Partes da orelha: anatomia do ouvido em linguagem simples

Neste artigo (11 partes)

As partes da orelha formam um caminho que o som percorre em uma fração de segundo: entra pela parte de fora, faz o tímpano vibrar, passa por três ossículos minúsculos, vira sinal elétrico no ouvido interno e segue pelo nervo até o cérebro. Conhecer esse caminho ajuda a entender o que o médico ou a fonoaudióloga quer dizer com “orelha média” ou “cóclea”, e por que cada problema aparece num lugar diferente. Neste guia de anatomia do ouvido em linguagem simples, você vai ver o nome e a função de cada parte, o problema mais comum de cada uma e onde ler mais sobre ele.

Mulher de cerca de 60 anos, de perfil, com o cabelo preso e a orelha à mostra, olhando o mar da varanda de um apartamento

Ouvido ou orelha: qual é o nome certo?

Os dois nomes estão certos, mas querem dizer coisas um pouco diferentes. No dia a dia, a gente chama de orelha a parte que aparece do lado da cabeça e de ouvido o que fica lá dentro e serve para escutar. Os livros de anatomia do Brasil usam outra regra.

Desde 1958, a nomenclatura anatômica oficial brasileira chama todo o órgão da audição de orelha, dividida em orelha externa, orelha média e orelha interna. Um artigo publicado em 1959 na revista da otorrinolaringologia brasileira resumiu a mudança assim: o aparelho auditivo passaria a ser “orelha, não ouvido”. A tradução da Terminologia Anatômica feita pela Sociedade Brasileira de Anatomia em 2001 manteve o termo orelha. Em Portugal, ouvido continua sendo o nome oficial.

Na conversa, “ouvido médio” e “ouvido interno” continuam comuns, e ninguém está errado por usar. Aqui usamos os nomes oficiais nos títulos e os populares quando ajudam. A mesma nomenclatura trocou “ossinhos” por ossículos e “trompa” por tuba.

Quais são as partes da orelha?

A orelha tem três partes, e cada uma cuida de uma etapa da audição:

  • Orelha externa: o pavilhão (a parte visível) e o canal do ouvido. Ela recolhe o som e o leva até o tímpano.
  • Orelha média: um pequeno espaço com ar atrás do tímpano, onde ficam os três ossículos da audição (martelo, bigorna e estribo) e a entrada da tuba auditiva.
  • Orelha interna: a cóclea, que transforma o som em sinal elétrico, e o labirinto do equilíbrio (vestíbulo e canais semicirculares).

Da orelha interna sai o nervo auditivo, que leva o sinal ao cérebro. É no cérebro que o som ganha sentido: uma voz conhecida, uma música, a buzina na rua.

Ilustração da orelha em corte com 12 partes numeradas: na orelha externa, o pavilhão, o canal do ouvido e a parte do canal que produz cera; na orelha média, o tímpano, o martelo, a bigorna, o estribo e a tuba auditiva; na orelha interna, os canais semicirculares, o vestíbulo e a cóclea; e o nervo auditivo
As três partes da orelha. Os números correspondem à lista logo abaixo. Ilustração fora de escala.
  1. Pavilhão da orelha
  2. Canal do ouvido
  3. Parte do canal onde a cera é produzida
  4. Tímpano
  5. Martelo
  6. Bigorna
  7. Estribo
  8. Tuba auditiva
  9. Canais semicirculares
  10. Vestíbulo
  11. Cóclea, onde ficam as células ciliadas
  12. Nervo auditivo

2,5 cm

é o comprimento típico do canal do ouvido de um adulto, com cerca de 8 mm de diâmetro (Mozaffari et al., 2021)

1 em 3

pessoas de 65 a 74 anos tem perda auditiva, nos Estados Unidos (NIDCD, 2023)

Orelha externa: pavilhão, canal e cera

A orelha externa é a porta de entrada do som. Ela vai da parte que você vê no espelho até o tímpano.

Pavilhão da orelha

O pavilhão é a orelha propriamente dita, a parte de cartilagem coberta de pele, com dobras e a ponta mole embaixo, o lóbulo. Seu formato direciona as ondas sonoras para dentro do canal do ouvido.

