Ouvido estalando: causas e quando se preocupar

Neste artigo (10 partes)

Sentir o ouvido estalando ao engolir, ao bocejar ou durante uma gripe é muito comum e, na maioria das vezes, não é sinal de doença. O estalo pode vir da tuba auditiva se abrindo, da articulação da mandíbula ou, bem mais raro, de pequenos músculos dentro do ouvido que se contraem sozinhos. Aqui você vai entender o que cada tipo de estalo costuma indicar, como separar um do outro pelo momento em que ele aparece e quando vale a pena se preocupar.

Mulher de cerca de 55 anos, de cabelo grisalho na altura dos ombros e blusa de seda creme, com o indicador perto da orelha e a mão apoiando a mandíbula, sentada junto a uma janela com vista para a praia

Se o estalo vem junto com a sensação de ouvido tampado depois de um voo ou de uma gripe, o artigo sobre ouvido tampado explica a pressão no ouvido e ensina as manobras seguras para destampar. Este texto trata do estalo em si: de onde ele vem e o que ele diz sobre o seu ouvido.

O que é o estalo no ouvido

O estalo que você ouve “dentro da cabeça” quase sempre nasce no ouvido médio, a pequena câmara com ar que fica atrás do tímpano. Essa câmara se comunica com o fundo do nariz pela tuba auditiva (a antiga trompa de Eustáquio), um canal da largura de um grafite de lápis que equilibra a pressão dos dois lados do tímpano.

A tuba passa a maior parte do tempo fechada. Quando você engole, ela se abre por um instante, deixa entrar um pouco de ar e a pressão se ajusta. Esse ajuste pode fazer um clique ou um “pop”. A Academia Americana de Otorrinolaringologia descreve isso: engolir é o jeito mais simples de equilibrar a pressão, e ouvir o “pop” indica que o ouvido se ajustou.

Existem outras fontes de barulho perto do ouvido. A articulação da mandíbula, a ATM, fica logo à frente do canal do ouvido e pode estalar ao abrir a boca e ao mastigar. E dentro do ouvido médio há dois músculos minúsculos, o tensor do tímpano e o músculo do estribo, que em algumas pessoas se contraem sem controle e produzem cliques.

Quando procurar o médico por causa do ouvido estalando

Procure o otorrinolaringologista se o estalo vier com algum destes sinais:

  • perda de audição de repente, principalmente de um lado só: nesse caso, procure atendimento no mesmo dia, porque a perda auditiva súbita tem prazo para o tratamento;
  • dor de ouvido que não passa, ou febre;
  • secreção ou sangue saindo do ouvido;
  • tontura forte ou vertigem, a sensação de que tudo gira;
  • zumbido que não passa, sobretudo se for de um lado só ou vier com dificuldade para ouvir;
  • batida no ouvido no ritmo do coração, porque o zumbido pulsátil pode ter causa nos vasos sanguíneos;
  • dor na mandíbula que piora ao mastigar, ou dificuldade para abrir a boca;
  • estalos com ouvido tampado que passam de 3 meses ou que voltam o tempo todo.

Ouvido estalando é normal?

Na maioria das vezes, sim. Um estalo de vez em quando ao engolir, bocejar ou mascar chiclete é a tuba auditiva fazendo o trabalho dela. Um consenso internacional de otorrinolaringologistas inclui “ouvir um clique ao engolir” entre os sinais usados para avaliar se a tuba está funcionando. Ou seja, ouvir esse clique costuma ser bom sinal.

O estalo passa a merecer atenção quando muda de padrão: aparece o tempo todo, vem com dor, com ouvido tampado que não passa, com queda da audição, com zumbido ou com dor na mandíbula.

74,8%

dos adultos com problema na ATM relatavam sensação de ouvido cheio, numa revisão de 8 estudos (Porto De Toledo et al., 2017)

115

pacientes com mioclonia do ouvido médio foram encontrados em 20 publicações, o que mostra como ela é rara (Wong e Lee, 2022)

Causas do ouvido estalando

O momento em que o estalo aparece é a melhor pista. A figura mostra onde fica cada uma das fontes mais comuns.

