Surdez unilateral: causas, sinais e o que fazer quando um ouvido não ouve
Neste artigo (12 partes)
- O que é surdez unilateral
- Quando procurar o otorrino com urgência
- Surdez de um ouvido é comum?
- Sinais de surdez em um ouvido no dia a dia
- Surdez unilateral: causas
- Por que investigar a surdez de um ouvido
- Como é feito o diagnóstico
- Surdez unilateral tem tratamento? As opções
- Surdez unilateral é PCD?
- O que você pode fazer hoje
- Perguntas frequentes sobre surdez unilateral
- Surdez unilateral em Copacabana
A surdez unilateral é a perda de audição em um ouvido só, enquanto o outro continua ouvindo bem ou quase bem. Muita gente descobre por acaso: troca o celular de orelha e percebe que de um lado a voz some, ou nota que no restaurante só entende quem senta do lado “bom”. Como o outro ouvido segura boa parte do dia, é comum achar que não precisa fazer nada. Aqui você vai ver o que é a surdez de um ouvido, os sinais no dia a dia, as causas, por que ela sempre merece investigação e quais são as opções de tratamento.
O que é surdez unilateral
É quando um ouvido ouve menos que o normal e o outro ouve dentro do normal. A perda do lado afetado pode ser leve, moderada, severa ou profunda. Um grande estudo americano com adultos usou esta regra: um ouvido com média até 25 decibéis (dB), que é audição normal, e o outro acima de 25 dB, que já é perda.
Quando a perda daquele lado é severa ou profunda e o ouvido quase não entende palavras, os especialistas usam o termo “single-sided deafness”, ou surdez unilateral profunda. É o caso em que um aparelho auditivo comum naquele ouvido já não ajuda a entender a fala, e por isso as opções de tratamento mudam.
Se você quer entender os tipos e graus de perda em geral, veja o artigo sobre surdez e a página sobre perda auditiva.
Quando procurar o otorrino com urgência
- Um ouvido parou de ouvir de repente, de uma hora para outra ou em até três dias.
- A perda veio junto com zumbido novo, tontura forte ou sensação de ouvido cheio.
- A perda apareceu depois de uma pancada na cabeça.
- Junto com a perda surgiram fraqueza, dormência ou alteração no rosto ou no corpo.
- A perda vai e volta, em crises, ou passou a atingir os dois ouvidos.
Nesses casos, procure o otorrinolaringologista no mesmo dia ou o pronto-socorro. Se a perda é antiga e não mudou, a consulta não é de urgência, mas vale marcar.
Surdez de um ouvido é comum?
7 em 100
adultos americanos têm perda em um ouvido só, a maioria leve (Golub et al., 2018)
2 em 100
dessas pessoas usam aparelho auditivo (Golub et al., 2018)
É mais comum do que parece. Um estudo com 6.242 adultos dos Estados Unidos, todos com audiometria, encontrou perda em um ouvido só em 7,2% deles. Em 5,7% a perda era leve, e em 1,5% era moderada ou maior. Os autores também viram que quase ninguém trata: só 2% usavam aparelho, e mesmo entre quem dizia ter dificuldade para ouvir, só 11% usavam.
A surdez profunda que aparece de um lado ao longo da vida é bem mais rara. Uma revisão da Universidade de Miami cita de 12 a 27 casos novos a cada 1 milhão de pessoas por ano.
Sinais de surdez em um ouvido no dia a dia
O cérebro usa os dois ouvidos juntos para duas tarefas: saber de onde vem um som e separar uma voz do barulho em volta. Com um lado só, essas duas tarefas ficam mais difíceis. Os sinais mais comuns são:
- Não saber de onde vem o som. O celular toca e você procura pela casa; alguém chama na rua e você vira para o lado errado.
- Perder a conversa no barulho. Em restaurante, festa ou reunião, você entende bem quem está do lado bom e mal quem está do outro.
- Escolher o lugar à mesa. Sem perceber, você senta sempre na ponta ou de forma que as pessoas fiquem do lado que ouve.