Canal do ouvido

O canal do ouvido (o nome técnico é meato acústico externo) é um tubo de cerca de 2,5 cm num adulto. Ele não é reto: tem uma leve curva em S. O terço de fora, perto da entrada, tem parede de cartilagem e pele com pelos. Os dois terços de dentro têm parede de osso e uma pele fina, colada ao osso, sem pelos e sem glândulas. No fundo, o canal termina no tímpano, como uma rua sem saída.

Cera: a limpeza que o ouvido faz sozinho

A cera é produzida por glândulas que ficam só na parte de cartilagem, a de fora. Ela se mistura com as células de pele que se soltam, lubrifica o canal e protege a pele contra atrito e micróbios. A pele do canal tem uma característica rara: ela “caminha” devagar de dentro para fora, mais ou menos na velocidade em que a unha cresce, e leva a cera junto. Os movimentos da mandíbula, ao mastigar e falar, ajudam nesse transporte. Por isso o ouvido se limpa sozinho.

Problemas mais comuns da orelha externa

Os mais frequentes são a rolha de cera, que aparece quando essa limpeza natural falha (o cotonete, por exemplo, empurra a cera para o fundo), e a otite externa, a inflamação da pele do canal que costuma surgir depois de piscina e mar. A cera acumulada atinge cerca de 10% das crianças e um terço dos idosos. Leia mais em como tirar cera do ouvido com segurança, otite externa e como tirar água do ouvido. Quem tira a cera acumulada é o médico otorrinolaringologista.

Orelha média: tímpano, martelo, bigorna e estribo

A orelha média é uma pequena cavidade cheia de ar, do outro lado do tímpano. É ali que o som, que chegou pelo ar, passa a viajar por ossos.

Tímpano

O tímpano é uma membrana fina que fecha o fundo do canal e separa a orelha externa da média. Quando o som chega, ele vibra. O cabo do martelo fica preso no meio do tímpano, de modo que cada vibração passa direto para os ossículos.

Os três ossos do ouvido: martelo, bigorna e estribo

Os ossículos da audição são três e formam uma corrente: o martelo está preso ao tímpano, a bigorna fica no meio e o estribo encosta na entrada da orelha interna. Juntos, eles amplificam a vibração do tímpano e a entregam à cóclea. O estribo é o menor osso do corpo humano.

Tuba auditiva

A tuba auditiva, que muita gente ainda conhece como trompa de Eustáquio, é um canal estreito que liga a orelha média à parte de cima da garganta, atrás do nariz. Ela faz três coisas: renova o ar da orelha média, drena o líquido que se forma ali e mantém a pressão igual dos dois lados do tímpano. É ela que se abre quando você engole ou boceja no avião.

Problemas mais comuns da orelha média

Os mais frequentes são o ouvido tampado, quando a tuba não abre direito (na gripe, na rinite ou na descida do avião); a otite média, uma inflamação com líquido atrás do tímpano; a perfuração do tímpano; e a otosclerose, em que o osso em volta do estribo cresce de forma anormal, o estribo fica preso e o som não chega bem à orelha interna. Leia mais em ouvido tampado e ouvido entupido.

Orelha interna: cóclea e o labirinto do equilíbrio

A orelha interna é um labirinto de osso e tecido mole, cheio de líquido. Ela tem duas funções bem diferentes: ouvir e manter o equilíbrio.

O que é a cóclea

A cóclea é a parte da audição. Tem o formato de um caracol e é cheia de líquido. Quando o estribo empurra a entrada da cóclea, o líquido se move e forma uma onda sobre uma membrana interna. Sobre essa membrana ficam as células ciliadas, células sensoriais com pequenos “pelos” na ponta, os estereocílios.

Cada região da cóclea responde a um tipo de som. As células da base, a parte mais larga do caracol, captam os sons agudos, como o choro de um bebê. As do centro captam os graves, como o latido de um cachorro grande. Quando os estereocílios se dobram com a onda, a célula gera um sinal elétrico.

Nos seres humanos, as células ciliadas não voltam a crescer. A maior parte da perda auditiva causada por barulho vem da lesão e da morte dessas células.