Ilustração da orelha em corte com quatro pontos numerados: a tuba auditiva descendo do ouvido médio em direção ao nariz, o ouvido médio onde ficam os pequenos músculos, o canal do ouvido onde a cera se acumula e, fora do corte, uma seta pontilhada em terracota indicando a articulação da mandíbula logo à frente do canal
O estalo pode vir da tuba auditiva (1), que se abre ao engolir e bocejar; dos pequenos músculos do ouvido médio (2), na mioclonia; do canal do ouvido (3), quando há cera acumulada; ou da articulação da mandíbula, a ATM (4), que fica logo à frente do canal e não aparece neste corte. Ilustração fora de escala.

Estalo no ouvido ao engolir ou bocejar: a tuba se abrindo

É a causa mais comum e, sem outros sintomas, é normal. O estalo acontece ao engolir saliva, ao bocejar, ao mascar ou quando a pressão de fora muda, como no elevador de um prédio alto, na descida da serra ou no avião. Ele dura um instante e não dói.

Ouvido estalando na gripe, na rinite ou depois do avião

Com o nariz inflamado por gripe, resfriado, sinusite ou crise de alergia, a entrada da tuba auditiva incha e passa a abrir com dificuldade. Os médicos chamam isso de disfunção da tuba auditiva. O consenso internacional descreve as queixas típicas: ouvido cheio, estalos, sensação de estar “debaixo d’água”, barulho de crepitação, zumbido e audição abafada. Muitas vezes o quadro começa depois de uma infecção do nariz e da garganta ou de uma crise de rinite alérgica.

Nessa fase o ouvido estala mais do que o normal, às vezes a cada engolida, e parece destampar e tampar de novo. Na maioria das pessoas isso melhora junto com o nariz. Pelo mesmo consenso, quando os sintomas passam de 3 meses a disfunção é considerada crônica, e o indicado é procurar o especialista.

As situações de mudança de pressão (avião, mergulho) e o que fazer nelas estão no artigo sobre ouvido tampado. Se o ouvido ficou abafado por outro motivo, como banho ou cera, veja ouvido entupido.

Estalo no ouvido ao mastigar: a articulação da mandíbula (ATM)

Se o estalo aparece quando você abre a boca, mastiga, boceja muito aberto ou mexe o queixo para os lados, a origem pode ser a ATM. Como ela fica colada ao canal do ouvido, o barulho e o incômodo parecem vir de dentro dele.

O consenso sobre a tuba auditiva descreve o quadro da ATM assim: desconforto na frente e em volta da orelha, em geral de um lado só, às vezes com estalos, audição alterada ou zumbido. O sinal mais característico é a dor que piora quando a mandíbula se mexe.

Os sintomas de ouvido são frequentes em quem tem problema na ATM. Numa revisão com meta-análise feita por pesquisadores brasileiros, a sensação de ouvido cheio apareceu em 74,8% dos adultos com disfunção da ATM, a dor de ouvido em 55,1%, o zumbido em 52,1%, a tontura em 40,8% e a queixa de perda auditiva em 38,9%. Hábitos como apertar os dentes costumam fazer parte da história. Esse quadro também explica muitos casos de dor de ouvido com o ouvido normal no exame.

Cliques rítmicos: mioclonia do ouvido médio

Mioclonia é o nome de uma contração involuntária e repetida de um músculo, parecida com a pálpebra que “treme”. No ouvido médio, ela pode atingir o tensor do tímpano, que puxa o tímpano, ou o músculo do estribo, preso ao estribo, um dos ossinhos da audição. Cada contração mexe o tímpano ou os ossículos e gera um clique, um tique-taque ou uma batida.

