequentes sobre perda auditiva neurossensorial

Qual é o CID da perda auditiva neurossensorial?

Na CID-10, a perda neurossensorial dos dois ouvidos é H90.3. A de um ouvido só, com o outro normal, é H90.4, e a não especificada é H90.5. Alguns casos têm código próprio: presbiacusia (H91.1), perda ototóxica (H91.0), perda súbita idiopática (H91.2) e perda induzida por ruído (H83.3). Quem coloca o código no laudo ou no atestado é o profissional que atendeu você.

Perda auditiva neurossensorial é deficiência?

Depende do grau. A Lei 14.768, de 2023, considera deficiência auditiva a limitação de longo prazo da audição, total em um ouvido ou parcial ou total nos dois, e usa como referência a média de 41 dB ou mais nas frequências de 500, 1.000, 2.000 e 3.000 Hz, medida pelo audiograma. A mesma lei diz que outros instrumentos de avaliação também constatam a deficiência. Direitos e benefícios têm regras próprias, que o órgão responsável avalia caso a caso.

Perda auditiva neurossensorial leve precisa de aparelho?

Depende de quanto ela atrapalha a sua rotina. Na perda leve, a pessoa costuma acompanhar a conversa no silêncio e perder parte dela no barulho. A fonoaudióloga avalia o exame junto com o que você conta. Mesmo sem aparelho, vale repetir a audiometria periodicamente para ver se a perda está mudando.

Perda auditiva neurossensorial moderada é grave?

É uma perda que já pesa na conversa, mesmo em lugar calmo, e é o grau em que o aparelho auditivo tem o papel mais claro. Não é uma doença perigosa em si, mas deixar sem tratamento aumenta o esforço para ouvir e o isolamento.

Perda neurossensorial bilateral piora com o tempo?

A perda ligada à idade costuma avançar devagar, e a genética pode ser progressiva. Por isso o acompanhamento com audiometria é periódico, e o aparelho é reajustado quando o exame muda.

Zumbido pode ser sinal de perda auditiva neurossensorial?

Pode. O zumbido aparece muito junto desse tipo de perda, às vezes antes de a pessoa notar que ouve menos. A audiometria é o primeiro exame para investigar.

Perda auditiva neurossensorial em Copacabana

Na Hear Clean, o primeiro passo é a avaliação auditiva gratuita: conversa com a fonoaudióloga e audiometria completa, com fone, vibrador atrás da orelha e palavras, na sala acústica da clínica, sem pedido médico e sem compromisso de compra. O exame mostra se a perda é neurossensorial, o grau e em quais frequências. Se o aparelho for indicado e você decidir começar o tratamento, a imitanciometria completa o laudo e já está incluída, assim como a adaptação e as revisões. Trabalhamos com Oticon, Argosy, Starkey e Philips, e você experimenta modelos de demonstração na consulta. Quando há sinal de causa médica, como perda súbita ou de um lado só, ou quando o aparelho não basta, encaminhamos ao otorrinolaringologista.

Agende sua avaliação auditiva

Rua Santa Clara, 70, sala 1008, Copacabana, Rio de Janeiro. De segunda a sexta, das 9h às 18h.

Referências

  • Cunningham LL, Tucci DL. Hearing loss in adults. New England Journal of Medicine, 2017. PMC
  • Chandrasekhar SS et al. Clinical practice guideline: sudden hearing loss (update). Otolaryngology-Head and Neck Surgery, 2019. PubMed
  • Sistema de Conselhos de Fonoaudiologia. Guia de orientação na avaliação audiológica, volume I. 2ª edição. Conselho Federal de Fonoaudiologia, 2023. CFFa
  • Ferguson MA et al. Hearing aids for mild to moderate hearing loss in adults. Cochrane Database of Systematic Reviews, 2017. PubMed
  • Organização Mundial da Saúde. Deafness and hearing loss. OMS, 2026. OMS
  • Brasil. Lei nº 14.768, de 22 de dezembro de 2023. Define deficiência auditiva e estabelece valor referencial da limitação auditiva. Planalto, 2023. Planalto
Abrir bate-papo
Olá 👋
Podemos ajudá-lo?
LigarWhatsApp