Vestíbulo e canais semicirculares: o equilíbrio

Os canais semicirculares são três alças cheias de líquido, dispostas mais ou menos em ângulo reto umas com as outras. Eles avisam o cérebro quando a cabeça gira. No vestíbulo, entre os canais e a cóclea, ficam duas bolsas, o utrículo e o sáculo. Elas têm pequenos grãos que a gravidade puxa, e por isso informam a posição da cabeça: se você está sentado, inclinado ou deitado, e para que lado está se movendo. O cérebro junta essas informações com a visão e com o que sente pelos músculos para manter o corpo em pé.

Problemas mais comuns da orelha interna

Os mais frequentes são a perda auditiva que vem com a idade (presbiacusia) e a causada por barulho, que em geral são permanentes, o zumbido, muito ligado à perda auditiva, e as tonturas. Na vertigem posicional, a mais conhecida, alguns desses grãos se soltam, caem num canal semicircular e causam uma tontura forte e rápida quando a pessoa mexe a cabeça. Na doença de Ménière, vêm juntos crises de vertigem, perda auditiva, zumbido e sensação de ouvido cheio. Leia mais em perda auditiva e ouvido tampado e zumbido. Tontura com perda auditiva pede consulta com o otorrinolaringologista.

Nervo auditivo: do ouvido ao cérebro

O nervo auditivo, também chamado de nervo coclear, leva o sinal elétrico da cóclea até o cérebro. É o cérebro que transforma esse sinal num som que você reconhece e entende.

Essa etapa ajuda a entender o zumbido. Uma das explicações mais aceitas é que, quando a orelha interna é lesada, o sinal que o nervo leva muda, e o cérebro passa a “ouvir” um som que não existe lá fora. O zumbido parece estar no ouvido, mas é gerado na área do cérebro que processa o som. Por isso o zumbido anda tão junto da perda auditiva. Veja como funciona o tratamento de zumbido e leia o artigo sobre zumbido no ouvido.

Como o som percorre as partes da orelha

Juntando tudo, o caminho do som tem seis etapas:

  1. O pavilhão recolhe o som e o manda para o canal do ouvido.
  2. O som atravessa o canal e chega ao tímpano.
  3. O tímpano vibra e passa a vibração ao martelo.
  4. Martelo, bigorna e estribo amplificam a vibração e a entregam à cóclea.
  5. O líquido da cóclea se move, as células ciliadas se dobram e geram um sinal elétrico.
  6. O nervo auditivo leva o sinal ao cérebro, que o reconhece como som.
Ilustração da orelha em corte com uma linha pontilhada mostrando o caminho do som em seis etapas numeradas: o pavilhão, o canal do ouvido, o tímpano, os ossículos da orelha média, a cóclea em espiral e o nervo auditivo seguindo para o cérebro
O caminho do som: entra pelo pavilhão (1), atravessa o canal (2), faz o tímpano vibrar (3), passa pelos ossículos (4), vira sinal elétrico na cóclea (5) e segue pelo nervo até o cérebro (6). Ilustração fora de escala.

As etapas 1 a 4 transportam o som. As etapas 5 e 6 transformam o som em informação para o cérebro. Essa divisão é a base dos dois grandes tipos de perda auditiva: a condutiva, quando o problema está na passagem do som (orelha externa ou média), e a neurossensorial, quando está na orelha interna ou no nervo.

Como saber em qual parte da orelha está o problema

Quem olha o canal e o tímpano é o médico otorrinolaringologista, com o otoscópio, o aparelho com luz que ilumina o fundo do ouvido. O que fica atrás do tímpano não aparece direito nesse exame, e aí entram os exames de audição.

Na audiometria, você ouve tons pelo fone e por um pequeno vibrador atrás da orelha. Pelo fone, o som percorre o caminho todo. Pelo vibrador, ele vai direto à orelha interna. Se a pessoa ouve bem melhor pelo vibrador, o problema está na passagem do som. O artigo audiometria tonal e vocal explica como ler esse resultado. A imitanciometria completa a investigação da orelha média: mostra como o tímpano se movimenta e se há pressão ou líquido atrás dele.

O quadro abaixo resume cada parte, o que ela faz e o problema mais comum que aparece nela.

