Lavagem de ouvido: como é feita, se dói e quem pode fazer

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Homem de cerca de 70 anos, de cabelos grisalhos, sentado na poltrona da sala com a mão atrás da orelha, tentando ouvir melhor

A lavagem de ouvido é um dos jeitos que o médico usa para tirar a cera que tampou o ouvido. Muita gente procura quando o ouvido fica abafado de repente, a própria voz parece ecoar ou aparece um chiado depois do banho. O procedimento é simples e costuma ser rápido, mas não serve para todo mundo e não deve ser feito em casa. Aqui você vai ver como a lavagem é feita, se dói, quem não pode fazer, quais são os riscos e quem deve fazer.

O que é a lavagem de ouvido

É a retirada da cera com um jato suave de água morna no canal do ouvido. A água passa por trás da rolha de cera e a empurra para fora. Nos pedidos médicos, o procedimento aparece como irrigação do conduto auditivo ou remoção de cerume (cerume é o nome médico da cera).

A cera não é sujeira. Ela protege a pele do canal, segura poeira e ajuda a evitar infecções. Na maior parte das pessoas, o próprio ouvido se limpa: a pele do canal cresce devagar para fora e o movimento da mandíbula, ao falar e mastigar, ajuda a levar a cera até a entrada da orelha. O problema começa quando essa limpeza natural falha e a cera se acumula até tampar o canal.

Ilustração do ouvido em corte, com uma rolha de cera amarelada tampando o canal logo antes do tímpano
A cera acumulada forma uma rolha dentro do canal do ouvido, antes do tímpano. É por isso que o médico precisa enxergar o tímpano antes de decidir como tirar a cera.

Quando a lavagem de ouvido é indicada

A lavagem só é indicada quando a cera causa sintomas ou impede o médico de examinar o ouvido. Ter um pouco de cera, sem incômodo nenhum, não é motivo para lavar. A diretriz da Academia Americana de Otorrinolaringologia diz para não remover de rotina a cera de quem não tem sintomas e tem o ouvido fácil de examinar.

Os sinais que costumam levar à consulta são:

  • ouvido tampado ou sensação de pressão;
  • audição abafada, em um ou nos dois lados;
  • zumbido;
  • coceira ou dor leve no ouvido;
  • tontura;
  • tosse, em alguns casos.

Esses mesmos sintomas podem ter outras causas, como otite, líquido atrás do tímpano ou perda auditiva. Por isso o primeiro passo é sempre o exame do ouvido, e não a lavagem. Se você está com o ouvido tampado e não sabe o motivo, leia também o artigo sobre ouvido entupido.

Cera acumulada no ouvido é comum?

18,6%

das pessoas com 12 anos ou mais tinham cera obstruindo o canal do ouvido no exame (Tolan et al., 2024)

32,4%

entre as pessoas com 70 anos ou mais (Tolan et al., 2024)

Sim, e fica mais comum com a idade. Um estudo com 14.230 pessoas nos Estados Unidos, que tiveram o ouvido examinado por otoscopia (o exame com a lanterninha de aumento), encontrou cera obstruindo parte ou todo o canal em 18,6% dos participantes com 12 anos ou mais. Entre quem tinha 70 anos ou mais, o número subiu para 32,4%, quase uma em cada três pessoas.

Com os anos, as glândulas que produzem a cera diminuem, a cera fica mais seca e os pelos do canal ficam mais grossos. Tudo isso dificulta a saída da cera. Quem usa aparelho auditivo ou protetor de ouvido por muitas horas também acumula mais, porque o molde fica bem na saída natural da cera. E o cotonete, usado dentro do canal, empurra a cera para o fundo.

Quem não pode fazer lavagem de ouvido

A lavagem não é indicada para quem tem o tímpano perfurado, já fez cirurgia no ouvido ou está com infecção no canal. Nesses casos a água pode chegar ao ouvido médio, levar germes para dentro ou romper um tímpano que já está fino. Pela diretriz americana, antes de remover a cera o médico confere no histórico e no exame os fatores que mudam a conduta. Pedem outro método ou cuidado extra:

  • tímpano perfurado, agora ou no passado;
  • tubo de ventilação no tímpano (o “carretel” colocado em algumas crianças e adultos);
  • cirurgia anterior no ouvido, como a reconstrução do tímpano ou a cirurgia da mastoide;
  • otite ou secreção saindo do ouvido;
  • diabetes ou imunidade baixa: há casos descritos de otite externa invasiva, uma infecção grave do canal do ouvido, em pessoas com diabetes depois de uma lavagem;
  • radioterapia anterior na cabeça ou no pescoço;
  • canal estreito ou com pequenos crescimentos ósseos, as exostoses;
  • uso de anticoagulante, que aumenta o risco de sangramento se a pele do canal se ferir;
  • ouvido único: quem só escuta de um lado não deve lavar esse ouvido.

Ter uma dessas condições não quer dizer que a cera vai ficar lá. O médico apenas escolhe outro caminho, como a aspiração ou a retirada com instrumentos, que você vê mais abaixo.