- Usar o telefone sempre na mesma orelha.
- Cansaço no fim do dia. O esforço para acompanhar as conversas é maior, e a revisão de Miami descreve esse cansaço auditivo e a queda de rendimento no trabalho.
- Zumbido de um lado. Pode vir junto com a perda. Se esse é o seu caso, leia também sobre zumbido no ouvido esquerdo ou direito.
Parte disso é física. A cabeça funciona como uma barreira: o som que vem do lado surdo precisa contornar a cabeça para chegar ao ouvido bom, e nesse caminho perde força, sobretudo os sons agudos. Essa diferença pode passar de 20 dB. Os pesquisadores chamam isso de “sombra da cabeça”. Na prática, quem fala do seu lado surdo soa mais baixo e menos nítido do que quem fala do outro lado.
Os mesmos autores lembram que ainda existe a ideia de que “um ouvido bom basta”. Por ser uma deficiência que não aparece, o impacto costuma ser subestimado, inclusive pela própria pessoa.
Surdez unilateral: causas
As causas são muitas, e em boa parte dos casos de surdez profunda de um lado nenhuma causa é encontrada. As principais:
Perda auditiva súbita
É a queda rápida da audição, em horas ou poucos dias, quase sempre de um ouvido só. É uma urgência: quanto antes o otorrinolaringologista examina, maior a chance de recuperar. Tudo sobre ela está no artigo sobre perda auditiva súbita.
Doença de Ménière
É um problema do ouvido interno que causa crises de tontura forte (vertigem), zumbido, perda de audição e sensação de ouvido cheio. Segundo o NIDCD, o instituto de surdez e comunicação dos Estados Unidos, ela costuma atingir um ouvido só; em 15% a 25% das pessoas, chega aos dois. Aparece mais entre os 40 e os 60 anos.
Neurinoma do acústico (schwannoma vestibular)
É um tumor benigno, que costuma crescer devagar, no nervo que leva o som e o equilíbrio do ouvido ao cérebro. É raro: cerca de 1 caso por 100 mil pessoas por ano. Os primeiros sinais são justamente perda de audição ou zumbido de um lado só e, às vezes, desequilíbrio. O NIDCD destaca que são os sintomas de um lado só, ou desiguais entre os ouvidos, que preocupam. É por isso que perda unilateral sempre merece investigação.
Pancada na cabeça, infecções e outras causas
A revisão de Miami lista ainda fraturas do osso onde fica o ouvido, infecções, problemas de circulação no ouvido interno, doenças autoimunes e alterações na formação do próprio ouvido interno. Mesmo com essa lista, muitas vezes a causa não aparece nos exames.
Causas simples que tampam um lado
Nem toda audição baixa de um lado vem do ouvido interno. Cera acumulada e líquido atrás do tímpano bloqueiam a passagem do som e dão uma perda chamada condutiva, que costuma melhorar quando a causa é tratada. Pela sensação não dá para saber qual é o caso. A diretriz americana de perda súbita pede que o médico separe essas duas situações logo na primeira consulta.
Por que investigar a surdez de um ouvido
Porque a causa muda tudo. A mesma sensação de “ouvido fraco” pode ser cera, uma perda súbita que tem janela de tratamento, uma crise de Ménière ou, mais raramente, um neurinoma. Só o exame do ouvido e a audiometria separam uma coisa da outra.
Na perda súbita, a diretriz da Academia Americana de Otorrinolaringologia (AAO-HNS) recomenda audiometria o quanto antes, em até 14 dias do início, e pede que o médico procure alterações no nervo da audição com ressonância magnética ou com o exame chamado BERA (potencial evocado auditivo de tronco encefálico). Mesmo quando a perda veio devagar, o otorrino costuma pedir exames parecidos para descartar o neurinoma.