Parte O que faz Problema comum
Pavilhão e canal Recolhem o som e o levam ao tímpano Rolha de cera, otite externa, água presa
Tímpano e ossículos Vibram e amplificam o som Perfuração, otite média, otosclerose
Tuba auditiva Ventila a orelha média e iguala a pressão Ouvido tampado na gripe e no avião
Cóclea Transforma o som em sinal elétrico Perda auditiva da idade e do barulho, zumbido
Vestíbulo e canais semicirculares Informam a posição e o giro da cabeça Vertigem posicional, doença de Ménière
Nervo auditivo Leva o sinal ao cérebro Perda auditiva neurossensorial, zumbido

Como cuidar de cada parte da orelha

  • Limpe só a parte de fora da orelha, com a toalha. Cotonete, grampo e ponta de toalha dentro do canal empurram a cera e machucam a pele.
  • Tire a água do canal depois de nadar ou tomar banho: incline a cabeça para a água escorrer e seque a orelha por fora.
  • No avião, ajude a tuba auditiva: engula, boceje ou masque chiclete na decolagem e na descida. Com gripe forte, pergunte ao médico antes de voar.
  • Proteja a orelha interna do barulho. Use protetor em show, obra e ambiente ruidoso e mantenha o fone num volume moderado. Como as células ciliadas não se refazem, prevenir é o que funciona.
  • Procure o otorrinolaringologista se a audição cair de repente ou se houver dor forte, secreção, zumbido novo num lado só ou tontura com perda auditiva.

Perguntas frequentes sobre as partes da orelha

Qual é o menor osso do corpo humano?

É o estribo, o último dos três ossículos da orelha média. Ele encosta na entrada da orelha interna e passa a vibração para a cóclea.

Onde fica o tímpano?

No fundo do canal do ouvido, a cerca de 2,5 cm da entrada num adulto. Ele separa a orelha externa da orelha média. Por isso cotonete e objetos pontudos no canal são perigosos.

Qual parte da orelha cuida do equilíbrio?

A orelha interna. Os canais semicirculares percebem quando a cabeça gira, e o utrículo e o sáculo, no vestíbulo, percebem a posição da cabeça em relação à gravidade. A cóclea, que fica ao lado, cuida só da audição.

As células ciliadas da cóclea voltam a crescer?

Não. Nas pessoas, as células ciliadas lesadas não se regeneram. Por isso a perda auditiva causada por barulho é permanente e a proteção contra o ruído é tão importante. Quando a perda já existe, o aparelho auditivo devolve o acesso aos sons.

Avaliação auditiva em Copacabana

Na Hear Clean, a avaliação auditiva gratuita inclui a audiometria completa, com tons e palavras, na nossa sala acústica. O exame mostra se a sua audição está normal e, quando há perda, se o problema parece estar na passagem do som ou na orelha interna. Não precisa de pedido médico. Quando o exame aponta um problema da orelha média, a imitanciometria ajuda a completar o laudo. Se a perda for da orelha interna, a fonoaudióloga explica as opções de aparelhos auditivos e, quando o caso permite, você testa o aparelho em casa antes de decidir. Quando a causa pede tratamento médico, como cera acumulada, otite ou tontura, orientamos a procurar o otorrinolaringologista. Para quem quer proteger a orelha interna do barulho, fazemos protetores auriculares sob medida.

Agende sua avaliação auditiva

Rua Santa Clara, 70, sala 1008, Copacabana, Rio de Janeiro. De segunda a sexta, das 9h às 18h.

Referências

  • National Institute on Deafness and Other Communication Disorders (NIDCD/NIH). How do we hear? 2022. NIDCD
  • National Institute on Deafness and Other Communication Disorders (NIDCD/NIH). Balance disorders. 2018. NIDCD
  • National Institute on Deafness and Other Communication Disorders (NIDCD/NIH). Noise-induced hearing loss. 2025. NIDCD
  • Mozaffari M, Nash R, Tucker AS. Anatomy and development of the mammalian external auditory canal: implications for understanding canal disease and deformity. Frontiers in Cell and Developmental Biology, 2021. PMC
  • Horton GA et al. Cerumen management: an updated clinical review and evidence-based approach for primary care physicians. Journal of Primary Care & Community Health, 2020. PMC
  • Mangabeira-Albernaz P. A nomenclatura anatômica oficial brasileira e a otorrinolaringologia. Revista Brasileira de Otorrinolaringologia, 1959. BJORL
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