O barulho costuma vir em sequência, com ritmo próprio, que não acompanha os batimentos do coração. Em alguns casos ele é tão nítido que outra pessoa consegue ouvir com o ouvido perto da orelha do paciente; por isso entra no grupo do chamado zumbido objetivo. Contrações dos músculos em volta da tuba auditiva e do céu da boca podem dar cliques parecidos.

É um quadro raro: uma revisão sistemática reuniu só 115 pacientes em 20 publicações, com idades de 6 a 67 anos. Os autores notam que ainda não há critérios objetivos consagrados para o diagnóstico nem um tratamento padrão, e que a decisão é feita caso a caso pelo otorrinolaringologista.

Cera acumulada e outras causas no canal

A cera em excesso pode deixar o ouvido cheio e abafado e causar zumbido, coceira e a sensação de ter algo dentro do canal. Quando a pessoa tenta resolver com cotonete, o problema costuma piorar: a cera é empurrada para o fundo, e a irritação do canal pode até aumentar a produção de cera. O artigo sobre excesso de cera no ouvido explica por que ela se acumula e quem pode retirá-la.

Como diferenciar o estalo pelo momento em que ele aparece

  • Ao engolir ou bocejar, de vez em quando e sem dor: tuba auditiva funcionando. Normal.
  • A cada engolida, com ouvido cheio ou abafado, durante ou depois de gripe, rinite ou voo: provável disfunção da tuba auditiva.
  • Ao mastigar ou abrir a boca, com dor na frente da orelha ou na mandíbula: provável origem na ATM.
  • Cliques em sequência, com ritmo próprio, sem relação com engolir ou mastigar: pode ser mioclonia do ouvido médio.
  • Batida que acompanha o coração: não é estalo, é zumbido pulsátil, e precisa de avaliação médica.
  • Ouvido abafado, coceira e sensação de algo no canal: pode ser cera.

Como é feito o diagnóstico

O otorrinolaringologista começa pela conversa: quando o estalo aparece, se é de um lado ou dos dois, se tem ritmo, se piora ao mastigar, se houve gripe, voo ou mergulho. Depois examina o canal e o tímpano com o otoscópio. Na disfunção da tuba, o tímpano pode estar puxado para dentro. Na mioclonia, às vezes dá para ver o tímpano se mexendo em pequenos tremores durante o exame. Se a suspeita for a ATM, o médico apalpa a articulação enquanto você abre e fecha a boca.

Dois exames de audição ajudam:

  • Imitanciometria (ou impedanciometria). Mede a pressão do ouvido médio e o movimento do tímpano. Mostra quando a tuba não está ventilando bem e, em registro mais longo, pode captar as contrações dos músculos do ouvido médio.
  • Audiometria. Mede quanto você ouve em cada frequência e mostra se o estalo vem acompanhado de alguma perda auditiva.

Tratamento: depende da causa

O estalo normal da tuba não precisa de tratamento. Nos outros casos, quem indica o tratamento é o otorrinolaringologista, depois do exame. Na disfunção da tuba, ele trata a causa no nariz, como a rinite ou a sinusite. Se a origem for a ATM, o médico pode pedir a avaliação de um dentista. Na mioclonia do ouvido médio, as opções vão de acompanhamento a procedimentos no ouvido, e a escolha é individual. Não existe um remédio único para “estalo no ouvido”, e tomar ou pingar algo por conta própria pode atrasar o diagnóstico.

O que você pode fazer hoje

  • Observe quando o estalo aparece: ao engolir, ao mastigar, sem motivo, de um lado ou dos dois, com ou sem ritmo. Leve essas anotações à consulta.
  • Não coloque cotonete, grampo ou gotas no ouvido para “tirar” o estalo.
  • Não force manobras de soprar com o nariz fechado várias vezes por dia. Se o ouvido está tampado, as manobras suaves estão explicadas em ouvido tampado.
  • Repare na mandíbula: se você aperta os dentes durante o dia ou masca chiclete por horas, comente isso na consulta.
  • Cuide do nariz entupido com orientação médica, porque a tuba depende dele.