Como é feito o diagnóstico
O otorrino conversa sobre como a perda começou, examina o ouvido e pede a audiometria. O exame mede quanto cada ouvido ouve, separadamente, com sons em várias frequências pelo fone e por um vibrador atrás da orelha, e também testa se você entende palavras. Essa parte das palavras é importante: ela mostra se o ouvido afetado ainda aproveita som amplificado. A diferença entre as duas partes está no artigo sobre audiometria tonal e vocal.
Dependendo do resultado, o médico pode pedir a imitanciometria, que avalia o tímpano e o ouvido médio, a ressonância magnética e o BERA, para olhar o nervo da audição.
Surdez unilateral tem tratamento? As opções
Tem. O que muda é o objetivo. Se a causa pede tratamento médico, quem decide é o otorrinolaringologista. Se a perda fica, o foco passa a ser devolver o acesso ao som do lado afetado. A escolha depende principalmente de quanto o ouvido com perda ainda funciona.
Aparelho auditivo no ouvido com perda
Quando a perda daquele lado é leve, moderada ou mesmo severa e o ouvido ainda entende palavras com o som amplificado, o caminho mais direto é um aparelho auditivo nesse ouvido. O estudo americano mostra que essa é a opção menos usada, mesmo por quem sente dificuldade, e o próprio artigo pede mais orientação ao público.
Sistema CROS: o som do lado surdo vai para o lado bom
Quando o ouvido afetado já não aproveita o som, existe no mercado o sistema CROS, sigla em inglês de “roteamento do sinal para o outro lado”. Ele tem duas partes: um transmissor com microfone, usado na orelha surda, que capta o som e envia sem fio para um aparelho usado na orelha que ouve, onde o som é tocado. Nos estudos, ele aparece junto com uma variação chamada BiCROS, de “roteamento bilateral do sinal”.
Um exemplo é a família Oticon CROS. O CROS RE é recarregável, vem em 9 cores e é o primeiro CROS com tecnologia Dual AI. Os modelos da família permitem ouvir música ou TV por streaming e, ao mesmo tempo, conversar com quem está do lado surdo.
O CROS ajuda quando alguém fala do lado surdo, porque diminui o efeito da sombra da cabeça. Os estudos mostram também os limites. Ele não devolve a noção de direção: num estudo coreano, a localização do som até piorou com o CROS. E quando o barulho vem do lado surdo, ele leva esse barulho para o ouvido bom, o que atrapalha.
Prótese por condução óssea
Outra forma de levar o som para o ouvido que funciona é pela vibração do osso do crânio. Um processador capta o som do lado surdo e faz o osso vibrar, e a vibração chega à cóclea, a parte do ouvido interno que transforma som em sinal para o nervo, do outro lado. Há versões presas por uma faixa na cabeça e versões fixadas num implante no osso atrás da orelha surda, que é uma cirurgia. A indicação é do otorrino.
Implante coclear
O implante coclear estimula diretamente o ouvido surdo com eletrodos colocados dentro da cóclea, enquanto o outro ouvido continua ouvindo naturalmente. Na surdez unilateral profunda, os estudos mostram melhora para entender fala no barulho e para localizar sons, em comparação com não tratar e com o CROS. Os resultados variam de pessoa para pessoa e não chegam ao de uma audição normal. As regras de indicação também mudam de país para país. É uma cirurgia, e quem avalia se você é candidato é o otorrino, junto com a equipe de implante.
Surdez unilateral é PCD?
Desde a Lei 14.768, de 2023, a surdez unilateral total conta como deficiência auditiva no Brasil. Perda leve ou moderada de um lado, com o outro normal, não entra. Os critérios do exame, o laudo, a Súmula 552 e os direitos de cota, isenção e aposentadoria estão no artigo sobre perda auditiva e PCD.
O que você pode fazer hoje
- Repare se você sempre usa o celular na mesma orelha ou se a voz some quando troca de lado. Se um lado parece claramente pior, marque a consulta.
- Se a perda começou de repente, não espere passar: procure o otorrino no mesmo dia.
- Não coloque cotonete, gota ou qualquer objeto no ouvido para “destampar”.
- Se tiver audiometrias antigas, guarde e leve. Elas ajudam a ver se a perda mudou.