Como é feita a lavagem de ouvido

A lavagem é feita no consultório, com você sentado:

  1. Exame antes de tudo. O médico olha o ouvido com o otoscópio, confirma que é cera e verifica se o tímpano está íntegro.
  2. Amolecer a cera, quando preciso. Se a cera estiver dura, o médico pode pedir que você a amoleça por alguns dias antes, ou pingar algo no ouvido alguns minutos antes da lavagem. Nenhum produto se mostrou melhor que os outros, e é o médico quem indica o que usar.
  3. Água na temperatura do corpo. A água fica perto de 37 °C. Fria ou quente demais, ela estimula o labirinto, a parte do ouvido interno ligada ao equilíbrio, e dá tontura.
  4. Jato suave. A água entra com pressão baixa, por seringa ou por um aparelho que controla a pressão, e segue para cima e para trás, pela parede do canal. Uma pequena bacia encostada abaixo da orelha recolhe a água e a cera.
  5. Exame no final. O médico olha de novo para confirmar que a cera saiu toda e que o canal e o tímpano estão bem. Se sobrou cera, ele repete ou troca de método.

Lavagem de ouvido dói?

Na maioria das vezes, não dói. Você sente a água morna entrando, ouve o barulho dela e percebe uma leve pressão dentro do ouvido. Algumas pessoas têm uma tontura rápida ou um zumbido passageiro, quase sempre ligados à temperatura da água, que somem em pouco tempo.

Dor de verdade não é esperada, e a pressão baixa existe para isso. Se doer, avise na hora: o médico para e reavalia. Se uma lavagem anterior doeu, conte isso na consulta, porque o médico leva em conta na escolha do método.

Quais são os riscos da lavagem de ouvido

Os riscos são pequenos quando a lavagem é bem indicada e bem feita, mas existem. Os mais comuns são leves e passam logo:

  • tontura ou náusea logo depois;
  • zumbido que dura pouco;
  • audição abafada por pouco tempo.

Complicações são raras. As mais descritas:

  • pequeno corte na pele do canal, com sangramento e dor;
  • otite externa, a infecção do canal do ouvido, porque sem a cera e com a água a pele fica mais vulnerável;
  • perfuração do tímpano, que geralmente fecha sozinha, mas precisa de acompanhamento;
  • lesão no ouvido médio, muito rara, que pode afetar a audição.

Sintomas após a lavagem de ouvido: o que é normal

Nas primeiras horas, é normal o ouvido ficar um pouco sensível e sair um resto de água. Uma tontura leve logo depois também pode aparecer e passar sozinha.

Procure o otorrinolaringologista se, depois da lavagem, você tiver:

  • dor forte ou que aumenta nos dias seguintes;
  • sangramento;
  • secreção, mau cheiro ou febre;
  • perda de audição que não existia antes;
  • tontura que não passa ou sensação de que tudo gira.

Outras formas de tirar a cera: aspiração e curetagem

A diretriz americana lista três caminhos, sozinhos ou combinados: amolecer a cera, lavar o ouvido ou retirar a cera com instrumentos.

Aspiração

O médico suga a cera com uma sonda fina ligada a um aspirador, enxergando o canal pelo microscópio ou pelo endoscópio. Como não usa água, costuma ser a opção para quem tem tímpano perfurado, cirurgia anterior no ouvido ou imunidade baixa. O barulho do aspirador pode incomodar um pouco.

Curetagem e pinça

Com uma pequena cureta (uma espécie de colherinha) ou uma pinça delicada, o médico retira a cera enxergando o que faz, também sem água. Exige treino e equipamento, porque o canal é estreito e a pele ali é muito fina.

Amolecer a cera

Às vezes, amolecer a cera por alguns dias basta para o ouvido eliminá-la. Em outros casos, isso deixa a lavagem ou a aspiração mais fácil. Quem decide se vale a pena, e com o quê, é o médico, porque em ouvido com infecção ou tímpano perfurado nada deve ser pingado sem orientação. Veja também como tirar cera do ouvido com segurança.

Por que não fazer lavagem de ouvido em casa com seringa

Porque em casa ninguém consegue ver o tímpano. A lavagem só é segura depois que alguém confirma, com o otoscópio, que o problema é cera e que o tímpano está íntegro. Sem esse exame, você pode jogar água num ouvido perfurado ou infeccionado, justamente os casos em que a lavagem não é indicada.

Há outros motivos:

  • Em casa, é fácil apertar demais a seringa e ferir o canal ou o tímpano. No consultório, a pressão é baixa e o médico vê o que está fazendo.
  • A temperatura da água erra fácil, e água um pouco fria ou quente já dá tontura forte.
  • Pode não ser cera. Ouvido tampado também é sinal de otite, de líquido atrás do tímpano ou de perda auditiva súbita, que precisa de atendimento rápido.
  • Os kits vendidos para uso em casa não resolvem. Num estudo de 2025, 147 adultos com cera acumulada usaram sozinhos um desses aparelhos, entre eles um irrigador. Em 88% deles a cera não diminuiu ou até piorou, e em 17% foi empurrada mais para dentro. Nenhum aparelho foi melhor que o cotonete.