Perguntas frequentes sobre ouvido estalando

Ouvido estalando sem parar: o que pode ser?

Se estala a cada engolida e o ouvido está cheio ou abafado, o mais provável é a tuba auditiva inflamada por gripe ou rinite. Se são cliques em sequência, com ritmo próprio e sem relação com engolir, pode ser mioclonia do ouvido médio. Nos dois casos, se passar de algumas semanas, vale procurar o otorrino.

Ouvido fazendo barulho de bolhas: o que é?

A sensação de bolhas ou de crepitação é uma das queixas descritas na disfunção da tuba auditiva, quando o ar passa com dificuldade pelo ouvido médio. Costuma aparecer na gripe ou na rinite. Se vier com dor, febre ou secreção, procure atendimento.

Ouvido fazendo barulho de tambor: o que pode ser?

Uma batida rítmica pode ser a contração dos músculos do ouvido médio, a mioclonia, que tem um ritmo diferente do coração. Se a batida acompanha o pulso, é zumbido pulsátil, que pode ter causa nos vasos sanguíneos e precisa de avaliação médica.

Estalo no ouvido e zumbido: o que fazer?

Durante uma gripe, os dois podem vir da tuba auditiva e passar juntos. Se o zumbido ficou, é de um lado só, dura meses ou vem com dificuldade para ouvir, a diretriz americana de zumbido recomenda uma avaliação completa da audição. Veja mais em zumbido no ouvido.

Existe remédio para estalo no ouvido?

Não existe um remédio para o estalo em si, porque ele tem causas diferentes. O estalo normal não precisa de nada. Nos outros casos, quem indica o tratamento é o otorrinolaringologista, depois de descobrir de onde o barulho vem.

Ouvido estalando na gripe passa sozinho?

Na maioria das vezes, sim: a disfunção da tuba que aparece com a gripe costuma ser passageira e melhora quando o nariz desincha. Se os estalos e o ouvido cheio continuarem por mais de 3 meses, ou se a audição não voltar ao normal, procure o otorrino.

Ouvido estalando: avaliação auditiva em Copacabana

Quem investiga e trata a causa do estalo é o otorrinolaringologista. A Hear Clean ajuda com os exames de audição. A avaliação auditiva gratuita inclui a audiometria completa, com tons e palavras, na nossa sala acústica, e não precisa de pedido médico. Também fazemos a imitanciometria, que mede a pressão do ouvido médio, como exame avulso e sem pedido médico, para você levar o resultado ao otorrino. Se o estalo veio com zumbido que não passa ou com perda auditiva, explicamos os próximos passos com calma, incluindo o tratamento do zumbido com aparelho auditivo quando há indicação.

Agende sua avaliação auditiva

Rua Santa Clara, 70, sala 1008, Copacabana, Rio de Janeiro. De segunda a sexta, das 9h às 18h.

Referências

  • Schilder AGM et al. Eustachian tube dysfunction: consensus statement on definition, types, clinical presentation and diagnosis. Clinical Otolaryngology, 2015. PMC
  • American Academy of Otolaryngology-Head and Neck Surgery Foundation. Ears and altitude (barotrauma). ENT Health. ENT Health
  • Porto De Toledo I et al. Prevalence of otologic signs and symptoms in adult patients with temporomandibular disorders: a systematic review and meta-analysis. Clinical Oral Investigations, 2017. PubMed
  • Wong WK, Lee MF. Middle ear myoclonus: systematic review of results and complications for various treatment approaches. American Journal of Otolaryngology, 2022. PubMed
  • Voruz F et al. Isolated ear clicks with partial voluntary control. Tremor and Other Hyperkinetic Movements, 2020. PMC
  • Tunkel DE et al. Clinical practice guideline: tinnitus. Otolaryngology-Head and Neck Surgery, 2014. PubMed
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