- Nas conversas, sente-se de forma que as pessoas fiquem do seu lado bom e, no restaurante, de costas para o barulho.
- Conte para quem convive com você de que lado você ouve menos. Isso evita muito mal-entendido.
Perguntas frequentes sobre surdez unilateral
Surdez unilateral tem cura?
Depende da causa. Quando a audição baixou por cera ou líquido atrás do tímpano, ela costuma voltar com o tratamento. Na perda súbita, cerca de metade das pessoas recupera parte ou toda a audição, e o tratamento feito a tempo aumenta essa chance. Por isso a pressa em procurar o otorrino. Quando a perda já é antiga e profunda, os recursos atuais não devolvem uma audição normal, mas aparelho, CROS ou implante ajudam bastante no dia a dia.
Qual é o CID da surdez unilateral?
Na CID-10, os códigos de perda em um ouvido com o outro normal são H90.1 (perda condutiva), H90.4 (neurossensorial) e H90.7 (mista). Quem define o código é o médico, de acordo com o tipo de perda que o exame mostrar.
Surdez de um ouvido pode ser tumor?
Raramente. O neurinoma do acústico é benigno e aparece em cerca de 1 pessoa a cada 100 mil por ano, mas a perda de um lado é um dos primeiros sinais dele. Por isso o otorrino costuma pedir ressonância ou BERA para descartar, mesmo quando a chance é pequena.
Quem tem surdez unilateral precisa usar aparelho?
Não é obrigatório, mas vale avaliar. Se o ouvido com perda ainda entende palavras com o som amplificado, um aparelho nesse lado costuma ajudar nas conversas e no barulho. Se não entende mais, as opções passam a ser o CROS, a condução óssea ou o implante, discutidos com o otorrino.
Surdez unilateral com zumbido: é comum?
É. O zumbido pode acompanhar a perda do lado afetado, e zumbido novo de um lado só, junto com audição mais baixa, é motivo para procurar o otorrino logo. Veja mais em zumbido no ouvido esquerdo ou direito.
Surdez unilateral em Copacabana
Na Hear Clean, clínica de fonoaudiologia em Copacabana, você pode começar pela avaliação auditiva gratuita: conversa com a fonoaudióloga e audiometria completa, com tons e palavras, na nossa sala acústica, sem pedido médico e sem compromisso de compra. O exame mostra quanto cada ouvido ouve e se o lado com perda ainda aproveita amplificação. A audiometria atende a partir de 7 anos. Quando a perda de um lado é nova ou ainda não foi investigada, orientamos você a procurar o otorrino antes de qualquer decisão sobre aparelho. Se o ouvido afetado ainda entende palavras, adaptamos aparelho auditivo nesse ouvido, com aparelho, exames, adaptação e revisões incluídos no tratamento. A Hear Clean não adapta sistemas CROS nem BiCROS e não faz implante; nesses casos, o caminho começa com o otorrino.
Agende sua avaliação auditiva
Rua Santa Clara, 70, sala 1008, Copacabana, Rio de Janeiro. De segunda a sexta, das 9h às 18h.
Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta com médico otorrinolaringologista e fonoaudiólogo.
Referências
- Golub JS et al. Prevalence of adult unilateral hearing loss and hearing aid use in the United States. The Laryngoscope, 2018. PubMed
- Snapp HA, Ausili SA. Hearing with one ear: consequences and treatments for profound unilateral hearing loss. Journal of Clinical Medicine, 2020. PMC
- Chandrasekhar SS et al. Clinical practice guideline: sudden hearing loss (update). Otolaryngology-Head and Neck Surgery, 2019. PubMed
- Choi JE et al. A comparison between wireless CROS/BiCROS and soft-band BAHA for patients with unilateral hearing loss. PLoS One, 2019. PubMed
- National Institute on Deafness and Other Communication Disorders (NIDCD). Vestibular schwannoma (acoustic neuroma) and neurofibromatosis; Ménière’s disease. NIH. NIDCD
- Oticon. Oticon CROS. Oticon