A vela de ouvido, também chamada de cone, é contraindicada pela diretriz americana: não funciona e já causou queimaduras e perfuração do tímpano. O cotonete dentro do canal empurra a cera para o fundo e pode ferir a pele e o tímpano. A limpeza em casa deve ser só na parte de fora da orelha, com a toalha, depois do banho.

Quem acumula cera com frequência pode receber do médico um plano de cuidados em casa. Isso é bem diferente de lavar o ouvido por conta própria, sem exame e sem orientação.

Quem pode fazer lavagem de ouvido?

Quem remove a cera do ouvido é o médico, e o especialista indicado é o otorrinolaringologista. Ele examina o canal e o tímpano, avalia os fatores de risco e escolhe entre lavagem, aspiração ou retirada com instrumentos. Também tem o microscópio e o aspirador, que fazem falta quando a lavagem não é possível ou não funcionou. Quando a primeira tentativa não resolve, a diretriz americana recomenda encaminhar a quem tem equipamento e treino especializados.

Pelo plano de saúde, basta marcar uma consulta com otorrino. Pelo SUS, o caminho começa no posto de saúde (a Unidade Básica de Saúde), que avalia o ouvido e encaminha ao especialista quando necessário.

Lavagem de ouvido melhora a audição?

Quando a perda de audição vem da cera, sim, e a pessoa costuma sentir a diferença logo depois da remoção. Mas nem todo mundo volta a ouvir bem. Às vezes a cera tampava o ouvido e, ao mesmo tempo, escondia uma perda auditiva que já existia.

Pela diretriz americana, o médico confirma no fim que a cera saiu. Se os sintomas continuam com o canal limpo, é preciso investigar outras causas. Ouvido limpo e ainda abafado pede uma avaliação da audição.

Perguntas frequentes sobre lavagem de ouvido

Qual o nome técnico da lavagem de ouvido?

Irrigação do conduto auditivo externo. Em pedidos médicos e laudos também aparecem lavagem otológica e remoção de cerume.

Pode fazer lavagem de ouvido com o ouvido inflamado?

Não. Otite e secreção no ouvido estão entre as situações em que a lavagem não é indicada, porque a água pode piorar a infecção. Primeiro o otorrino trata a inflamação. Depois ele decide se e como tirar a cera.

Lavagem de ouvido pode perfurar o tímpano?

Pode, mas é raro. O risco cresce quando a pressão da água não é controlada ou quando o tímpano já está fino por cirurgia ou lesão anterior. Por isso o exame antes da lavagem não pode faltar.

Fiz lavagem no ouvido e continua entupido. O que pode ser?

Pode ter sobrado cera ou água, ou o ouvido tampado pode ter outra causa, como líquido atrás do tímpano ou perda auditiva. Se a sensação não melhorar em um ou dois dias, volte ao otorrino. Se ele confirmar que o canal está limpo e a audição continua abafada, o próximo passo é a audiometria.

Lavagem de ouvido tira zumbido?

Quando o zumbido vem da cera, ele costuma melhorar depois da remoção. Mas nem todo zumbido tem a ver com cera: no estudo americano com mais de 14 mil pessoas, a cera que fechava todo o canal não esteve associada a mais zumbido. Se o chiado continuar com o ouvido limpo, ele precisa ser investigado. Leia o artigo sobre zumbido no ouvido.

De quanto em quanto tempo posso fazer lavagem de ouvido?

Não existe um intervalo de rotina. A lavagem só é feita quando a cera causa sintomas ou atrapalha o exame. Quem acumula cera com frequência, como muitos usuários de aparelho auditivo, combina com o otorrino a frequência das revisões.

Avaliação auditiva em Copacabana

Quem remove a cera é o médico otorrinolaringologista. Depois da remoção, se a audição continuar abafada, se as conversas ainda exigirem esforço ou se o zumbido não passar, é hora de avaliar a audição. Na Hear Clean, fazemos a audiometria em cabina acústica e explicamos o resultado com calma. Se houver perda auditiva, indicamos o caminho mais adequado, do tratamento do zumbido à adaptação de aparelhos auditivos.

Agende sua avaliação auditiva

Rua Santa Clara, 70, sala 1008, Copacabana, Rio de Janeiro. De segunda a sexta, das 9h às 18h.

Se preferir, mande uma mensagem pelo formulário.

Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta com médico otorrinolaringologista e fonoaudiólogo.

Referências

  • Schwartz SR et al. Clinical Practice Guideline (Update): Earwax (Cerumen Impaction). Otolaryngology-Head and Neck Surgery, 2017. American Academy of Otolaryngology-Head and Neck Surgery. PubMed
  • Tolan MM et al. Cerumen impaction: prevalence and associated factors in the United States population. Laryngoscope Investigative Otolaryngology, 2024. PMC
  • Horton GA et al. Cerumen management: an updated clinical review and evidence-based approach for primary care physicians. Journal of Primary Care & Community Health, 2020. PMC
  • Kamm WE et al. Efficacy of over-the-counter cerumen removal devices: a randomized trial. Laryngoscope Investigative Otolaryngology, 2025. PMC
  • Sutton AE et al. Ear Irrigation. StatPearls, 2026. NCBI Bookshelf
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